Esporte

Ensino de artes marciais luta para sobreviver durante pandemia

Sem retorno financeiro, academias de luta enfrentam diversos desafios para manter a qualidade das aulas.

Prestes a chegar no sétimo mês de isolamento social causado pelo novo coronavírus, a população brasileira vai se adequando às normalidades com a flexibilização do governo em autorizar a reabertura de alguns estabelecimentos e das atividades físicas em espaços abertos e fechados. Na lista de atividades afetadas, as academias com foco no ensino de artes maciais e outros estilos de luta definitivamente se encontram na posição mais delicada de todas.

Mesmo não tendo um final definitivo para a quarentena, o comércio foi voltando aos poucos à rotina, assim como academias de musculação e de artes marciais. Para o empresário e professor de Kickboxing, Marcelo Marinho, retornar com os treinamentos vai muito além do que apenas se exercitar. Dependendo exclusivamente do esporte desde 1995, o faixa preta da Academia União Fight de Artes Marciais (AUFAM), necessitava do financeiro para que pudesse pagar suas contas, se alimentar e sobreviver.

Para Marcelo, a saúde de seus alunos vem em primeiro lugar, então eles levam suas próprias águas nas garrafinhas e mantém o distanciamento nos treinos. Pelo fato da academia ser voltada para a luta em pé como Boxe, Muay Thai e Kickboxing, o planejamento da aula foi pensando para evitar qualquer tipo de contato físico, por meio de novos exercícios que se baseiam no uso de cordas, corridas e aeróbicos. Para substituir as lutas de treino, o exercício da “sombra” uma das melhores maneiras de simular uma luta sem contato físico.

A academia, que anteriormente contava com 20 alunos por turma, hoje funciona com no máximo sete, acumulando uma redução de um terço dos alunos. Além disso, novos horários separados foram adicionados na rotina das aulas para evitar aglomerações. “Eu dava 4 aulas por dia, hoje eu dou 6. Eu tiro uma aula, começo às 7h e vou até às 8h. De 8h às 9h é limpeza e higienização da academia. De 9h às 10 aula de novo. de 10h às 11h mais uma limpeza e vou intercalando assim até o final do dia”, conta.

“Tem alunos até hoje que não voltaram. Eu tinha uma média – total – maior de alunos, hoje conto com 50% (dos alunos). O vírus ainda está aí rodando, alguns alunos meus pegaram, e é perigoso ainda, até criar uma vacina. Por isso trabalho com distanciamento social”, conta o empresário.

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Com mais de 20 anos de experiência entre campeonatos disputados, com inúmeras medalhas, e aulas dadas, Marcelo assume muitas vezes o papel de amigo, pai e conselheiro. E nessa época de pandemia, ele conta como trabalha o psicológico dos seus alunos no hora dos treinamentos dados: “A primeira coisa é mostrar a realidade para eles, mostrar que o vírus não é uma simples gripe. Pois eu tive, mas graças a Deus eu fiquei bem, ficamos fechado de fevereiro até o final de julho. Conversamos com eles para sempre manterem o distanciamento, usar o álcool gel, evitar usar o banheiro da academia toda hora para evitar o contágio”, relata.

Marcelo Marinho, Presidente Professor de Kickboxing da AUFAM de Anchieta
Foto: Instagram oficial @uniaofig

Ao ser questionado em entrevista se achou precipitado a volta, ou não, das atividades mesmo com o vírus ativo, ele desabafa sobre o assunto, dizendo que é complicado. Tendo essa única fonte de renda, Marcelo conta que muitos eventos que faria, foram cancelados, já que ele também dá seminários pelo país, viajando.

Tendo um corte de 80% da renda total, o empresário falou sobre o impacto da quarentena em seu trabalho. “É muito fácil falar que ‘a questão dinheiro a gente vê depois’. Tenho amigos que entraram em depressão, e continuam ainda por isso. Um deles se foi, porque ele via seu filho e sua esposa com fome, mesmo tendo ajuda ele não estava conseguindo se manter, e as contas estavam atrasando”, desabafa.

“É muito complicado você acordar e pensar no que fazer, com as contas chegando e não ter como parcelar algumas. Ganhar cesta básica e depender de auxílio de governo. Por isso sou a favor das voltas da atividade, mas quem não puder vir, não venha.”

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Com planos de inaugurar uma terceira filial ainda no ano de 2020, Marcelo Marinho fala que precisou adiar seu novo empreendimento, tendo que vender todos os equipamentos já comprados para o novo local e teve que fechar uma outra academia dele para sempre: “Trabalho hoje 3x mais em uma única academia, que é a única que eu consegui manter”, finaliza.

Para o faixa preta de Jiu-Jitsu e professor de Educação Física, Rodrigo Lampes, o debate desse tema é bem interessante para estimular uma reflexão crítica sob o trabalho das academias de luta. “Particularmente acho prematura como se deu a volta visto que muitas academias tem grandes dificuldades em fazer uma simples manutenção anual com o ar condicionado ou postergam uma manutenção elétrica ou troca de equipamentos, digo isso com a experiência de ter trabalhado 3 anos em uma das maiores redes de academias da América Latina”, conta o professor.

“Existem estudos científicos que apontam que o Hormônio chamado de IRISINA pode ajudar a reduzir o dano causado pela covid 19 e o interessante é que o exercício físico é um dos meios mais eficazes de produzir e liberar a IRISINA”

Lembra, Rodrigo sobre a importância dos exercícios nas academias.
Rodrigo Lampes, faixa preta de Jiu-Jitsu
Foto/Reprodução: Instagram

O Jiu-Jitsu é uma arte milenar que tem como principal objetivo a imobilização do adversário. Então em campeonatos existem as pontuações e as finalizações, quando o indivíduo não consegue mais ter poder de reação e acaba cedendo a vitória para seu oponente. Com isso o contato é a peça fundamental para o desenvolvimento da luta, então Rodrigo falou um pouco como está sendo essa adaptação já que manter o distanciamento social nesse caso fica impossível: “Existem protocolos sendo adotados para a prática da luta mesmo sem o contato, estão treinando em áreas quadrangulares demarcadas com fitas e a aula basicamente é uma ginástica com movimentos da luta”, conta.

E as precauções não são tomadas apenas na hora do embate. Rodrigo conta um pouco sobre como é a preparação no pré e no pós-treino de cada dia: “O tatame está sendo dividido em áreas retangulares , medidores de temperatura na entrada, tapete sanitizante na entrada do dojô e obrigatoriedade do treinamento com a máscara. Higienizar as mãos antes e depois de cada atividade usando água e sabão antes do treino, ou quando não for possível, álcool 70% em gel”, finaliza o atleta.

Segundo o Ministério da Saúde em seu último levantamento através do site oficial cerca de 4.657.702 de pessoas estão infectadas, com 4.0230.789 recuperados e 139.808 mortes. Só nesta quinta-feira, 24, foram registrados mais de 32 mil novos casos de Covid-19, com a taxa de letalidade chegando em 3%. Os estados com maiores números do coronavírus estão no sudeste e nordeste com São Paulo e Bahia liderando, com 958,240 e 301,48 casos respectivamente.

Foto/Reprodução – Site oficial Ministério da Saúde

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1 comentário em “Ensino de artes marciais luta para sobreviver durante pandemia

  1. Eneilton ferreira Gomes

    Faço parte da família Aufam sou aluno e amigo do mestre Marcelo Marinho e vejo o que ele está passando por causa da pandemia mas ele é guerreiro e não desiste e não deixa a gente desistir tbm sempre incentivando.

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