Cinema

Mais que Amigos: é hora de tirar sarro da “brotheragem”

Mesmo com baixa bilheteria nos Estados Unidos, o longa é uma ótima comédia romântica

“Garoto conhece brother”, ou “boy meets bro”. É essa a frase de divulgação da comédia romântica “Mais que Amigos” (“Bros,”, no inglês original) dos estúdios Universal, que chega aos cinemas brasileiros em 6 de outubro .

A máxima deriva de outra, muito usada para descrever filmes heterossexuais do gênero: “garoto conhece garota”, ou “boy meets girl”. No Brasil, “bro” é o clássico “brother” ou “broder” abrasileirado. O que parece uma subversão é, na verdade, apenas o movimento natural da indústria, que mais uma vez investe em representar na grande tela o que, por muito tempo, ignorou sobre a realidade: algumas pessoas são gays, lidem com isso.

O roteiro é uma colaboração entre o próprio diretor, Nicholas Stoller, e Billy Eichner (“Vizinhos 2”), que também protagoniza o longa ao lado de Luke MacFarlane (“Um Crush para o Natal”).

“Mais que Amigos” pode trazer camadas de entendimento mais densas para o público não-versado, principalmente em seu título original, mas LGBTQIA+ em sua maioria logo sacam o pulo do gato. Ambos os termos “bro” e o abrasileirado “broder”, muito populares, designam homens heterossexuais másculos ao extremo ou homens homossexuais nada afeminados, também. Para um enredo onde Bobby, escritor abertamente gay interpretado por Eichner, se apaixona por Aaron, advogado para lá de bombado e carrancudo interpretado por MacFarlane, o título acerta em cheio.

Billy Eichner, roteirista e ator, dublou Timão no remake de “O Rei Leão”, da Disney
(Imagem: Divulgação/Universal Studios)

Ser ou não ser assumido, aqui, não é uma questão. A diferença entre Aaron e Bobby está na postura dos dois no dia a dia. O primeiro, ainda que assumido, favorece o porte considerado como “machão” pelo segundo, um militante fervoroso e nada preocupado em parecer ou soar másculo. Quando seus caminhos se cruzam em uma festa, regada a remixes de divas pop, leques e voguing, o bruto e o intelectual não saem de seus estereótipos, mas não conseguem negar a atração que sentem um pelo outro.

Em “Mais que Amigos”, essa é, inclusive, a palavra que mantém de pé o tema do filme. Estereótipos sobre o que significa — ou não significa — ser um homem gay são postos a prova a todo momento, e o roteiro consciente faz com que a jornada de questionamento, sentimento e autodescoberta dos protagonistas seja honesta e realista, preferindo as contradições humanas ao ideal exemplar de um “bom homossexual”.

Como dito por Bobby durante o filme, em um dos muitos momentos em que julga cada “tipo” de homem que encontra, “nem todo gay é legal”. No fim das contas, ele mesmo não escapa da mesma observação, e tudo bem.

A cidade de Nova York é o cenário escolhido para a comédia romântica
(Imagem: Divulgação/Universal Studios)

Bobby é responsável por inaugurar o primeiro museu de história LGBTQIA+ dos Estados Unidos, e tem a companhia de outros representantes da sigla em um conselho de curadores que rende boas risadas. Entre eles, é importante destacar a participação de Ts Madison, mulher trans cantora, atriz e personalidade da mídia norte-americana, como Angela. A presença de Madison na tela é muito bem-vinda, ainda que seu potencial cômico, comprovado em diversos de seus vídeos virais e participações televisionadas, tenha sido subutilizado.

Homofobia e baixa bilheteria

“Mais que Amigos” entra para o hall de grandes lançamentos recentes, chancelados por grandes estúdios e distribuidoras, estrelados por homens gays. “Com Amor, Simon” (2018, 20th Century Fox) e “Um Crush para o Natal” (2021, Netflix), que antecedem o longa de 2022, tocam para Bobby e Aaron a bola de um jogo que, cada vez mais, tenta garantir campo no mainstream.

Para “Bros”, entretanto, manter o jogo rolando tem se provado difícil. O roteirista e ator Billy Eichner desabafou, em uma rede social, que apesar da boa recepção da crítica e de sessões lotadas em partes dos Estados Unidos, outras estão esvaziadas, já que, segundo Eichner, o público hétero dessas regiões não foi ao cinema prestigiar o filme.

“[A revista] Rolling Stone destacou “Bros” como uma das melhores comédias do século 21, e uma franquia de cinemas comunicou que iria boicotar o trailer do filme devido ao conteúdo gay. A Universal os convenceu a não fazê-lo”, conta o ator em uma das postagens. O trecho original e a sequência de publicações pode ser lida no perfil do astro no Twitter.

De qualquer forma, a “brotheragem”, gíria que descreve o afeto quase-romântico entre dois homens, é transformada por Billy Eichner e Luke MacFarlane em uma verdadeira história de amor.

Confira abaixo o trailer oficial de “Mais que Amigos”:

Ficha técnica – “Mais que Amigos”
Direção: Nicholas Stoller
Roteiro: Nicholas Stoller e Billy Eichner
Gênero: Comédia/Romance
Ano: 2022

Foto de capa: Reprodução/Universal Studios

Crítica de Gabriel Folena com edição de texto de Daniela Oliveira

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2 comentários em “Mais que Amigos: é hora de tirar sarro da “brotheragem”

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