Crítica: ‘Human flow – não existe lar se não há para onde ir’

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Homens, mulheres, crianças, idosos. Expulsos de suas terras por guerras, fanatismo religioso ou mudanças climáticas, rumam em busca de um lugar onde possam novamente recomeçar suas vidas, construir um novo lar, recuperar a dignidade e pagar com gratidão a ajuda recebida. Dirigido pelo diretor chinês Ai Weiwei, o filme “Human flow – não existe lar se não há para onde ir” chega às salas de cinema do Brasil nesta quinta-feira, dia 16 de novembro, retratando as dificuldades, dores e perdas enfrentadas por refugiados.
Por um ano, o cineasta percorreu campos de refugiados em 23 países, como Afeganistão, Bangladesh, França, Grécia, Alemanha, Iraque, Israel, Itália, Quênia, México e Peru, documentando histórias humanas que dão sentido a esse grande deslocamento que vem acontecendo nos últimos anos. Mais de 65 milhões de pessoas no mundo foram forçadas a sair de suas casas. Não se via uma migração de tamanha proporção desde a Segunda Guerra Mundial (1939-1945). Ai Weiwei elucida os cenários complexos desses movimentos migratórios com o olhar de quem tem uma trajetória marcada por questões de direitos humanos.
No documentário, os refugiados ganham rostos, expressões, nomes, ganham voz. São 65 milhões, mas não são uma massa; são humanos. Impossível ficar imune ao sofrimento de famílias inteiras que caminham sem nem saber qual é o destino. Muitos ficam pelo caminho. Mortos no meio do percurso, engolidos pelo mar ou pela terra. E os que chegam pedindo asilo viram não raramente alvo de xenófobos e racistas, como se para eles só restasse o direito a um pequeno pedaço de terra: o de uma cova. Mas há também aqueles que acolhem e esquentam os corpos quase congelados pelo frio do inverno europeu.
Voltar para suas terras não é opção. Ao encontrar portas fechadas, fronteiras com cercas de arame farpado e policiais, armam acampamentos em lugares sem nenhuma estrutura, na esperança de que um dia os portões voltem a se abrir. Um dia que não chega. Tudo ficou mais difícil desde que a União Europeia fechou um acordo com a Turquia, em 2016, para conter o fluxo de refugiados que migravam para a Europa. A Europa paga para que outros retenham os grupos de refugiados.
O cineasta constrói a narrativa do filme intercalando imagens gravadas pelo seu próprio telefone celular com as captadas por câmeras profissionais, inserindo na cena quem está assistindo ao documentário. Diminui distâncias. Derruba a crença de que eles estão lá e nós estamos aqui. Somos todos vizinhos em um mesmo mundo, um mundo que se torna cada vez menor. Provoca empatia e parece perguntar: E se fôssemos nós a precisar de abrigo?
É preciso discutir sobre o que está acontecendo com milhões de pessoas que não podem mais viver onde nasceram e cresceram. É preciso criar políticas para reinseri-las na sociedade. É preciso lembrar que migram, porque não é mais possível viver em sua pátria. E é preciso admitir que o mundo não sobreviverá se persistir a intolerância e o desrespeito à humanidade. É preciso ver “Human flow – não existe lar se não há para onde ir”.
Por que migram? Porque é preciso.


Patrícia Sá Rêgo – AgênciaUVA

9 comentários sobre “Crítica: ‘Human flow – não existe lar se não há para onde ir’

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