Em direção ao refúgio: Armando Baro, na luta pela democracia

Armando Baro: "Tenho fé de que aqui encontrei um lar."

Armando Baro: “Tenho fé de que aqui encontrei um lar.”

A palavra democracia é originária do grego e significa “governo do povo”. Uma das formas de exercer essa função é engajar-se em movimentos sociais, votar nas eleições diretas e participar ativamente na sociedade. Só assim o governo e as demais autoridades conseguem ter um retorno da opinião pública. A partir do momento em que a liberdade de expressão é reprimida, a sociedade entra em um processo de retrocesso, colidindo com o bem-estar da população. É o que podemos chamar de “estado de emergência”.

​Esse é o atual cenário da Venezuela. Herdeiro do chavismo, o atual presidente, Nicolás Maduro, tem conduzido o país a uma verdadeira crise humanitária. De acordo com a Agência da ONU para Refugiados (ACNUR), só em 2017, mais de 52 mil residentes venezuelanos solicitaram refúgio em países estrangeiros. Esse é o caso de Armando Baro, 37 anos, que chegou ao Brasil há dois meses. Acompanhado da esposa e de uma filha, de três anos, Armando e sua família vieram para o país na tentativa de reconstruir uma vida longe da represália do governo de Maduro. “Eu vim de Caracas, capital da Venezuela. E escolhi o Brasil por ser um país vizinho”, diz ele.

Além da crise econômica e política, o país está enfrentando escassez de alimentos nos supermercados, fracionamento de energia elétrica, falta de remédios e violência urbana, como torturas, desaparecimentos, assassinatos de manifestantes e presos políticos. “O PIB venezuelano caiu quase 20% no ano passado e isso é uma catástrofe. O desemprego aumentou muito. O problema da falta de comida que está afetando mais da metade da população está deixando as pessoas sem os gêneros básicos de alimentação, e há menos que se tenha muito dinheiro para comprar comida no mercado clandestino, as pessoas estão passando fome”, afirma Mauricio Santoro, professor de relações internacionais da Uerj.

​Armando e sua família fugiram do autoritarismo, que promove a insegurança à população. “Pedi ajuda para fugir da política e dos conflitos. Está havendo muita repressão para as pessoas que não apoiam a presidência. Eles não respeitam a democracia e a liberdade”, relata. O venezuelano conta que, durante uma passeata, presenciou a morte de um jovem que estava protestando contra o governo. “Aquilo me assustou e deu medo. Podia ter sido eu ou minha esposa ou qualquer outro conhecido. Na hora das manifestações, não há garantias de segurança”, relata. Para Armando, a democracia ocorre quando o direito de concordar ou não com a política é respeitado. De fato, ele não concorda e, por isso, saiu do país. “Eu venho em buscar de democracia e liberdade”, ressalta.

​O Brasil é um dos principais países que tem recebido refugiados da Venezuela, só em 2016, houve um aumento de 307% de solicitações de refúgio, de acordo com o “Global Trends”, da ONU. “As pessoas não precisam ser necessariamente perseguidas politicamente pelo governo, para se refugiar. As condições de vida na Venezuela somam uma série de violações dos direitos humanos, e por isso, muitos deles estão chegando como refugiados”, explica Maurício.

“Graças a Deus a política de refugiados do Brasil é muito boa, aqui nos ajudam, arrumam carteira de trabalho, protocolo de refúgio, currículo e entre outros”, diz Armando. Sem saber falar português, ele começou a fazer aulas de idioma, para então, conseguir um emprego na sua área de atuação, a informática. “Eu quero trabalhar no que eu sei fazer muito bem. Porém, agora aceitarei o que conseguir. Não quero ficar sem trabalhar, isso que importa”, explica.

​Mesmo sentindo falta de ir à casa de amigos em um domingo, comer comidas típicas venezuelanas e ouvir músicas de lá, ele ainda está no processo de readaptação. “Estamos como refugiados em um país que não é nosso, precisamos nos acostumar”, mas ressalta que no ponto de vista da relação interpessoal, os brasileiros são um povo afetuoso. “Mesmo que eu aprenda português, na minha casa falaremos espanhol. Eu quero que minha filha aprenda os dois idiomas, porque espanhol faz parte da sua vida, sua cultura, sua raiz”, diz ele. A sua cultura sempre fará parte da sua vida, porém, aqui Armando tem a certeza, de que encontrou uma possibilidade de viver, e afirma: “Tenho fé que aqui encontrei um lar”.

Em direção ao refúgio: conheça as histórias de sete refugiados que encontraram um lar no Brasil

 


Vitória Benício – 8º período. Esta reportagem faz parte do trabalho de conclusão de curso  “Em direção ao refúgio” (acesse a íntegra) em Jornalismo na Universidade Veiga de Almeida – Campus Tijuca.

Leia também: Crítica do filme ‘Human flow – não existe lar se não há para onde ir’

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