Saúde

Agravamento da insegurança alimentar representa perigo para a saúde da população

A nutricionista Cristiana Maymone conversou com a Agência UVA sobre a volta do Brasil para o mapa da fome, a piora com a pandemia e as consequências para os cidadãos

Para a Nutricionista e Mestre em Nutrição e Saúde Pública, Cristiana Maymone, a crítica situação de insegurança alimentar que envolve o Brasil atualmente está diretamente ligada a falta de compromisso político para com os direitos fundamentais dos indivíduos e com a crise financeira, que foi potencializada pela pandemia da Covid-19. Confira a entrevista que a Agência UVA fez com Cristiana a respeito do tema:

Agência UVA: A pandemia agravou diversos problemas que o país já enfrentava, uma delas era o acesso a alimentos. Desde antes do coronavírus girar o mundo de cabeça pra baixo, em 2019, o Brasil já voltava para o mapa da fome. Quais as consequências dessa regressão para a saúde dos brasileiros? Cristiana Maymone: A medida atual que temos é uma pesquisa epidemiológica avaliando a Segurança Alimentar. E ela vai classificar o quão adequado está o acesso permanente e regular a alimentos de qualidade, que levem em consideração suas relações culturais e em quantidade suficiente, sem comprometer o acesso a outras necessidades essenciais. Então, na situação de Insegurança Alimentar é quando a utilização biológica dos nutrientes está limitada. E coloca as pessoas em risco de desenvolver a má nutrição, como, a desnutrição e as carências de nutricionais, anemia, comprometendo desenvolvimento cognitivo, estrutural e de crescimento. Mas também há insegurança alimentar quando os alimentos são substituídos por produtos ultraprocessados, que são ricos em aditivos químicos, açúcares, sal e gordura que podem causar as doenças crônicas não transmissíveis, como diabetes, hipertensão, câncer. Mas quando falta comida, já está faltando muita coisa na vida da pessoa. Seja material, como moradia adequada, como a própria sanidade mental.

AUVA: É possível que a situação geral de insegurança alimentar possa deixar a população ainda mais vulnerável com relação ao Covid-19 também? CM: Sim. Um desequilíbrio nutricional pode atrapalhar o funcionamento do sistema imunológico, que necessita da interação das diversas substâncias que compõe um corpo saudável e por outro lado, alimentos gordurosos e com substâncias sintéticas prejudicam o desenvolvimento imunológico e ainda desenvolve Doenças Crônicas não Transmissíveis que estão sendo apontadas como uma possibilidade do desenvolvimento mais grave da COVID-19. Então a situação que estamos passando pela pandemia gera Insegurança Alimentar, gera manifestações mais graves da doença.

Nutricionista Cristiana Maymone. (Foto: Arquivo Pessoal)


AUVA: Quais os maiores motivos para o Brasil enfrentar a situação da fome, hoje em dia, levando em conta os desdobramentos políticos e mercadológicos atuai? CM: A gente tem colecionado um certo desmonte de políticas de proteção social. O Programa de Aquisição de Alimentos da Agricultura Familiar; Isenção de impostos para produtos ultraprocessados; Programas de Incentivo à Agricultura Familiar. Um bom exemplo foi a retirada do nome “Combate à Fome” do Ministério de Desenvolvimento Social e a extinção do Conselho de Segurança Alimentar e Nutricional, que é uma instância consultiva da Presidência da República com expressiva participação da sociedade civil. Também há falta de controle inflacionário, desmonte do SUS…É importante ressaltar que nosso próprio sistema agroalimentar ainda gera pobreza para os próprios agricultores. O fortalecimento do supermercado e a presença do intermediário que nem sempre paga o agricultor e explora sua força de trabalho. E essa força que o supermercado tem, inclusive nas periferias junto com o enfraquecimento da presença das feiras, também valoriza a presença dos ultraprocessados de forma proeminente e gerando ainda mais IA. Também existem isenções de impostos para formulações ultraprocessadas tornando mais barato e acessível que os alimentos frescos para uma parcela significativa da população.

AUVA: Qual o perfil mais atingido não só com a falta de acesso a comida, mas também a falta de acesso a comidas de qualidade e saudáveis? CM: Moradores de periferias, que moram em locais identificados como “desertos alimentares”, localidades que se encontram quantidades bem limitada de produtos frescos. Além das pessoas em situação de rua e pessoas com a renda comprometida, afetando diversas necessidades essenciais.

