Em direção ao refúgio: conheça as histórias de sete refugiados que encontraram um lar no Brasil

Kimia, Salaam, La paix, Mbote e La paz. Todas essas palavras significam “paz”. Seja em lingala, árabe, francês, kikongo ou castelhano, idiomas e dialetos dos refugiados que frequentemente chegam ao Brasil, todos têm o direito legítimo de buscar a paz. De acordo com o Comitê Nacional para Refugiados (Conare), só em 2016, cerca de 9.552 refugiados, de 82 nacionalidades distintas, aportaram em território nacional.

​Conhecido pela diversidade social e liberdade de expressão, o Brasil vem se consolidando como destino de milhares de refugiados. Com o objetivo de acompanhar a convivência dos solicitantes de refúgio com o povo brasileiro e revelar momentos de superação, esta grande reportagem multimídia conta a história de sete personagens. Mazen Sahlie, J., Louise Berthe, Daniel Neves, Christine Kamba, Mara Soki Frederico e Armando Baro encontraram um lar no Brasil.

Taj Din: o brasileiro-sírio que acolhe refugiados da Síria

A partir de dados do documento emitido pelo Alto Comissariado das Organizações das Nações Unidas (ONU), o “Global Trends”, é possível perceber que é da Síria o segundo maior número de solicitações de refúgio no Brasil. Mais da metade da população da Síria viveu em deslocamento em 2016, chegando ao total de 5,5 milhões de refugiados. A maior parte desse aumento ocorreu entre 2012 e 2015, quando a guerra atingiu seu ápice. Porém, foi em 2011, seguido por um efeito dominó da Primavera Árabe, que começou o início de um conflito que duraria mais de seis anos.

​Para o empresário, Taj Din, 59 anos, que nasceu no Brasil e foi criado na Síria desde pequeno, as intervenções de potências bélicas como os Estados Unidos, que armaram a milícia curda, e a Rússia, que, por outro lado, enviou tropas para ajudar o governo, mostram que a guerra envolve interesses políticos. “É tudo comercial, é uma guerra 100% econômica. A Síria é um país localizado estrategicamente, ele conecta a toda Ásia pelo acesso ao mar mediterrâneo”, diz ele.

تاج الدين / Taj Din: "Refugiados são empreendedores natos, eles não gostam de trabalhar como empregados."

تاج الدين / Taj Din: “Refugiados são empreendedores natos, eles não gostam de trabalhar como empregados.”

​​Taj voltou ao Brasil, pela primeira vez, em 1980, quando já tinha 22 anos. Embora tenha estudado engenharia eletrônica, na Jordânia, escolheu trabalhar no ramo de restaurantes no Rio de Janeiro. No mesmo ano em que a guerra da Síria começou, abriu sua loja especializada em comida árabe e com as receitas da família. Aos poucos, o restaurante Camelo’s, na Tijuca, Zona Norte do Rio, se consolidou no mercado. “O brasileiro adotou a esfiha (esfirra), é um dos salgados que mais vendemos. Tudo que oferecemos em nosso restaurante é feito com receitas de família e com ingredientes árabes”, conta.

Além de fabricar os lanches que vende, Taj usou sua fábrica, também localizada na Tijuca, para acolher diversos refugiados que chegavam da Síria. “No andar de cima da fábrica, havia um salão imenso com cozinha e banheiro. Eu comprei camas, travesseiros e outros objetos para eles morarem lá”, revela. Taj conta que a maioria dos refugiados chegava sem dinheiro e sem saber falar português. “Alguns trabalharam comigo durante um ou dois meses, para aprender um pouco da língua e ganhar um salário, até dar tempo de receber os documentos necessários”. Hoje, a maioria dos refugiados que ele acolheu trabalha na rua, com comida árabe. “Refugiados são empreendedores natos, eles não gostam de trabalhar como empregados”, afirma. “Mas fico feliz por ter ajudado a tanta gente”, diz Taj, que já abrigou mais de 10 pessoas em todos esses anos – atualmente, dois moram na sua fábrica.

Ao voltar a falar sobre a guerra em seu país, Taj é bem crítico. “Se fosse uma guerra só do povo contra o governo, o presidente já teria sido deposto, porém, ainda continua lá”, afirma Taj. O exército do governo Sírio e seus aliados vêm progredindo na retomada dos territórios invadidos pelo Estado Islâmico, e vem se notando que muitos refugiados estão voltando para suas cidades, a fim de reconstruir a vida e ver o que restou. A guerra não chegou ao fim, mas talvez esse seja um momento de esperança, para aqueles que deixaram tudo para trás. Atualmente, os familiares e amigos de Taj, ainda moram na Síria. “O exército sírio é o filho da nação, quando eles recuperam as cidades, as pessoas voltam e fazem festas”, comenta.

