Cidade

Glória, bairro com grande população em situação de rua, recebe projeto de revitalização

Bairro da Zona Sul carioca passará pelo projeto “Dias de Glória”, que pretende restaurar a arquitetura e incentivar o turismo da região

História não falta no Rio de Janeiro. A cidade, que já foi capital do Brasil, traz consigo a trajetória do país e a exibe por suas ruas e fachadas, visíveis a quem quer que passe. Uma dessas vitrines é o bairro da Glória, na zona Sul da cidade. Próximo ao centro e da também histórica região da Lapa, o bairro abriga, entre alguns dos espaços e monumentos de outras eras, o Outeiro da Glória, o Monumento aos Pracinhas, e a Praça Paris. Ao longo de 2022, como anunciado pela Prefeitura do Rio no dia 15 de março, o poder público pretende dar uma atenção especial a esses e outros marcos do bairro no projeto “Dias de Glória”.

O programa, que deve ser levado para outros locais do Rio no futuro, prevê a revitalização e modernização do bairro, tendo em vista o seu potencial turístico. Entre as ações, estão a instalação de totens e placas indicativas em 40 pontos de interesse da região, recuperação de pisos e pedras portuguesas que fazem parte da arquitetura da Glória, e a presença 24h da Guarda Municipal na Praça Paris — que é um cartão-postal do bairro. 

Construído para emular os passeios da cidade francesa de Paris, o espaço é símbolo da Belle Époque carioca e segue frequentado. Para Rosi Estima (58), professora e moradora da Glória por três anos, a praça é um lugar de bem-estar. “Já corri e fiz caminhadas regularmente na praça, e percebi também o lado turístico. Já presenciei alguns ônibus estacionando, turistas descendo, e explorando tudo por ali”, conta Rosi. Entretanto, o que a residente também presenciou foram mudanças recentes nos arredores.

“A quantidade de moradores de rua aumentou muito, principalmente depois da pandemia. O ‘shopping chão’ também aumentou bastante”, relata a professora.

Rosi se refere aos itens expostos à venda que se estendem pela calçada da Rua da Glória. Além do comércio irregular, as moradias improvisadas dessa população também se tornaram impossíveis de não enxergar. “São feitas barracas nas portas dos prédios, e há casais morando com cachorros. Não há banheiro”, acrescenta Rosi.

Além da rua principal, o comércio irregular também se estende entre as ruas Cândido Mendes e Benjamin Constant, segundo a moradora Rosi Estima
Foto: Fernando Lemos/Agência O Globo

A moradora percebeu o mesmo que a Secretaria Municipal de Assistência Social (SMAS).

Segundo dados levantados pelo órgão no Censo de População em Situação de Rua no Rio de Janeiro, de 2020, do total de 7.272 pessoas, entre acolhidos em abrigos (5.469) e pessoas na rua (1.083), 197 desses entrevistados e contabilizados foram no bairro da Glória.

Realizado no primeiro ano da crise ocasionada pela covid-19, o censo ainda trouxe mais de 700 pessoas que disseram ter ido para as ruas depois do início da pandemia. Entre as motivações recorrentes, estão a demissão do emprego e a perda de renda.

Quem também nota a presença da população de rua pelas esquinas históricas do bairro é Karen Louise (28). A carioca, que não reside na Glória mas frequenta a região, destaca que a venda de objetos não é a única forma de subsistência tentada pelos moradores. “São muitas pessoas necessitadas pedindo por dinheiro”, conta a estudante de Economia e Marketing, que observa a movimentação quando visita o bairro para diversos eventos, como a feira livre aos domingos, bares próximos à via principal, e rodas de samba.

Segundo a SMAS, em resposta ao contato feito para essa reportagem, as ações de abordagem social foram reformuladas e intensificadas, em função do agravamento da situação de vulnerabilidade da população trazido pela pandemia de covid-19 e pela crise econômica.

De forma programada e contínua, a Secretaria disse seguir roteiros de abordagem segmentados pela cidade, sendo a Glória parte do roteiro de abordagem Zona Sul 2. Em 2022, conforme contabilizado pela própria SMAS até o último dia 28, as equipes realizaram, nesta região, 5.205 atendimentos e 106 acolhimentos em unidades de reinserção social.

A Secretaria também informou que, de forma igualmente programada, mantém atuação conjunta em ações com a Subprefeitura da Zona Sul, gerentes executivos locais e outros órgãos em projetos de melhoria do espaço urbano da cidade, entre eles o “Dias de Glória”.

Desde 2021 têm havido ações de manutenção das áreas do bairro, como a limpeza da Praça Paris pela Fundação Parques e Jardins (FPJ)
Foto: Fábio Motta / Prefeitura do Rio

A cena que se pinta no bairro coexiste com as intenções de avanço econômico do projeto. O “Dias de Glória” tem entre seus objetivos a recuperação do famoso Hotel Glória, onde serão abrigadas “moradias de alto padrão” e comércio, o que ajudaria a levar “mais vida e movimento” para o bairro, como comunicado em publicação oficial no website da Prefeitura do Rio.

O Arquiteto e Urbanista Carlos Murdoch reconhece que a preocupação em elevar o status econômico faz parte de projetos do tipo, cujo objetivo se apoia fortemente no potencial turístico de uma região. “Entende-se que quanto mais atrações turísticas o Rio de Janeiro possuir, maior será o tempo de permanência do viajante na cidade com impactos positivos para a economia. Moradores do bairro e adjacências irão observar a valorização de suas moradias, o surgimento de inúmeros serviços, e a chegada de estabelecimentos comerciais de padrão diferenciado”, explica Murdoch.

Sobre o restauro e a revitalização do espaço histórico do bairro, o arquiteto indica alguns cuidados para que se proteja o que torna o local especial e interessante. Entre eles, cita a preservação da chamada “unidade de paisagem”, que é a conservação das características essenciais tanto nos edifícios (em seu aspecto externo) como, principalmente, nos espaços públicos. À conservação é permitida a mudança de usos e a reforma interna, mas não a alteração do aspecto externo.

“A Glória tem uma importância muito grande na história do país. Basta lembrar que é uma região adjacente ao centro de poder do Brasil até 1960, quando a sede do governo se localizava no Palácio do Catete”, ressalta Carlos, se referindo à antiga residência do presidente Getúlio Vargas no bairro vizinho.

Para 2022, também está prevista a realização do próximo Censo de População em Situação de Rua da SMAS, no segundo semestre, conforme informou a Secretaria. Ainda de acordo com o órgão, é pretendida a adição de mais 600 vagas às 2.300 disponíveis nos 53 abrigos do município, entre redes própria e conveniada.

Até lá, a moradia irregular segue sendo observada por quem anda de passagem enquanto caminha para a sua própria, como Rosi. “Todos merecem uma vida digna”, reflete a professora.

Foto: Prefeitura do Rio

Gabriel Folena (5º período), com revisão de Leonardo Minardi (7º periodo)

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