Em junho de 2026, a editora Intrínseca lançou a primeira edição de “Eu, Medusa”, livro de Ayana Gray que conta a trágica história de uma das personagens mais famosas da mitologia grega. Nesta história, Medusa, a única filha mortal dos deuses antigos Ceto e Fórcis busca seu lugar no mundo e, por um tempo, pensa ter achado seu lugar como sacerdotisa da deusa da sabedoria Atena.
O livro busca contar sobre como Medusa se tornou um monstro da mitologia grega. Na sessão “nota da autora”, Gray diz que entre os contos que explicam este mito, escolheu reimaginar a versão escrita pelo poeta Ovídio. Relembra, também, que nenhuma história sobre a personagem mitológica pode ser considerada a “verdadeira”. Afirma que não há um consenso sobre onde a protagonista nasceu, logo, Ayana decidiu retratá-la em uma ilha fictícia que, por fim, acaba moldando a personalidade dela.
Medusa, portanto, é a irmã mais nova de Esteno e Euríale, que moram numa ilha do mar ao sul de Atenas. Como filhas de deuses antigos, inicialmente, as três são forçadas a arranjar bons casamentos que aumentem os status dos pais dentro da Corte do Mar – liderada por Poseidon, após a queda do titã Cronos. As três irmãs sonham em conhecer o mundo além da ilha, ato que seria alcançado apenas por meio do matrimônio. Porém, Medusa consegue um outro caminho para sair de lá depois de salvar a irmã Euríale e chamar a atenção da deusa Atena.
Salvar a irmã foi consequência de um crime e chamou a atenção da deusa da sabedoria depois que o confessou para salvar a vida de seu amigo Theo, quem estava em situação de escravidão dentro do palácio da família e era um dos suspeitos. Em seguida à demonstração de coragem de Medusa, Atena a convidou para prestar os desafios para virar sacerdotisa de seu templo em Atenas e após encarar resistências de sua mãe, Medusa deixou a ilha para formar sua vida na Acrópole de Atenas.
O livro, apesar de não apresentar avisos de conteúdos sensíveis, relata episódios de racismo que Medusa sofreu por ter seus cabelos em dreads dentro do Templo da deusa Atena e, também, sobre abusos e violências físicas e sexuais. Além disso, a obra faz o leitor se questionar até onde a justiça alcança, personalizada pela deusa Atena, que porta características humanas como os demais deuses da mitologia grega.
A narrativa aborda todo o envolvimento de Medusa com a cidade de Atenas, com a deusa e com Poseidon, deus dos mares, até o momento que é amaldiçoada injustamente por decepcionar Atenas ao perder sua castidade contra sua própria vontade. Então, seus cabelos são transformados em serpentes e passa a ter o poder de transformar as pessoas em pedra. Medusa, ao lado de suas irmãs que são amaldiçoadas igualmente, decidem passar o resto de suas vidas transformando homens em pedras como uma forma de se vingar pelo sofrimento passado.
Ayana Gray consegue retratar muito bem o desenvolvimento da personagem principal em relação ao sentimento de raiva e como passa a direcioná-lo à sede de vingança. A trama é recomendada para todos que se interessam em mitologia grega e entender como vilões são formados, ainda mais os mitológicos gregos que muitas vezes são vítimas da ira dos deuses.
Foto de capa: Divulgação/Intrínseca
Resenha de Natália Zichtl, com edição de exto de Cássia Verly
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