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“Santo de Casa” desmascara a mentira familiar da porta para fora

O livro surgiu como uma carta à própria mãe do autor

Três irmãos retornam para a cidade de sua infância para organizar o enterro do falecido pai. Alan, Alex e Betina se reencontram entre o medo e a opressão vividas por ele dentro de casa, enquanto a cidade organiza uma procissão pelo vizinho benquisto. Juntos com sua mãe, dona Rute, a família passa por complexidades no momento delicado: a fragilidade da saudade do patriarca e o desejo de que aquilo tivesse acontecido mais cedo.

Publicado pela editora Record, o livro de Stefano Volp aborda luto, masculinidade, raça e gênero após a morte do vizinho boa praça. Entre os capítulos intercalamos o ponto de vistas dos irmãos e da mãe, contados pelo irmão mais novo, que observa de longe as complexidades dos familiares, os conhecendo por inteiro, e também se inserindo na sofrida vida com o agressor da família.

O primogênito prodígio fracassado, a irmã do meio transexual e o caçula gay, a família se escancara como o exemplo de vergonha que o patriarca sentiria em vida, todos os caminhos que seus herdeiros tomariam seriam a ruína do orgulho de Zé Maria, morto por uma onça da floresta que preocupava os habitantes da pequena cidade. Intercalando entre as memórias do passado opressivo e o presente avassalador, os filhos vivem os dias após a morte do pai como uma grande forma de se reencontrar com os fantasmas do passado que os marcam até hoje, em principal, o espírito violento do pai.

Entre a saudade do pai, fica a lembrança dos anos de agressões contra os filhos e a mãe. As cicatrizes, físicas e psicológicas ficam claras com o desenrolar da rotina vivida dentro de casa, entre os segredos das paredes da casa da família, segredos esses que se arrastam pelo resto da vida dos que crescem com as marcas de anos de violência; Alex não consegue ser o primogênito de orgulho para família; Alan não é o médico que o pai desejou que fosse; Betina não foi o pai que seu antigo eu foi projetado para ser; Tudo isso fica claro com o retorno dos irmãos à casa.

Entre as lembranças boas e ruins do pai, a família deixa escapar cada traço da personalidade construída através desse sistema opressor vivido por eles durante a infância, trazendo um final de reconciliação dos irmãos que se separaram e que, além de serem do mesmo sangue, são vítimas da mesma violência. Alan descreve tudo a pedido da mãe, que após anos confessou para o filho escritor contar a história verdadeira de quem foi Zé Maria: “Na rua um santo, em casa o diabo”.

O livro mergulha em um quebra-cabeça construído por Volp, cheio de peças enigmáticas, reflexões e desconforto proposital. O romance sobre luto traz um conceito diferente para o estilo da obra e se diferencia por abordar a verdade da morte, sem as aparências forçadas em vida.

Foto de Capa: Editora Record

Resenha de Gabriel Goulart

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