Cidade

Os invisíveis: a realidade de quem não tem um lar

População desabrigada aumenta, e permanece exposta aos riscos das ruas e do vírus, durante a pandemia

Historicamente esquecida e sem acesso à direitos básicos, a população em situação de rua sofre ainda mais durante a pandemia da Covid-19. Na época em que o discurso coletivo pede para que as pessoas fiquem em casa, pouco se reflete sobre quem não possui um teto. Sem a possibilidade de se isolar e de se proteger contra o vírus, essas pessoas ficam mais expostas.

Segundo um estudo do Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada (IPEA) sobre a população em situação de rua, divulgado em junho deste ano, 221.869 pessoas já estariam morando nas ruas em março de 2020. Um aumento de 140%, em plena pandemia. Uma situação fora de controle, e que possui inúmeros motivos.

Charge sobre a situação dos moradores de rua durante a pandemia. Foto: Divulgação

A assistente social Karine Viana trabalha no Centro Pop de Belford Roxo (Centro de Referência Especializado para População em Situação de Rua), na Baixada Fluminense do Rio de Janeiro. Segundo ela, durante a pandemia, as causas que naturalmente provocam essa condição (conflitos familiares; desemprego; transtornos psíquicos e outros) se intensificaram, junto com demais motivos externos.

“Além das elencadas anteriormente, existe a questão de negligência do Estado por não ter uma política pública que atenda à demanda do indivíduo de forma que o
leve à superação do problema. Como também por parte da família. Nesse período de pandemia, observamos que muitos de nossos atendimentos se tratavam de pessoas em surtos, ou com transtornos psíquicos”, conclui a profissional.

A assistente social ainda completa, informando sobre as maiores dificuldades enfrentadas pelos moradores de rua no decorrer desse período. “O acesso aos órgãos que foram fechados nesse período, para emissão de segunda via de documentação, além da ausência de um local para pernoite, foram grandes questões. As instituições filantrópicas que faziam os projetos sociais noturnos não fizeram nesse período, então, muitos não tiveram alimentação à noite”, afirma Karine.

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Rio Invisível

Além de trabalhos realizados por centros especializados, outras instituições se empenham para atender às necessidades de quem mora nas ruas. Esse é o caso da ONG Rio Invisível, criada em 2014 inspirada em outra iniciativa com a mesma abordagem, a SP Invisível. A página, que também possui um caráter assistencialista contribuindo com ações de distribuição de comida, artigos de higiene pessoal, cobertores e afins pelas ruas cariocas, tem objetivos maiores.

A atual diretora da Rio Invisível, Caroline Belo, afirma que o propósito assumido pela instituição é de transformar a realidade dessas pessoas. “Nós também queremos pensar em maneiras de tirar essa população das ruas. É um trabalho gradual, mas só de pensar que podemos fazer uma ponte com outra organização com projetos de empregabilidade, moradia, um salário fixo, por exemplo, já seria de grande ajuda”, conta a diretora.

Além disso, Caroline acrescenta que o outro grande papel da ONG em todo esse processo é o de usar as plataformas das redes sociais para que o público conheça, de fato, quem são aquelas pessoas.

“A gente não dá voz a essas pessoas, pois elas já tem voz própria. A gente só potencializa essas vozes para elas serem mais ouvidas nas redes sociais. Porque quando a gente coloca a foto de um morador de rua e um relato da vida dele, as pessoas são impactadas e se engajam nessa causa”, conta Caroline Belo.

Reprodução Instagram Rio Invisível

Foi por meio das redes que a estudante de Jornalismo Nathalie Hanna, de 21 anos, passou a fazer parte dessa trajetória. Voluntária desde março deste ano, a estudante conheceu o projeto em 2019 e se encantou por ele. “Eu acho muito interessante, pois acaba sendo uma troca. Eu aprendi muito”, conta Nathalie que durante a pandemia conseguiu participar de algumas ações presenciais, e em outras remotamente.

Nathalie conta que percebeu o preconceito contra a população que mora nas ruas aumentar durante esse período, e sua experiência durante o processo. “No início eu ficava com medo, pois não sabia o que poderia acontecer, mas a gente vai vencendo isso. Nós vemos que eles só querem conversar e contar a sua história. É muito gratificante”, revela a voluntária.

A co-diretora da Rio invisível, Letícia Messias, conta sobre as dificuldades enfrentadas por quem mora nas ruas, sobretudo os desafios a respeito dos protocolos de higiene e sobre claro, as determinações de isolamento. “Como a gente fala pra uma pessoa que está na rua que ela deve fazer um isolamento social ou que ela deve higienizar constantemente as mãos?”, dispara Letícia.

Relato da co-diretora da Rio Invisível, Letícia Messias, sobre as dificuldades enfrentadas por quem mora nas ruas.

As ações da Rio Invisível foram interrompidas durante a pandemia, principalmente nos primeiros meses. De acordo com Letícia Messias, tanto pelo isolamento imposto quanto pela dispersão de alguns voluntários, que precisaram se ausentar. Porém, durante esse período, novas parcerias foram feitas por todo o país.

A partir da união de todas as instituições “invisíveis” do Brasil, surgiu a BR Invisível, que desenvolveu a campanha de inverno BR Sem Frio em julho e com outra parceria, kits de higiene foram distribuídos pelas ruas do centro da cidade do Rio de Janeiro em outubro. A terceira, também em parceria com as demais “invisíveis” do país, é a campanha Natal Invisível que será realizada durante o mês de dezembro.

Reprodução Instagram Rio Invisível

Em um período em que a necessidade de cuidar dos outros é reforçada e encorajada, é importante realmente incorporar todos que pertencem à sociedade nesse projeto coletivo, e permitir que todos estejam seguros. Para contribuir para a campanha de Natal em andamento, clique aqui. É possível estar presente de várias formas.

Bárbara de Souza – 8° período

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1 comentário em “Os invisíveis: a realidade de quem não tem um lar

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