Esporte

Torcidas organizadas LGBTQIA+ lutam contra a homofobia estrutural no futebol

Na semana em que se comemora o Dia do Orgulho Gay, Agência UVA traz reportagem especial sobre torcidas LGBT

Durante a catarse provocada por um gol, os torcedores no estádio pulam, gritam e se abraçam. Neste momento, não importa a cor da pele, classe social, orientação política ou sexual. Todos estão em sintonia, unidos pelo escudo e cores do time que amam e defendem. Para muitos, esse é o verdadeiro espírito do futebol: a capacidade de mobilizar pessoas distintas através de algo em comum. Mas, como antítese de sua própria essência, a atmosfera das arquibancadas acabou abrindo espaço para a homofobia. E mais do que isso, normalizou um comportamento agressivo, antidemocrático e heteronormativo que afastou torcedores que não seguissem esse padrão.

O machismo, o racismo e a homofobia, realidades diárias para muitos cidadãos, são também refletidos no comportamento de quem frequenta os estádios. Entretanto, da mesma maneira que o futebol pode servir para naturalizar a discriminação, ele pode ser usado como ferramenta de luta no combate ao preconceito.

Embora essa luta só esteja ganhando mais força e espaço nos veículos midiáticos atualmente, ela já existe há tempos.

Coligay


Em 1977, durante o período da ditadura militar no Brasil, um grupo de jovens resolveu quebrar os padrões da heteronormatividade e lutar contra o preconceito e o conservadorismo. Reunidos na arquibancada do Olímpico, antigo estádio do Grêmio, os 60 tricolores gaúchos assumidamente gays marcaram presença cantando e pulando para incentivar o time enquanto ostentavam faixas com o nome “Coligay”. Acontecia ali o primeiro grito de resistência LGBTQIA+ nas arquibancadas brasileiras.

Era um domingo de páscoa, e Grêmio e Santa Cruz-RS se enfrentavam pelo campeonato gaúcho. O estádio não estava lotado, mas havia torcedores o suficiente para apoiar o tricolor. Entre esses torcedores, estava o “Coligay”, primeiro movimento coletivo gay de torcedores organizados do Brasil. Sob olhares de indiferença e indignação dos outros gremistas, os “coliboys”, como eram conhecidos os integrantes da torcida homossexual, faziam a festa e agitavam a arquibancada apoiando o Grêmio, que venceu por 2×1. Nesse caso, o placar pouco importa. O episódio de pluralidade, diversidade e resistência foi o que entrou pra história.

Torcedores da “Coligay”, do Grêmio, nos anos 70 (Foto: Reprodução/WikiMedia)

Mas quem eram essas pessoas? A resposta para isso está diretamente ligada ao líder do grupo: Volmar Santos. Nascido em Passo Fundo, no interior gaúcho, Volmar era um empresário assumidamente gay e conhecido por ser um ‘agitador cultural’. Mas, acima de tudo, era um gremista fanático. Acompanhava o tricolor em todos os jogos durante a década de 1970. Apesar disso, uma coisa o incomodava: “a torcida estava muito desanimada”, dizia. Então, ele teve a ideia de criar sua própria torcida organizada.

Atrás de gente para torcer junto, Volmar recorreu aos clientes de sua boate, o “Coliseu”. Em um primeiro momento, ele achou que poucos iriam topar, mas para sua surpresa, muita gente demonstrou interesse. Após uma reunião na boate, todos chegaram a um acordo e a “Coligay” foi criada.

O grupo foi recebido com muita hostilidade por outros torcedores que não queriam associar a imagem do Grêmio a pessoas homossexuais.

“Existiram algumas tentativas de agressão no início, e houve até um episódio em que jogaram pedra na gente. Eu cheguei a colocar alguns dos integrantes em aulas de caratê, para que soubessem se defender”, conta Volmar.

Com o passar do tempo, a insistência da torcida em ocupar seu lugar na arquibancada e a boa fase do Grêmio acabaram tornando a Coligay sinônimo de “pé quente” no futebol, ganhando fama de talismã da equipe e tendo seu lugar cativo no estádio, de onde nenhum outro torcedor ousaria tirá-los.

“Fla Gay”


Entusiasmado com o sucesso da “Coligay”, o carnavalesco e ícone carioca, Clóvis Bornay, convocou torcedores homossexuais rubro-negros para irem juntos ao Maracanã assistir à partida entre Flamengo e Fluminense. Assim nascia, em 1979, a “Fla Gay”. 

