Educação

Com o Enem a caminho, professor e alunos compartilham suas percepções sobre o exame

A prova possibilita alunos de todo o Brasil a ter acesso às universidades públicas e privadas será aplicada no final de novembro

O Exame Nacional do Ensino Médio (Enem) está previsto para ocorrer nos dias 21 e 28 de novembro, com provas digitais e impressas sendo aplicadas no mesmo dia. É o Enem que permite a diversos alunos espalhados por todo o Brasil a oportunidade de ingressar no ensino superior, em instituições públicas ou privadas, e por isso as expectativas para o exame são tão grandes.

E com a pandemia da Covid-19, o impacto na vida e nos estudos dos jovens cidadãos também é consideravelmente grande. Segundo o Instituto Nacional de Estudos e Pesquisas Educacionais Anísio Teixeira (Inep), o número de inscritos na prova é o menor desde 2005, com 3,1 milhões de pessoas confirmadas.

Tainan Diniz é professor de História e Geografia, formado pela Universidade Veiga de Almeida e Cruzeiro do Sul, respectivamente, e acredita que esses acontecimentos são um reflexo das problemáticas presentes no país, pois demonstra as grandes diferenças de poder aquisitivo entre as classes.

“Quando há uma quantidade baixa de inscritos, é porque em algum momento alguém não se inscreveu e teve que escolher entre comer e se inscrever para a avaliação que dá acesso à universidade. Isso é “engraçado”, porque coloca em xeque a importância da educação e a necessidade do brasileiro entre não morrer de fome, passar necessidade, e acessar a própria educação”, comentou o professor.

O fechamento das escolas e o despreparo também aumentam as disparidades. Em uma pesquisa do Censo Escolar feita pelo Inep,foi revelado que na rede pública 63,3% dos colégios estaduais e 27,4% dos municipais tiveram aulas ao vivo, com interação instantânea entre aluno e professor pela internet.

Contudo, uma pesquisa realizada pelo Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE) afirma que, em 2019, cerca de 4,1 milhões de estudantes da rede pública não tinham acesso à internet.

Quanto ao desafio imposto pelo momento, o professor diz que lecionar no modo híbrido é uma dificuldade que envolve os campos físico e psicológico. Para ele, conciliar os dois meios – virtual e presencial – é uma tarefa peculiar.

“Ficamos isolados, sendo que o professor é um ser essencialmente social, então sentimos muito a falta do contato com as pessoas. No início foi um baque, não tecnologicamente, mas para a profissão. Muitos professores mais velhos sofreram para enviar videoaulas. Foi um grande desafio, mas 2021 vem sendo mais difícil do que o ano anterior, pois conciliar a jornada dupla é muito cansativo, embora enriquecedor e grande para a profissão”, contou.

Já com relação ao recebimento de materiais que ajudem a realizar a prova, o profissional alerta para a assimetria entre determinados lugares do Brasil. Para ele, esse processo envolve diversos fatores que vão desde a habilidade do professor, até ao funcionamento da internet.

“Para a minha realidade e da escola em que trabalho, funcionamos muito bem. Claro que os desafios estão ali: nem todo aluno se adapta ao EAD. Eu confio muito no modelo, no sistema e na educação à distância, que creio que seja o futuro, mas acredito que foi um grande desafio. São fatores novos, porém, como toda mudança que chega, a gente sofre no início e depois se adapta”, disse.

Alunos de preparando para o Enem. Foto: Felipe Barros/ExLibris/PMI

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Rafael Peixoto e Isabela Ferreira têm 17 anos, estudam na rede privada e compartilham as suas experiências às vésperas do Enem. Ambos cursam o último ano do ensino médio e estão se preparando para essa nova etapa. Rafael se sente confiante para a prova. “Vejo como algo desafiador, dado o momento que estamos passando e, apesar de ser o meu primeiro Enem, eu me sinto confiante”, afirma.

A respeito dos estudos, tanto ele quanto Isabela concordam que a presença do professor é algo ímpar. Para ela, esse é um momento de tensão e nervosismo, que condiz com o as adversidades de estudar nesse período.

“Estudar nesse período foi muito desafiador, novo e inesperado. Primeiro por sentir a falta dos professores ali, presencialmente, dos alunos e da rotina. Segundo, pelo fato de eu não conseguir me conectar e arrumar um jeito de prestar atenção estudando em casa. Por mais que, na tese, seja mais fácil estudarmos em casa, comigo não foi assim que aconteceu, pois não me adaptei a estudar pelo computador”, disse.

Denúncias envolvendo o Enem

Apesar de o Ministro da Educação Milton Ribeiro ter negado interferências no exame, diversas denúncias foram feitas relacionadas a uma suposta troca e censura de questões que se referiam a contextos sociais, seguidas por pedidos de exoneração dos cargos.

Atualmente, o Tribunal de Contas da União (TCU) abriu, após pedidos feitos por deputados federais, uma investigação que visa apurar esses ocorridos. Em concordância, o professor Tainan ressalta que a prova possuir menos adesões é consequência direta dos acontecimentos que rodearam essa última semana. Sua visão é tida como catastrófica.

“Recentemente, nós estamos vendo a interferência direta do Governo Bolsonaro no Inep, uma debandada de profissionais de carreira, uma tentativa de censura sobre a prova do Enem para ‘dar a cara do Governo’ para a prova, como ele próprio (Bolsonaro) disse. Então, eu vejo de uma forma catastrófica essa quantidade mínima de alunos acessando a prova, pois são os de escola pública que mais sofrem. O aluno de escola privada, de classe média, conseguiu se inscrever esse ano, ter aula no período pandêmico, o sistema funcionou para ele. Acho que os pobres vão, novamente, pagar essa demanda”, explicou.

O professor ainda finaliza destacando o valor de dar a oportunidade de acessar a Educação e o perigo da retirada desse direito. “Quando você tira o pobre da universidade, você para de revolucionar o Brasil. A única solução para esse país é levar o pobre para a academia, especializá-lo, levá-lo ao mercado de trabalho. É geração de renda, geração de riqueza. Não tem outro caminho para isso”.

Aluna estudando para o Enem. Foto: Felipe Barros/ExLibris/PMI

Sobre o Exame

O Exame Nacional do Ensino Médio será aplicado em dois domingos, 21 e 28 de novembro e a divulgação do gabarito será feita no dia primeiro de dezembro. Para a prova, o site do Governo consta que apenas serão aceitos documentos de identificação original, com foto.

Além disso, é de suma importância o uso de máscara e caneta esferográfica de tinta preta de material transparente. Recomenda-se levar álcool em gel, cartão de confirmação de inscrição e, se for preciso justificar a presença, declaração de comparecimento impressa.

Os portões serão abertos ao 12h e fechados às 13h. As provas começarão às 13h30 e finalizadas, no primeiro dia, às 19h e 18h30 no segundo para os participantes sem tempo adicional ou da videoprova em Libras.

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Escrito por Natally Valle – 2° período

Com revisão de Bárbara Souza – 8° período

Apenas uma estudante de jornalismo que, reconhecendo sua finitude perante a grandiosidade do Universo quando se lembra de olhar para as estrelas (Stephen Hawking), torna-se cada vez mais apaixonada pelos seus livros, pela natureza e por palavras.

2 comentários em “Com o Enem a caminho, professor e alunos compartilham suas percepções sobre o exame

  1. Belíssimo texto. A educação no Brasil, antes de compromisso, é um grande desafio! Seguimos firmes!

  2. Pingback: Alunos comentam sobre o primeiro dia de Enem | Agência UVA

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