Em direção ao refúgio: Christine Kamba, uma canção para esquecer

Christine Kamba: "A música me ajudou a sair do buraco. Tinha pensamentos sobre a guerra, a violência e o estupro. Ela me ajudou a esquecer o passado. Hoje não consigo viver sem cantar." Foto: Arquivo pessoal

Christine Kamba: “A música me ajudou a sair do buraco. Ela me ajudou a esquecer o passado.” Foto: Arquivo pessoal

“Algo especial estava dentro de mim, desde a infância eu não deixava ninguém me impor nada”, diz a congolesa Christine Kamba, 27 anos, sobre o casamento infantil, um dos costumes mais tradicionais da sua província, Bandundu, na República Democrática do Congo. Além de ser forçado, muitas vezes pelos próprios pais, esse tipo de casamento é proibido pelo governo e por isso, foram criadas leis que vão contra a essa prática cultural. “Lá na minha cidade tem lei, mas a gente não pratica. Eu tive que me casar com um dos meus primos. Os pais fazem isso para receber os dotes e quando a menina atinge 12 anos, é levada para a casa do marido”, conta.

​De acordo com o relatório “Perfil do Casamento da Infância na África”, do Fundo das Nações Unidas para a Infância (Unicef), cerca de 125 milhões de meninas se casaram antes dos 18 anos na África. Christine, porém, não entrou nessa estatística, pois pediu ajuda da sua mãe para fugir de casa. “Minha mãe me deixou na casa de uma irmã mais velha em uma cidade vizinha. Desde então, nunca mais nos vimos e se não fosse por ela, eu não estaria viva”, relembra. Sem poder voltar para casa ou ver sua mãe, Christine foi criada por uma tia até os 17 anos, quando decidiu se casar e construir uma vida ao lado do seu marido.

​A história da República Democrática do Congo não é marcada apenas por tradições culturais arcaicas, mas pela guerra civil que desestabilizou o país, resultando na pobreza e na violência impulsionada por grupos rebeldes. Os dados do “Global Trends”, documento emitido pela ONU, revela que 2,9 milhões de congoleses foram forçados a sair do país em busca de refúgio. “Eu comecei a viver a guerra com sete anos, em 1997, quando o presidente Mobutu Sese morreu”, afirma ela. Durante muito tempo convivendo com a guerra, quando as filhas de Christine nasceram, ela decidiu fugir para um país vizinho. “Na minha cidade havia muita guerra e eu precisava ir embora. Nessa mesma época os rebeldes estavam saindo de Uganda para atacar o Congo. Eu só tive uma oportunidade para ir embora”, explica.

Ao chegar em Kampala, capital da Uganda, conseguiu passagens para o Rio de Janeiro e não pensou duas vezes. “Eu não podia ficar fugindo de cidade em cidade com minhas filhas. E também não queria arriscar ir para a França, pois, muitas crianças morrem nos barcos de travessia. Então preferi vir para o Brasil” conta ela.

​​A famosa receptividade e solidariedade do povo brasileiro já tinham chegado ao seus ouvidos, e esse foi um dos fatores decisivos para tomar a decisão de pegar o avião e aterrissar em um país totalmente desconhecido. “Tivemos que esquecer tudo. Esquecer quem éramos, esquecer-se da casa, dos bens que conquistamos, dos amigos, da rotina, da vida no Congo. Para seguir em frente é preciso esquecer”, ressalta Christine.

Ela chegou ao Brasil, em 2015. Estava grávida de dois meses e foi acolhida pela refugiada Ester, junto com seus três filhos. Seu marido ficou trabalhando no Congo, e só depois de um ano e oito meses, eles se reencontraram no Rio de Janeiro. “Só tinha um pouquinho de dinheiro quando finalmente consegui chegar ao Brasil. A dona da casa descobriu que Ester tinha deixado minha família passar um tempo lá, e obrigou a gente sair. Foi difícil, mas depois acabei indo para a Cáritas”, conta.

