Esporte Política

Muito além do futebol: o peso da geopolítica na histórica rivalidade entre Inglaterra e Argentina

As duas nações que já travaram uma guerra voltam a se enfrentar no maior palco do futebol mundial

Nesta quarta-feira (15), em Atlanta, Argentina e Inglaterra farão uma das semifinais da Copa do Mundo de 2026, confronto que define um dos finalistas para o jogo decisivo do próximo domingo. Os ingleses buscam seu bicampeonato após 60 anos do primeiro título mundial, conquistado em casa. Enquanto os argentinos batalham pelo seu tetracampeonato e pelo segundo título consecutivo, visto que são os atuais campeões da competição.

Este duelo é histórico além do fator força de cada equipe, que contam com jogadores de primeira prateleira do futebol mundial, como Jude Bellingham, Harry Kane, e claro Lionel Messi. Porém o encontro entre as duas seleções também carrega um contexto histórico tanto no futebol quanto questões geopolíticas envolvendo os dois países.

No âmbito político, as nações travaram uma guerra no ano de 1982 pela posse das Ilhas Malvinas, chamadas pelos ingleses de Falklands. Os argentinos argumentam que quem primeiro desembarcou e ocupou as ilhas foram os espanhóis que governavam o Vice-Reino do Rio da Prata, região que, até o século dezenove, fazia parte do território que hoje conhecemos como Argentina. Em 1810, a região se tornou independente da Espanha para se tornar um território argentino.

Entretanto, os ingleses defendem que foram os primeiros a desembarcar nas ilhas, uma vez que, em 1690, o capitão inglês John Strong desembarcou na região, batizando-a de Falkland em homenagem ao Visconde de Falkland, tesoureiro da Marinha que patrocinou a viagem. Um dos principais motivos de a Argentina reivindicar a posse das Ilhas Malvinas é a proximidade com o país, dado que as ilhas ficam a cerca de 600 km de distância da costa da Patagônia, enquanto estão a cerca de 13 mil km do Reino Unido.

O conflito durou 74 dias e terminou com a vitória do Reino Unido.
(Foto: Reprodução/Wikipédia)

Para Marcelo Coelho, professor de Geografia e especialista em Geopolítica, os dois países possuem argumentos para reivindicar a posse das Ilhas Malvinas, ou Falklands.

“A Argentina alega que teve a herança colonial espanhola nesse domínio do território das Malvinas, porque a Espanha foi o seu país colonizador e tinha o domínio das ilhas até o início do século dezenove. Já o Reino Unido considera o fato de administrar o local há séculos, desde 1833”, contextualiza Marcelo.

O professor tem uma página dedicada à Geografia e à Geopolítica no Instagram, @geo.decorpoealma.
(Foto: Reprodução/Acervo Pessoal)

Em 2 de abril de 1982, no contexto da ditadura militar que assolava o país sul-americano, o general Leopoldo Galtieri, chefe da junta militar que governava a Argentina, ordenou a recuperação das ilhas à força. A primeira-ministra do Reino Unido, Margaret Thatcher, enviou forças militares com mais de 100 navios da Marinha Real ao Atlântico Sul como forma de resposta às invasões argentinas. Era o início da Guerra das Malvinas.

Após dois meses de conflitos, o saldo foi de mais de 900 mortos, sendo 649 argentinos, 255 britânicos e três habitantes das ilhas. A guerra terminou oficialmente com a rendição da Argentina no dia 14 de junho de 1982, e, desde então, as ilhas estão sob administração do Reino Unido. Em 2013, os moradores das Malvinas votaram em um plebiscito, optando por permanecer como um território ultramarino do Reino Unido.

Marcelo argumenta que os impactos da guerra despertaram uma tensão entre os dois países que perdura até os dias atuais.

“Ainda há muitas sequelas da guerra. É um ódio muito forte por parte da população argentina em relação aos britânicos e vice-versa. É importante lembrar que a guerra de 1982 foi uma tentativa do governo ditatorial argentino, que estava em crise, de tentar retomar um nacionalismo. Tanto é que, quando a guerra acaba, a ditadura automaticamente chega ao fim na Argentina, visto que foi uma aventura irresponsável enfrentar uma potência militar. Marca muito o fato de cerca de 70% dos mortos na guerra terem sido argentinos, ou seja, esse conflito pesa como nunca para a população do país”, complementa o professor.

O duelo nas quatro linhas já reservou confrontos históricos, seja em Copas do Mundo ou em amistosos. Quando Argentina e Inglaterra se enfrentam, geralmente fica para a história. O jogo de quarta-feira será o primeiro de Lionel Messi contra os ingleses, um dos poucos países que o gênio do futebol jamais havia enfrentado. O encontro das equipes não acontecia desde 2005, em amistoso realizado na Suíça, no qual a Inglaterra saiu vencedora pelo placar de 3 a 2.