​A Síria do povo deixa lembranças. Liberdade religiosa, segurança, direitos às mulheres – como estudar, ter emprego, dirigir carros e se vestirem de acordo com suas crenças – eleições livres, de acordo com a Constituição, e entre outros aspectos faziam da Síria um país em ascensão. “A última vez que estive lá foi em 2010. Havia muitos hospitais, escolas e faculdades públicas para toda população. A cidade era segura e se vivia muito bem”, relembra Taj Din do tempo que passou em Tartus, antes do conflito começar. Hoje, o Brasil é sua casa.

Bem-vindos à Cáritas / Boyeyi malamu na Cáritas / Bienvenue à Cáritas / مرحبا بكم في كاريتاس / Bienvenidos a Cáritas

Localizado no bairro Maracanã, a casa discreta, de portão azul, com muros grafitados e uma placa amarela que diz “Atendimento a refugiados e solicitantes de refúgio”, antiga e desgastada pela ação do tempo, dá as boas-vindas a milhares de histórias vivas que cruzam pela entrada, diariamente. Mas que uma instituição social, eles são a primeira casa para os refugiados e famílias que chegam ao Rio de Janeiro, usualmente sem nada, apenas com as roupas no corpo e um coração pulsando por solidariedade. O Programa de Atendimento aos Refugiados (PARES), de acordo com a Cáritas, tem o objetivo de promover o acolhimento, assegurar os direitos dos refugiados e criar condições para que eles possam reconstruir a vida de forma digna.

Além do programa, há algumas ações e projetos envolvidos (Você pode ser a mudança na vida de um refugiado. Saiba como apoiar). Para tudo isso ser colocado em prática, profissionais, voluntários e apoiadores são indispensáveis para o programa realmente mudar tantas vidas. O trabalho profissional somado ao papel social que eles exercem, é a chave para lidar com tantas diferenças de idiomas, culturas e personalidades. A assistente social, Giuliane Gomes, 32 anos, apelidada pelos colegas de trabalho por Giu, é a responsável pela integração local do solicitante de refúgio, realizando o primeiro atendimento direto, visando responder as necessidades mais importantes. “Muitos não têm onde ficar, a questão do abrigamento é crucial, outros têm família ou amigos para ajudar. Em último caso encaminhamos para abrigo da Prefeitura ou redes de apoio”, explica. O primeiro contato é sempre difícil, pois são muitas informações que precisam ser averiguadas e repassadas aos refugiados.

Cáritas / Acervo público

Reconstruindo sonhos e um “lar doce lar”. Foto: Cáritas / Acervo público

​Há um ano e meio trabalhando na Cáritas, Giu tem que lidar com o lado profissional e os laços afetivos que os refugiados acabam criando. Para ela, é uma responsabilidade ser considerada “família” por eles, pois gostaria de poder fazer muito mais. “Eles têm tanta consideração pela gente, é recompensador”, afirma. Ela explica que há dois movimentos de refugiados, aqueles que após o processo de integração só voltam depois de meses, às vezes para tomar um café e dizer que estão bem, ou não. E aqueles que são recentes, aparecem quase todos os dias, para participar de todas as atividades, frequentar o curso de idioma, duas vezes na semana, perguntar sobre vagas de trabalho, e entre outros tipos de demanda. “A gente sabe que quando eles “somem” é porque estão bem, e que, quando precisam, mesmo depois de um tempo, ainda tem a gente como um ponto de referência”, conta.

Cinco países se destacam com maior número de solicitações reconhecidas, entre eles estão a Síria, República Democrática do Congo, Paquistão, Palestina e Angola. Já na América Latina, a Venezuela e a Cuba, se destacam com o aumento de deferimentos das solicitações. Em 2016, houve um aumento de 12% no número total de refugiados reconhecidos no país.

Atualmente 7.405 refugiados e solicitantes de refúgio moram no Rio de Janeiro. De junho a setembro, foram contabilizadas cerca de 212 novas entradas de refugiados na cidade, de acordo com a Cáritas. Em média, o setor de proteção legal atende até 25 pessoas por dia, contabilizando cerca de 80 atendimentos por semana.

Diante dessa crise humanitária, o trabalho social segue sendo essencial e prova que conviver – viver em paz – é uma condição que depende da nossa capacidade de viver, mutuamente, em solidariedade e cooperação. O melhor caminho sempre será com investimentos sociais, que visam a integração das pessoas, para o bem estar da sociedade.


Vitória Benício – 8º período. Esta reportagem faz parte do trabalho de conclusão de curso  “Em direção ao refúgio” (acesse a íntegra da reportagem) em Jornalismo na Universidade Veiga de Almeida – Campus Tijuca.

Leia também: Crítica do filme ‘Human flow – não existe lar se não há para onde ir’

2 comentários sobre “Em direção ao refúgio: conheça as histórias de sete refugiados que encontraram um lar no Brasil

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