​Iniciativas como a da ONG Cáritas dão apoio aos refugiados, desde ajudar na alimentação até o requerimento de documentos. Ajuda financeira, no entanto, é precária. “O governo deveria tentar ajudar a gente. Até para conseguir documentação. Eu vou fazer dois anos e nunca fui chamada no Conare (que libera a documentação), a sede aqui no Rio até fechou. Eu não sei como vai ser”, diz ela.

​Processos como o de Christine costumam demorar até dois anos ou mais para que o cidadão estrangeiro seja reconhecido legalmente no país, o que acaba atrapalhando o refugiado a reconstruir sua vida. “Há uma fragilidade na acolhida governamental dessas pessoas. Elas dependem muito das ações individuais da caridade privada. Hoje em dia, o Conare tem uma dúzia de funcionários para analisar milhares de pedidos de refúgio. Então, as análises demoram alguns anos para sair”, explica o cientista político Maurício Santoro.

Um dos motivos para querer os documentos é para ter a possibilidade de convidar sua mãe para vir até o Brasil. Há treze anos sem vê-la, Christine sonha com esse dia. “Eu quero que ela veja como a filha cresceu. Como eu consegui ter tantos filhos, sem apoio e sem família. Ela ficaria muito orgulhosa”, diz, emocionando-se. As duas conversam todos os dias por telefone, desde que conseguiram se falar pelo Facebook. “Uma vez falei para minha mãe ligar a câmera do Skype, mas ela não quis. Disse que preferia ouvir minha voz, do que me ver pela tela de um computador, pois um dia quer poder me ver pessoalmente.”, conta.

​Christine não pode voltar ao Congo, e a saudade que sente da mãe, permanece no anseio por um reencontro. “Não posso voltar agora. Fui estuprada por um policial que está no comando até hoje”, revela ela. Ao passar por várias etapas de vida, esse momento ainda é delicado, pois, esse é um trauma difícil de esquecer. “O que aconteceu comigo ficou no “sangue”, descreve. Na tentativa de superar a dor, ela buscou nas canções um caminho para vencer. “A música me ajudou a sair do buraco. Tinha pensamentos sobre a guerra, a violência e o estupro. Ela me ajudou a esquecer o passado. Hoje não consigo viver sem cantar”, afirma.

​A música entrou na sua vida, inicialmente, como uma solução para acabar com a gagueira. “Eu cantava muito subindo as montanhas, com o tempo a gagueira passou, mas a música ficou dentro de mim”, conta Christine, que, aos cinco anos de idade começou a cantar nas igrejas e comemorações. “Embora não cantasse boas notas, era o meu sonho, então não desisti e continuei persistindo”. Atualmente, a congolesa é cantora gospel, trabalha com uma banda que canta músicas da sua cultura e faz aulas de canto. “As músicas daqui são mais clássicas, estou tentando me aperfeiçoar. Lá no meu país eu não tive essa oportunidade como estou tendo aqui”, relata.

 

Ser cantora é tudo para Christine, e a música é o motivo de sua fé. “A música me levou a ser cristã. Jesus ajuda na alma e a melodia também”, afirma. Recentemente, teve a oportunidade de cantar no programa da jornalista Fátima Bernardes, nos estúdios da TV Globo e testemunhar sua fé por meio de uma canção brasileira. A música não tem divisas, não precisa ser traduzida, basta apenas ser sentida. Além de unir culturas, ela é um meio para promover a espiritualidade, seja qual for a denominação religiosa.

Em direção ao refúgio: conheça as histórias de sete refugiados que encontraram um lar no Brasil


Vitória Benício – 8º período. Esta reportagem faz parte do trabalho de conclusão de curso  “Em direção ao refúgio” (acesse a íntegra) em Jornalismo na Universidade Veiga de Almeida – Campus Tijuca.

Leia também: Crítica do filme ‘Human flow – não existe lar se não há para onde ir’

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