Nicolas Cabrera é argentino, professor da ECO-UFRJ e pesquisador do Observatório Social do Futebol da UERJ, e entende que a rivalidade entre Argentina e Inglaterra existe desde antes do histórico duelo da Copa do Mundo de 1986 e da Guerra das Malvinas.

O pesquisador Argentino, Nicolas Cabrera.
(Foto: Reprodução/Observatório Social do Futebol)

“O fato de o futebol ter sido criado pelos ingleses e de muitos dos clubes argentinos que surgiram no final do século dezenove e início do século vinte terem sido fundados por ingleses fez com que muitos argentinos tentassem criar um estilo de jogo em oposição ao estilo inglês. Na Copa de 1966, a rivalidade ganha outro nível, já que houve um jogo entre Argentina e Inglaterra em que o capitão argentino é expulso, e muitos argentinos consideraram a arbitragem tendenciosa e chamaram de roubo. Esse evento, inclusive, deu origem aos cartões que conhecemos no futebol hoje em dia”, revelou Cabrera.

A rivalidade, como destacou Nicolas Cabrera, existe há décadas. O jogo de 1966 acendeu as primeiras faíscas em Copas entre argentinos e ingleses. As duas equipes se enfrentaram pelas quartas de final, com polêmicas além do caso da expulsão, mas também por os argentinos alegarem terem sido prejudicados com a marcação do gol da Inglaterra, em que o jogador estaria em posição de impedimento.

No ápice da tensão política e da rivalidade futebolística, as seleções voltaram a se encontrar em uma Copa do Mundo em 1986, quatro anos após a Guerra das Malvinas. O jogo foi marcado pela magistral atuação de Diego Armando Maradona, que anotou dois gols antológicos contra os ingleses. O primeiro foi apelidado pelo próprio Maradona de “La mano de Dios” (A Mão de Deus). Ao disputar a bola com o goleiro Peter Shilton, o craque optou por socar a bola para o gol livre. Minutos depois, foi a vez de marcar um dos maiores gols da história das Copas do Mundo, ao driblar vários jogadores adversários e conseguir finalizar com pouco ângulo, mas com muita precisão.

Maradona tocando a mão na bola e marcando o gol contra a Inglaterra.
(Foto: Reprodução/FIFA)

“A imprensa, antes do jogo, já alimentava a rivalidade, falando sobre ser um momento de vingança e revanche, e que os jogadores deveriam jogar em nome dos soldados e das ilhas, ou seja, o jogo já tinha uma carga emocional muito forte no lado argentino. O gol de mão teve um sentido de burlar a lei contra os maiores colonialistas e saqueadores do mundo, existindo, assim, a sensação de revanche. Para mim, foi uma espécie de reparação simbólica, em que podemos perder a guerra, mas, no futebol, quem manda somos nós”, expressa Nicolas Cabrera.

Os dois países se encontrariam em um jogo de Copa do Mundo em 1998, na França, em uma partida que ficaria marcada negativamente na carreira de David Beckham. Após sofrer uma falta de Diego Simeone, o meio-campista inglês reagiu com chutes ao argentino, o que lhe rendeu uma expulsão. A Inglaterra foi eliminada naquele jogo, e o momento de Beckham saindo expulso ficou marcado por xingamentos e vaias, além de ele ser considerado o culpado pela eliminação inglesa. O famoso jogador do Manchester United foi rotulado de “imaturo” e “infantil”, além de ser tratado como vilão por anos.

A expulsão decisiva mudou a percepção da imprensa e dos torcedores em relação a David Beckham.
(Foto: Reprodução/X)

Em 2002, mais um jogo entre os países e, dessa vez, na fase de grupos, com a Inglaterra vencendo por 1 a 0, com o gol da redenção de David Beckham. Enquanto os argentinos saíam da Copa na primeira fase, os ingleses se classificaram, enfrentando e vencendo a Dinamarca nas oitavas de final e perdendo para o Brasil nas quartas.

A partida válida pelas semifinais desta Copa do Mundo vale muito para cada equipe. Com todo o contexto histórico e geopolítico e toda a rivalidade existente entre as duas nações, o resultado que acontecer será extremamente representativo para cada país. Seria a chance de voltar a uma final depois de 60 anos para a Inglaterra, com uma geração talentosa e experiente. Para a Argentina, existe um consenso de que este deve ser o último ato de Lionel Messi pela seleção, e, por isso, o canto “Pelas Malvinas, pelo Diego, pela última partida do Leo” vem sendo ecoado por argentinos espalhados pelo mundo.

Foto de capa: Divulgação/FIFA

Reportagem de Marcos Paulo, com edição de texto de João Gabriel Lopes

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