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“10 minutos e 38 segundos neste mundo estranho” traz a dura realidade da vida pós morte

Escrito por Elif Shafak, o livro conta a história de uma prostituta que sonha em uma vida impossível

Lançado pela Harper Collins, “10 minutos e 38 segundos neste mundo estranho” mergulha nos becos de Istambul, onde a prostituta Leila Tequila foi brutalmente assassinada misteriosamente. Após a parada cardíaca, o cérebro fica ativo por exatos dez minutos e 38 segundos, o que leva o nome título e os capítulos da obra. A autora turco-britânica Elif Shafak traz uma abordagem em terceira pessoa, observando a vida da personagem na cidade brutal e esperançosa que era a Istambul dos anos 70, dividindo a leitura em três partes: “A mente”, “O corpo” e “A alma”.

O livro começa pelo fim da vida de Leila, quando é encontrada morta por traficantes em um barril no beco da cidade. A cada minuto de sua atividade cerebral, Leila se lembra dos momentos marcantes de sua vida, como o nascimento de seu irmão, a descoberta das traições do seu pai, o abuso sofrido pelo próprio tio, e a necessidade de uma menina sonhadora de fugir das regras impostas pela família religiosa.

Nascida em Van, uma província na Turquia, em uma sociedade drásticamente dividida entre homens de um lado e mulheres do outro, Sinan Sabotagem era seu único amigo na adolescência. Enquanto as meninas já usavam burca e andavam em grupos, Leila se desprendia dessa tradição e vivia livre com seu único companheiro. Por ele, a personagem descobre o que acontece ao redor mundo, Sinan trazia livros, revistas e jornais às escondidas para Leila, como forma de fazê-la mais feliz.

As lembranças das inúmeras tentativas de uma segunda gravidez por parte de sua tia atravessam Leila nos primeiros minutos após sua morte. Ao descobrir que sua mãe na verdade era a empregada, pois a esposa de seu pai era infértil, ela se encontra em uma vida baseada em mentiras. Até o nascimento de seu irmão, que veio ao mundo com uma condição desconhecida na época e uma saúde muito fragilizada que, quando diagnosticado com Síndrome de Down, o irmão foi esquecido e descartado pelo pai, ainda vivendo dentro de casa. Após sete anos de seu nascimento, Leila voltava a ser filha única.

Durante muitos devaneios, Leila se lembra das crueldades vividas pelo seu tio que lhe abusou desde a infância e foi acobertado pelo irmão, o que moldou drasticamente sua personalidade, levando a episódios de automutilação. Nesse momento, a personagem principal se revolta e decide fugir de casa, com uns trocados fornecidos pelo melhor amigo. Após chegar na metrópole, Tequila cai em uma emboscada e traficada para um bordel próximo. Assim começa os próximo anos da vida da personagem entre os becos e as noites de programa na prostituição.

Enquanto suas memórias atravessam seu cérebro em decomposição, a família composta pelos amigos da vida; Jameelah, Nalan Nostalgia, Zaynab122 e Humeyra Hollywood buscam por Leila incasávelmente, a última notícia era que ela havia saído para mais uma noite de programa e não teria voltado para casa, o que os preocupa, já que conhecem a situação de prostitutas na grande Istambul da época.

Seus últimos minutos de lapsos de memória correspondem aos seus últimos anos de vida, onde ela lembra do seu casamento com o ativista D/Ali, o homem quem lhe tirou da vida noturna e prometeu o paraíso. Leila se lembra dos amigos, da saudade de casa, de como foi imposta a viver daquela forma e de como não desejava estar naquela posição. Leila se moldou para que Istambul não controlasse quem ela fosse.

A autora traz o ponto de vista de como mulheres foram e são marginalizadas na socidade religiosa e extremamente machista, onde mulheres como Leila, Humeyra, Zaynab e Jameelah eram tratadas apenas como pedaços de carne. Elif aborda, de forma indireta, um sentimento pessoal de como era não se sentir segura visitando seu país de origem, não podendo frequentar sua história de vida por medo de como o país à receberia.

Acompanhamos o desenvolvimento pessoal da personagem desde o início. Leila nasce, cresce e morre diante dos olhos de quem lê, torcendo por um final feliz após uma vida sofrida. Ao dercorrer da história, nos apegamos a uma criança curiosa, uma adolescente revoltada e uma adulta fragilizada pela vida, com um coração enorme que não se deixa – ou tenta- abalar pelas tristezas e amarguras da vida.

Os últimos capítulos do livro destacam a importânica da criação de laços em vida, quando o grupo de cinco amigos decide não deixar o nome de Leila apodrecer no Cemitério dos Inválidos e buscam justiça e um enterro digno para amiga. A escrita do texto é atravessada pela realidade feminina na sociedade, a forma que levamos a vida mesmo após os desafios impostos por ela e como o pós vida pode significar para quem fica.

Foto de Capa: Geek pop news

Resenha de Gabriel Goulart

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