Todos contra a LGBTfobia

No dia da luta mundial contra a LGBTfobia, a resistência e a união se mostram cada vez mais necessárias

Indecisão, má influência ou até mesmo “falta de porrada quando criança”. Essas palavras e frases, tão presentes no nosso vocabulário cotidiano, são também fios condutores do preconceito. No dia 17 de maio, é comemorado o Dia Mundial da Luta Contra a LGBTfobia e, apesar de muitos direitos terem sido conquistados ao longo do tempo, há ainda grandes batalhas pela frente.

Segundo dados do Grupo Gay da Bahia (GGB), a homofobia mata uma pessoa a cada 25 horas devido à orientação sexual. A situação se agrava pela falta de registros desses casos no Brasil, principalmente no Norte. Em 2016, por exemplo, foram computados 3,02 homicídios de pessoas LGBT a cada um milhão de habitantes na região.

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[foto: Reprodução da Internet].

O GGB também apontou que no ano passado foram totalizadas 340 mortes de gays, lésbicas, bissexuais, travestis e transexuais – o maior índice até então. Esses, entre outros dados, colocam o Brasil em liderança no ranking de países mais homofóbicos do mundo. O doloroso panorama é parte da história e constitui as vivências de milhões de jovens. Um deles é Pedro Bandoli, 21, estudante de Ciências da Computação na Universidade Federal Fluminense (UFF). A experiência de Pedro é, infelizmente, um retrato cruel de uma sociedade que ainda engatinha rumo à igualdade.

 Ele, que se assumiu aos 14 anos, conta como se deu esse processo e as dificuldades que enfrentou. “Meus pais são católicos e por conta dessa doutrina, tiveram uma  má reação. Fui expulso de casa e tirado da escola. Eles achavam que era só uma fase”, diz. Contudo, as ofensas que o estudante sofreu não se restringiam apenas ao ambiente familiar. “Na escola, era ainda pior. Ouvia todos os clichês homofóbicos e, por isso, tentava me auto afirmar, me encaixar de alguma forma. Mas era exaustivo e extremamente solitário.”

Depois de longos meses, Pedro deixou o lar dos seus tios  e voltou para casa. No entanto, a aceitação ainda parecia um objeto distante da sua realidade. “Voltei a morar com meus pais porque me sentia um visitante indesejado morando com meus tios. Quando minha mãe perguntou se eu já era hétero, respondi com um “sim”, pois era o que ela queria ouvir e eu já não aguentava mais a situação.”

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Pedro Bandoli [foto: Arquivo Pessoal].

Mesmo após seu retorno, a situação conflituosa do estudante se estendeu. “Eu era privado de  quase tudo. Não podia sair de casa ou encontrar com os amigos.   Mas, depois de um tempo, minha mãe tentou buscar ajuda e procurou um psicólogo. A partir daí, nossa relação foi melhorando”, afirma.

Já para Marcos Vinicius Rabelo, estudante de Medicina na Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ),  a homofobia  também está presente no contexto universitário, só que de forma velada. Porém, um episódio em particular resultou em agressão física. “Um rapaz do meu curso  sempre demonstrava comportamentos homofóbicos, e eu conversava para tentar mostrar que ele estava sendo preconceituoso. No dia de uma choppada na faculdade, ele veio até mim, para tentar me agredir, mas o soco acabou pegando no rosto do meu companheiro”, conta.

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Marcos Vinicius Rabelo [foto: Arquivo Pessoal].

Na casa do estudante, o tema sexualidade é ignorado. “Acredito que meus pais não queiram ter um filho gay, então evitam tocar no assunto por medo de descobrirem o que não querem saber. Isso gera muito desconforto, porque não posso ser quem eu sou com a minha família, que são as pessoas que deveriam me proteger.” Marcos  observa, ainda, que a homofobia é uma ferida histórica. “É um problema que deixa enormes sequelas na sociedade. O nosso papel é tentar fazer com que essas sequelas se tornem menos dolorosas a partir da educação, da tolerância e do respeito à diversidade”.

O ódio que mata

O caminho de Pedro e Marcos para se tornarem quem hoje são foi tudo, menos fácil. Assim como eles, outras pessoas passaram pelas etapas e as dores da autodescoberta. Todavia, algumas dessas pessoas se tornaram vítimas fatais de um crime de ódio ao que ê visto como diferente. Um exemplo recente ocorreu em Janeiro deste ano. Itaberli  Lozano, 17, foi espancado e morto a facadas pela própria mãe, que não aceitava a homossexualidade do filho. O corpo do estudante foi encontrado incinerado no interior de São Paulo.

Em países como a Chechênia, campos de concentração foram formados para prender e torturar a população LGBT do país. O líder checheno, Razman Kadyrov, informou, por meio de um porta-voz, que a informação é falsa, pois não existem homossexuais na Chechênia e, se existissem, “não haveria necessidade de leis punitivas porque os próprios parentes ficariam responsáveis por mandá-los a um lugar de onde não retornariam.” O quadro sangrento que se forma tanto em terras tupiniquins, quanto lá fora, permite constatar  a importância da união de forças para impedir mais assassinatos.

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[foto: Reprodução/Facebook: @eprafalardegenerosim].

Apesar dos relatos de experiências cruéis vividas por estes e tantos outros jovens, há motivos para se ter esperança, ao menos por aqui. Na última quarta-feira (10), o Supremo Tribunal Federal (STF) decidiu equiparar os direitos de uma união estável homossexual à de um casamento civil. Sendo assim, um indivíduo que estava em uma união estável com outro já falecido terá direito à metade de seus bens, como no casamento, e não apenas a um terço, como consta no Código Civil.

A decisão é um passo pequeno, mas crucial para a construção de um país igualitário. Os grupos LGBT, por sua vez, vêm se tornando mais presentes, ocupando espaços e oferecendo resistência frente aos desafios impostos pelo preconceito. As batalhas enfrentadas pela comunidade são, sem dúvidas, grandes, mas necessárias. Só assim os muitos Itaberlis, Pedros e Marcos espalhados pelo Brasil e pelo mundo poderão exercer sua liberdade, sem ter o medo como o denominador comum de suas existências.


Thainara Carvalho – 50 Período

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