Em direção ao refúgio: Mara Soki Frederico, representatividade trans

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Mara Soki: “Ninguém me obrigou a ser desse jeito. Eu nasci, cresci e vou morrer assim.”

Negra, transgênero, mulher, cabeleireira e refugiada. Essa é a angolana Mara Soki, 38 anos. Para muitos pode ser difícil entender, mas é simples assim. É quem ela é. Atualmente, milhares de pessoas enfrentam violência e discriminação, apenas por ser quem são. Há quatro anos no Rio de Janeiro, Mara já sofreu alguns casos de preconceito, mas nenhum se compara à intolerância que sofria em Luanda, capital da Angola. “É muito difícil para a sociedade africana aceitar minha escolha de identidade, tive muitos problemas e por isso precisei ir embora”, conta.

​A descoberta de Mara sobre sua identidade de gênero começou cedo. Ainda na infância ela já se sentia diferente, o que não foi nenhuma surpresa para família. “Sempre mostrei quem eu era, todo mundo já me conhecia assim, então não era algo estranho”, afirma. Se por um lado ela tinha a aceitação da família, por outro era fortemente reprimida pela sociedade. A homofobia ocorre de diversas formas, desde comentários ofensivos e xingamentos, até atos de violência física. “As outras famílias não entendiam que isso é natural, a gente nasce assim”. Na Angola, a cultura é um pouco fechada, muita gente me chamava de “bruxa” e me olhava de “cara feia”, relata Mara.

​Já no Brasil, ela descreve que se sentiu abraçada pela diversidade, além de ser bem acolhida, sempre foi respeitada. “Agora eu sou carioca. Todas minhas amigas me deram força para continuar aqui”, diz. Entretanto, de acordo com o Disque 100, só em 2016, foram realizadas 1.876 denúncias de violações dos direitos humanos contra a comunidade LGBT. Comparando os números com a vida real, a sociedade brasileira ainda tem um longo caminho a percorrer na luta contra esse tipo de preconceito.

Atualmente, Mara está passando por um processo de reconhecimento e transformações no corpo. Ela nasceu em um corpo masculino, mas sempre se identificou com o universo feminino, e por isso, decidiu fazer tratamento hormonal, para se sentir bem com sua aparência física, e se prepara para uma cirurgia de implante de seios. “É meu sonho. Eu quero mudar. Meus seios são resultado do hormônio, então quero colocar um seio maior”, revela, ela que tem como sonho fazer uma cirurgia definitiva de mudança de órgão sexual.

​“As pessoas que estão cheias de preconceito não conseguem entender o que nós queremos e o que gostamos. Ninguém me obrigou a ser desse jeito. Eu nasci, cresci e vou morrer assim”, afirma. Para conseguir fazer a cirurgia, Mara vai recorrer ao Sistema Único de Saúde (SUS), que já está realizando esse tipo de procedimento. “Eu não tenho condições de pagar uma cirurgia, mas não se trata só de estética”, conta.

​A agente de proteção legal da Cáritas, Aryadne Waldely, explica que a ONG tem uma abertura para encaminhar casos cirúrgicos para o SUS. “A gente tem as parcerias com hospitais, centros de saúde, com trabalhos especialmente em medicina social, que nos ajudam a dar um melhor atendimento a esses refugiados”, explica.

Mesmo diante da aparência, o não uso do nome social pode gerar situações difíceis. E por isso, Mara abriu um processo para mudar de nome juridicamente. Muitos transgêneros escolhem nomes sociais diferentes daqueles que estão na certidão, é uma forma para que se sintam completos. “A mudança de nome, no âmbito jurídico, vai ser mais difícil, especialmente no caso dela que ainda não teve reconhecimento pelo governo. Esse caso vai entrar numa demora que já acontece para os brasileiros e é acrescida pela condição provisória que ela se encontra”, explica Aryadne. Apesar disso, a agente acredita que se tiver paciência, Mara conseguirá sua documentação com o tempo.

Mara conta que tem o desejo de ser mãe e no futuro, depois que passar por esses procedimentos, se estiver com a vida mais organizada, irá adotar uma criança. “Eu quero adotar uma ou duas meninas. Penso nisso desde criança. Se tivesse condições seria agora, mas estou me preparando para isso”, revela. Seja brasileira ou angolana, ela não tem preferência e nem distinção, ama crianças e sabe que será uma boa mãe, independente da sua escolha de gênero. “Na minha vida eu escolhi não me esconder, as pessoas têm que se aceitar”, ressalta.

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Vitória Benício – 8º período. Esta reportagem faz parte do trabalho de conclusão de curso  “Em direção ao refúgio” (acesse a íntegra) em Jornalismo na Universidade Veiga de Almeida – Campus Tijuca.

Leia também: Crítica do filme ‘Human flow – não existe lar se não há para onde ir’

 

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