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“Muito mais que trinta dias” prende o leitor, mas tropeça em caminhos já conhecidos

O livro apresenta uma história de romance e descoberta em Roma, mas, apesar de conseguir prender o leitor, a obra também recorre a elementos já conhecidos do gênero e apresenta escolhas narrativas que podem prejudicar a imersão

Lançado pela Intrínseca, “Muito mais que trinta dias”, de Mika Serur, conta a história de Julian, um jovem que ainda não se encontrou na vida e que, após se candidatar a um emprego de um mês em uma escola de música em Roma, é convencido pela irmã a viajar com ela. Durante a viagem, ele conhece Luca, um astro em ascensão, e o que seria apenas uma experiência de um mês acaba se tornando uma história que vai muito além do período previsto.

O livro consegue prender a atenção do leitor, mas também apresenta situações que podem parecer conhecidas para quem já está acostumado com esse tipo de romance. Publicado inicialmente pela autora em algumas plataformas de fanfiction, espaço onde fãs ou escritores independentes publicam histórias criadas a partir de universos existentes ou desenvolvem suas próprias narrativas, o livro traz uma proposta interessante, mas também acaba esbarrando em alguns clichês desse tipo de história.

A ideia de uma pessoa viajar para outro lugar para tentar se encontrar, conhecer alguém durante essa viagem e, a partir desse encontro, construir um romance é um plot já bastante utilizado. “Muito mais que trinta dias” segue esse caminho e, em alguns momentos, a história parece algo que o leitor já viu em outros lugares.

Mika Serur, autora da obra.

Um dos pontos positivos está na transição entre os pontos de vista dos personagens. Quando a narrativa passa de Julian para Luca, a fonte do texto muda, mesmo que isso possa passar despercebido para quem não estiver atento. A escolha funciona justamente por não ser necessário colocar, no início do trecho, quem está narrando. A mudança visual permite identificar, mesmo que imperceptivelmente, a perspectiva de cada personagem sem interromper a narrativa para explicar quem está contando aquela parte da história.

Um ponto negativo aparece quando Luca ou outros personagens italianos falam em sua língua materna. O livro mantém as falas em italiano, mas não apresenta, em nenhum momento, a tradução do que foi dito. O leitor pode recorrer a meios para descobrir o significado, como o uso do celular, mas essa necessidade pode quebrar a imersão na história, principalmente quando acontece durante uma parte importante. A utilização do italiano ajuda a reforçar a ambientação da narrativa, que se passa em Roma, mas a ausência de uma tradução acaba criando uma barreira desnecessária para quem não conhece o idioma.

Para um livro de estreia, “Muito mais que trinta dias” mostra que Mika Serur consegue prender o leitor em sua história, mesmo quando a narrativa se parece com algo que já foi visto em outros lugares. A obra tem clichês e algumas escolhas que poderiam ser melhor trabalhadas, mas também apresenta recursos interessantes na construção dos personagens e na forma de apresentar seus diferentes pontos de vista. No fim, é uma história que não foge completamente de uma fórmula já bastante conhecida.

Foto de capa: Reprodução/Intrínseca

Resenha de Wilson Estevam, com edição de texto de Cássia Verly

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