Em direção ao refúgio: Louise Berthe, minha família Togolesa

Louise Berthe: "Sinto saudades deles (família), se eles estivessem aqui meu coração estaria mais livre. Mas não posso voltar." Foto: Cáritas / Arquivo público

Louise Berthe: “Sinto saudades deles (família), se eles estivessem aqui meu coração estaria mais livre. Mas não posso voltar.” Foto: Cáritas / Arquivo público

A refugiada J. não é a única que tem planos para abrir um restaurante, a togolesa Louise Berthe, 53 anos, também compartilha esse mesmo desejo. “Eu gosto muito de cozinhar e tenho o sonho de abrir um restaurante para fazer comida africana. As comidas que eu faço são togolesas e camaronesas”, diz. Pequena, Louise aprendeu a cozinhar com sua avó e não deixou seu sonho para trás. Hoje em dia, trabalha na feira social “Chega Junto”, que reúne diversos refugiados cozinheiros de comidas típicas de seus respectivos países. Além de empregar, a feira promove uma experiência cultural, visando à integração deles na sociedade.​

A relação entre a África e o Brasil é bem antiga, vem dos tempos coloniais. Eles ajudaram a criar a culinária brasileira, e receitas como a tradicional feijoada e o “cozido”, preparado com cenoura, batata, abóbora e carne, são verdadeiras heranças gastronômicas africanas. Sem falar no azeite de dendê, leite de coco, banana da terra e outras iguarias também originárias da África. “A comida brasileira é parecida com a togolesa. A gente come acaçá, pirão, farinha com feijão, acarajé, a típica tapioca com coco ralado e churrasco. São os mesmos ingredientes, mas no estilo africano”, explica Louise.

​A cultura brasileira é o resultado da mistura de tradições indígenas, europeias e africanas. Essa diversidade, de certa forma, faz os refugiados se sentirem bem recebidos. “Tem muitos refugiados que acabam se encantando pelo Brasil, pela própria diversidade cultural e étnica. Eles também elogiam muito a capacidade de acolhimento do povo brasileiro. E, embora também façam críticas, a maioria destaca que os aspectos bons se sobrepõem que os ruins”, explica o cientista político, Maurício Santoro. Há quatro anos no Brasil, Louise, já se vê como uma brasileira e diz com orgulho, “Eu quero naturalização”.

Porém, bem antes de se quer imaginar que um dia seria tão feliz no Brasil, precisou enfrentar a ditadura, a discriminação, a imposição e violações aos direitos da mulher.  “Sai de Lomé, capital do Togo, para um lugar em que fosse livre. No meu país, se você for contra a família e o marido, ele pode bater em você e te expulsar de casa. Lá a mulher não é livre”, afirma ela. Mãe de três filhos e casada com Aliim, veio embora sozinha, com o sonho de preparar um lugar aqui, para recebê-los. “Sinto saudades deles, se eles estivessem aqui meu coração estaria mais livre. Mas não posso voltar”, reflete.

​Por um tempo, ela e o marido tentaram levar a vida que eles queriam, mas a influência da família tradicional, cada vez mais, se tornou insuportável. “Um dia estava lavando a roupa dos meus filhos, meu marido chegou para me ajudar, e colocou as roupas para secar. Suas irmãs viram e disseram que não podia”, explica Louise, referindo-se ao machismo praticado em seu país de origem. Além das restrições, a família de Aliim, também não aceitava o casamento e depois que Louise foi embora ele foi forçado, pela família, a casar de novo. “A irmã do meu marido mexia nas minhas coisas, batia o portão, me insultava, na minha própria casa e eu não podia fazer nada”, conta.

​​O Togo é composto por uma variedade de povos, e ainda há muitas famílias com costumes, que para nós, brasileiros, são arcaicos. Louise não aceitava a forma como eles queriam que ela vivesse, fazendo trabalhos domésticos, cuidando dos filhos e obedecendo às ordens, sem poder tomar suas próprias decisões. “Para fazer faculdade, estudar e trabalhar eu dependia da família. Tem família que não aceita. Lá eu não tive tempo de estudar, eu estava sozinha, trabalhava, ia ao mercado, cuidava da casa, filhos e marido. Eu fazia tudo”, revela.

​Louise veio para o Brasil por intermédio de uma amiga togolesa, que conhecia algumas pessoas no Rio de Janeiro. Inicialmente, pretendia ficar apenas seis meses, mas quando chegou aqui disseram para ela ficar e reconstruir sua vida. Depois de ter sido acolhida por uma família brasileira, foi morar em uma igreja. Atualmente, vive em uma casa alugada, em Brás de Pina, na Zona Norte do Rio. “Eu não sinto falta do Togo. Não quero voltar. Sou feliz aqui”, afirma Louise.

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Vitória Benício – 8º período. Esta reportagem faz parte do trabalho de conclusão de curso  “Em direção ao refúgio” (acesse a íntegra) em Jornalismo na Universidade Veiga de Almeida – Campus Tijuca.

Leia também: Crítica do filme ‘Human flow – não existe lar se não há para onde ir’

 

Um comentário sobre “Em direção ao refúgio: Louise Berthe, minha família Togolesa

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