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AUVA: Na sua opinião, quais as políticas públicas mais eficazes emergencialmente falando, para atender às famílias afetadas? E as políticas que precisam ser aplicadas à longo prazo? CM: O auxílio emergencial deveria ser muito mais amplo no valor, na continuidade e no contingente de beneficiados. O desemprego aumentou e não houve o preparo para amparar essas pessoas, nem para os microempreendedores. Uma articulação para que agricultores possam escoar seus alimentos com maior facilidade como na execução do PAA e do PNAE. E no caso do PNAE, o ideal é a permanência da entrega dos alimentos aos estudantes, em vez de cartão/ vale alimentação, quando muitas vezes eles moram em desertos alimentares. Ampliação de feiras e mercados que os agricultores possam levar seus alimentos e que tenha enraizamento nas periferias. E pra longo prazo, eu diria que os primeiros passos seriam a reintegração do CONSEA e a reforma agrária popular que além da terra, os agricultores tenham autonomia no seu processo de produção de alimentos. A garantia do saneamento básico, incluído o acesso à água.


AUVA: Além da saúde física, a fome e a instabilidade alimentar também são capazes de afetar o indivíduo de outras formas e em outras esferas da sua vida? Quais por exemplo? CM: Sem dúvidas. Quando falta comida, já faltou muita coisa para essa pessoa viver com mínimo de dignidade. Ademais, a saúde mental já prejudicada pelo sistema é ainda mais pressionada por necessitar de alimento para que possa realizar o mínimo de suas ações sem prejudicar seus comportamentos, ações e funções biológicas.

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AUVA: A distribuição dos alimentos é um outro importante fator que contribuiu para a fome. Como esse problema especificamente pode ser combatido? CM: Ampliar feira e mercados populares com raios que adentrem a periferia direcionados para que os próprios agricultores comercializem seus alimentos. Em conjunto ações de educação alimentar pensados na promoção de alimentos frescos e baseados no Guia Alimentar para a População Brasileira.


AUVA: Qual a importância do  “Guia Alimentar para a População Brasileira” e a importância da sua preservação? CM: O Guia é uma ferramenta de orientação de políticas públicas voltadas à promoção da alimentação saudável e um instrumento de educação nutricional. Ele é produzido a partir de uma série de pesquisas e diálogo com diversos setores da alimentação para que se tenha o maior alcance de informações possível.O Guia de 2014 tem sido muito elogiado em vários outros países, servindo, inclusive, de modelo para eles. Chegamos a um instrumento que valoriza mais aspectos da alimentação, além do nutriente. Valoriza cultura, relação de harmonia com a alimentação e um sistema alimentar saudável. É um grande avanço para a ciência da nutrição, bem como para a promoção da saúde pública.

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AUVA: As implicações causadas nos indivíduos por conta da insegurança alimentar (dificuldade de aprendizagem, desempenho no trabalho, doenças por falta de nutrientes e excesso de processados, por exemplo) podem prejudicar também o coletivo, no caso, o desenvolvimento do país? CM: Acredito que um grande problema político e econômico para o país são os gastos públicos com assistência à saúde que poderiam ser economizados com políticas de assistência que garantam o Direito Humano à Alimentação e à Nutrição Adequada.Além do mais, aumenta a quantidade de pessoas impossibilitadas para o trabalho e qualificação educacional.


AUVA: Como nutricionista e estudiosa no assunto, qual o seu maior medo com relação ao rumo que o país está tomando com relação à alimentação da população? CM: O sistema alimentar atual é baseado em produção de commodities com altas quantidades de agrotóxicos. Estamos caminhando para a destruição total da nossa biodiversidade e da fertilidade do solo, bem como, crise hídrica. A cada geração há menos possibilidade de vida ambientalmente justa. É um projeto desumano, que ataca inicialmente os mais vulneráveis que não podem escolher alimentos frescos e os pequenos agricultores que vendem sua produção para indústrias que produzirão ultraprocessados.Estamos caminhando para a destruição da natureza, de culturas e de possibilidades de se alimentar com os princípios da natureza.

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Bárbara Souza – 7° período

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