Comportamento Multimídia

Febre ‘True crime’: produções sobre histórias de crimes reais crescem no Brasil

Produções como “Pacto Brutal” e “A Mulher da Casa Abandonada” alavancam a popularidade do gênero no país

No topo dos rankings de séries, filmes e podcasts, o subgênero que retrata casos famosos de crimes reais que abalaram gerações no país e no mundo têm dominado o mainstream e o gosto popular nos últimos tempos. Não à toa, produções como a minissérie documental ‘Pacto Brutal: O Assassinato de Daniela Perez’ da HBO e o podcast ‘A Mulher da Casa Abandonada’, da Folha de São Paulo, são alguns exemplos dos títulos recentes mais comentados dentro e fora das redes sociais.

O sucesso do gênero vem alavancando uma série de novas produções, a fim de atender à expectativa dos fãs sedentos por diferentes histórias. As produções, por sua vez, compartilham do mesmo formato narrativo não-ficcional, conhecido popularmente como ‘true crime’, gênero que explora o desenrolar de crimes hediondos. 

Uma série de debates em torno do tema têm surgido ao longo dos últimos meses. Uma delas traz à tona a banalização da violência, isto é, quando crimes brutais viram entretenimento em vez de gerar conscientização sobre a violência e a criminalidade. Em que momento a curiosidade por crimes hediondos se torna nociva para o coletivo? 

Para a professora da Universidade Veiga de Almeida (UVA) Michele Cruz, Doutora em Comunicação, a alta repercussão em torno do gênero fomenta a reflexão sobre a violência e também sobre o comportamento do criminoso.

“As consequências da espetacularização são várias. Pode acontecer o que a gente chama de ‘pedagogia do crime’, porque esses casos mostram toda a metodologia usada pelo criminoso. Muitas vezes com mortes planejadas”, diz a pesquisadora. 

Apesar dos riscos, a especialista reitera o outro lado do acesso a essas histórias. “O ponto positivo é que a partir desses casos, a gente pode discutir a violência de uma forma mais complexa, como crimes cometidos por serial killers. Tem uma questão de violência patológica, que é um caso de saúde pública e não de repressão, de aparelho repressivo como a Polícia, por exemplo. Esses tipos de crime, esses tipos de história, podem impulsionar uma reflexão super bacana para a complexificação da violência e dos perfis dos crimes”, analisa. 

A estudante Rebeca Matos, de 18 anos, fã do gênero, teve o interesse aguçado por crimes reais durante a pandemia, período em que migrou do consumo dos livros para o audiovisual. Para ela, compreender como funciona a mente de um criminoso é o que torna as histórias mais atrativas.

Rebeca Matos gosta de livros e séries com a temática. (Foto: Acervo Pessoal)

“Meu interesse por histórias de crimes reais surgiu durante a pandemia, quando estava procurando no Youtube e encontrando canais específicos sobre o assunto. Já tinha muito interesse sobre o tema lendo livros ficcionais, de detetives, e também alguns sobre psicopatia da Drª Ana Beatriz Barbosa. Depois de ler esses livros, passei a ter muito mais interesse por histórias de crimes reais”, conta.

Entre os livros da autora citada por Rebeca está o best-seller ‘Mentes Perigosas: o psicopata que mora ao lado’. No livro, a psiquiatra aborda sobre a perversidade da mente humana. 

True crime e os desafios da narrativa jornalística


A atenção para o podcast ‘A Mulher da Casa Abandonada’, criado pelo jornalista Chico Felitti, que conta a história de uma mulher que manteve durante anos uma doméstica em condições de trabalho análogas à escravidão, levou o público ao bairro de Higienópolis, em São Paulo, para tours em frente a casa com direito a memes e selfies compartilhados nas redes sociais. Gerou, também, debates sobre o sistema escravista brasileiro. Sobre o caso, a professora Michele analisa:

“A partir do podcast as pessoas começam a contribuir para o caso, e assumem aquela causa a partir do consumo daquele conteúdo, tomando conhecimento de vários problemas da sociedade. Eu vejo esse caso específico de uma forma muito positiva para conscientizar e mobilizar a opinião pública em torno de pessoas criminosas que vivem no anonimato”, destaca.

Curiosos em frente ao imóvel onde vive Margarida Bonetti, a ‘Mulher da Casa Abandonada’ no bairro de Higienópolis, em São Paulo
(Foto: Reprodução/ESTADÃO)

Apesar da importância do trabalho jornalístico diante dos crimes, é preciso distinguir o papel da imprensa e da investigação policial para que não haja interferência prejudicial nos procedimentos legais, seja por meio de divulgação de informações ou de documentos. É o que aponta a professora Érica Ribeiro, também Doutora em Comunicação, sobre os limites da atuação jornalística nas produções investigativas.

“A mídia pode e deve divulgar casos policiais dentro do papel social que ela exerce, de casos que são de comoção, casos que são de interesse social. Por outro lado, ela não pode nunca fazer o papel da polícia”, ressalta Érica.

Sobre a apuração jornalística, a especialista lembra que o jornalista deve agir sempre de forma ética.

“Agir com ética, seriedade, e dentro da lei são os principais pontos que temos que levar em consideração ao apurar e desenvolver qualquer produto jornalístico. Quando falamos de Jornalismo, temos o papel não só de mediação, mas também um papel informativo muito forte perante a sociedade”, pondera.

Reportagem Mayani Caldas, com edição de texto de Victoria Muzi

Foto de capa: HBO MAX/DIVULGAÇÃO

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