A recepção nas arquibancadas foi a pior possível. Ainda que todos ao redor estivessem reunidos por um elo comum – torcer para o Flamengo – a “Fla Gay” não era bem-vinda. Além dos ataques sofridos pela própria torcida, após a derrota de 3 a 0 para o Fluminense, o então presidente rubro-negro, Márcio Braga, fez questão de se manifestar e endossar a homofobia presente nas arquibancadas alegando que a derrota seria uma suposta “praga da ‘Fla Gay'”.

A partir daí, as hostilidades e represálias só cresceram, e a recém-formada torcida foi condenada ao “gueto” das cadeiras numeradas do Maracanã. Sua extinção era apenas uma questão de tempo.

Houve ainda duas tentativas de reorganização. A primeira, liderada pelo ativista Raimundo Pereira que, entre 1996 e 1997, reunia mais de 100 torcedores homossexuais nas arquibancadas do Maracanã em jogos do Flamengo. Por desânimo dos participantes, esse período se encerrou e a torcida organizada voltou à inatividade. Na segunda tentativa, em 2013, a própria diretoria rubro-negra foi oposta à iniciativa, fazendo com que a ideia terminasse antes mesmo de começar.

Resistência contemporânea


Atualmente, é cada vez mais comum o aparecimento de novas torcidas LGBTQIA+, mostrando que e a luta contra a homofobia no futebol está cada vez mais forte, ganhando repercussão na grande mídia e nas redes sociais. Quando, além da torcida, os clubes decidem jogar a favor da diversidade e da pluralidade por meio de ações afirmativas, o discurso ganha ainda mais força, gerando uma mudança efetiva dentro do cenário futebolístico.

Foi o caso do Bahia, que em 2019 iniciou uma série de ações que integravam a comunidade LGBTQIA+ ao clube.

“O Bahia fez a primeira ação da camisa, eu vi e pensei que era uma ação de publicidade, de marketing, pink money bombando. Mas aí o time fez a segunda ação que foi a ‘Levante a Bandeira’. Ali entendi que existia espaço no clube e que se tratava de algo mais do que só marketing”, conta Onã Rudá, torcedor e membro da LGBTricolor Baiano.

A campanha “Levante a Bandeira”, promovida pelo Bahia, foi um fator chave para a desconstrução da sua torcida, consistindo em algo muito além de simplesmente colorir as bandeiras de escanteio com os conhecidos tons do arco-íris. Foram divulgados vídeos sobre a importância do combate ao preconceito, buscando conscientizar o torcedor. Ainda que episódios de homofobia ainda ocorram, a ação resultou na diminuição de ataques homofóbicos dentro da torcida do tricolor baiano, segundo o clube.

Daí em diante, a torcida LGBTricolor passou a se fazer presente nos estádios. “Isso é muito importante, pois naturaliza nossa presença nesses espaços. Ajuda também a combater a violência, pois mostra que esse ambiente não é para só um tipo de manifestação. Quando a gente está presente, as pessoas veem a gente e percebem que somos pessoas como outras quaisquer. Elas se desconstroem só pela nossa presença e pelo convívio”, destaca Onã.

Outro coletivo que luta por essa aceitação no ambiente futebolístico é a “Coral Pride” do Santa Cruz. Trata-se da primeira torcida LGBTQIA+ de Pernambuco, que surgiu em março de 2020 a partir do movimento de grupos sociais já existentes no clube e incentivadores da causa.

“Nós fizemos uma camisa e vamos ocupar o estádio mesmo, a gente não é uma torcida virtual nem somente uma página no Instagram. Somos um coletivo que já está ocupando um espaço dentro do clube trazendo as questões da população LGBT”, conta Pedro Ribeiro, membro da “Coral Pride”.

A torcida vem crescendo a cada dia, tornando-se até mesmo uma força política dentro do Santa Cruz. “Todas as forças envolvidas no processo eleitoral do clube vieram conversar e pedir nosso apoio”, destaca Pedro.

Clubes se manifestam no Dia Nacional do Orgulho Gay


O dia 25 de março é marcado pelo Dia Nacional do Orgulho Gay, e na última quinta-feira (25), alguns clubes brasileiros se manifestaram contra a homofobia em suas redes sociais e denunciaram a violência sofrida pela comunidade LGBTQIA+.

Entre eles, Flamengo, Vasco, Botafogo, Santos e Corinthians, como é possível ver abaixo em suas postagens:

Lucas Pires (7º período)

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9 comentários em “Torcidas organizadas LGBTQIA+ lutam contra a homofobia estrutural no futebol

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