Esporte

O desempenho do VAR no Brasil

Com demora para definir jogadas, o árbitro de vídeo vem sofrendo inúmeras críticas no futebol brasileiro

O VAR está no Brasil há pouco mais de um ano. Desde sua primeira aparição nos torneios nacionais, em 15 de agosto de 2018, no jogo entre Santos e Cruzeiro, pelas quartas de final da Copa do Brasil, o árbitro de vídeo divide opiniões e intriga torcedores, jogadores, técnicos e jornalistas esportivos. Todos fazem a mesma pergunta: Por que o VAR demora tanto nas análises dos lances nos jogos do futebol brasileiro?

A Fifa implementou o VAR (Video Assistant Referee) para tentar acabar com as polêmicas da arbitragem. Ele é um sistema de apoio ao vivo para os árbitros, que lhes dá a opção de mudar decisões que poderiam influenciar no andamento da partida e dos campeonatos. Desde que foi usado pela primeira vez na Copa do Mundo de 2018, o Árbitro Assistente de Vídeo recebeu várias críticas, pois são três árbitros em uma sala cheia de monitores e com todas as possíveis jogadas para analisar e ajudar o juiz com qualquer jogada controversa ou decisão que já tenha sido tomada.

Clique aqui para ver como funciona o VAR

Desde sua implantação no Brasil, o VAR ainda não caiu na graça do público. As longas conversas entre o juiz de campo e a equipe que fica na sala dos monitores têm durado cada vez mais tempo nas partidas. A Confederação Brasileira de Futebol (CBF) estuda como melhorar o uso do árbitro de vídeo.

No último balanço divulgado pela CBF, após as primeiras cinco rodadas do Brasileirão, cada consulta ao VAR tem demorado em média 110 segundos (1min50), tempo 46% acima do recomendado pela Fifa, quando a entidade aprovou o uso da tecnologia. Os 75 segundos (1min15) apontados pela organização foram exatamente os registrados na primeira experiência do VAR no Brasil, em 14 jogos da Copa do Brasil de 2018.

O Árbitro Denis Gonçalo dos Santos, de Minas Gerais, não vê dificuldades em relação ao árbitro de vídeo, mas sim em lidar com os atletas. Para Denis, o VAR veio para ajudar. “Ele é muito bom para o futebol, mas tudo tem um processo de adaptação”, conta.

Na estreia do recurso no Campeonato Inglês, os problemas do futebol nacional com o VAR ficaram evidenciados. Decisões rápidas, transparentes ao público e sem longas paralisações até chegaram a levantar dúvidas se as regras seriam diferentes nas duas competições, mas não é o que acontece segundo o regulamento.

VAR estreou nessa temporada na Premier League. (Foto: Reprodução/Twitter-Premier League)

Mas, por aqui, o problema parece estar mesmo na demora para uma tomada de decisão. No empate entre Palmeiras e Bahia, em duelo válido pela 14ª rodada do Brasileirão, dois pênaltis foram marcados para a equipe baiana após Ricardo Marques Ribeiro, árbitro de vídeo, acionar Igor Benevenuto em campo. Em cada uma das vezes, cerca de cinco minutos foram gastos para que um consenso fosse tomado sobre as infrações. A partida teve uma duração total de 110 minutos – 20 a mais do que o tempo regulamentar.

Em recente entrevista para um site esportivo, o zagueiro Vitor Hugo, que fazia sua reestreia pela equipe paulista depois de duas temporadas na Itália e teve contato com o VAR na Europa, estranhou a demora. “Quando cheguei na Itália já tinha o VAR. Lá, o árbitro se faz respeitar mais e os jogadores respeitam mais toda situação do VAR. Também é mais rápida a tomada de decisão. Aqui está pecando um pouco, não na decisão em si, mas no tempo que está levando”. comenta.

O jornalista Marcelo Neves, que atua como repórter do Jornal O Globo e do Extra, comenta sobre a demora nas análises dos lances no VAR, aqui no Brasil.

“Os protocolos são muito demorados e os lances de revisão chamam mais atenção que o jogo. Sensação é que falta maior preparação”.

Para o telespectador Antônio Costa, a principal causa da demora nos lances analisados, é a falta de um protocolo.

“O VAR deveria ter um padrão, se tem lance polêmico para revisar, não pode ficar naquela conversa toda , mas sim mandar o Juiz de campo ir até a beira do campo e revisar no monitor”.

Em audiência pública na Comissão do Esporte da Câmara Federal dos Deputados, no mês passado, o presidente da Comissão de Arbitragem da CBF, Leonardo Gaciba, defendeu o uso do VAR. Segundo ele, nas nove primeiras rodadas do Brasileirão foram 40 erros capitais corrigidos, com um índice de aproveitamento nas decisões de 97,1%. Agora, o objetivo da CBF é diminuir o tempo gasto no processo: “Vamos tentar melhorar um pouco o tempo gasto nas revisões, sem nunca abrir mão da precisão, mas para poder melhorar a fluência do jogo”. O ex-árbitro já disse que sua meta é diminuir o tempo médio perdido dos 110 segundos (1min50) para 80 segundos (1min20).

Apresentação sobre o VAR no auditório da CBF. (Foto: Reprodução/Twitter-Rádio Brasil)

Mudança à vista

A CBF anunciou como grande novidade, em evento sobre o desempenho do VAR até aqui no Campeonato Brasileiro, a possibilidade do telespectador assistir a mesma imagem do árbitro no momento da revisão de um lance. Isto acontecerá a partir da 20ª rodada, quando se inicia o returno. Segundo Leonardo Gaciba, presidente da Comissão de Arbitragem, já há conversas com os clubes para que se possa mostrar as imagens da revisão nos telões dos estádios.

A Conmebol divulgou na última sexta-feira (30) como foi a participação do VAR nas polêmicas surgidas nos jogos de ida das quartas de final da Libertadores. Entre elas está o pedido de pênalti que o Inter reclamou na derrota por 2 a 0 para o Flamengo no Maracanã, na última quarta-feira (28).

Nas imagens, o árbitro de vídeo do jogo, o chileno Julio Bascuñan, percebe o toque no braço do Rodrigo Caio e abre um procedimento para análise. Conversando com o juiz Roberto Tobar, também chileno, ele cita que a bola bate na perna primeiro, mas que há um “movimento adicional” do braço do zagueiro e, por isso, recomenda a revisão.

Tobar, que ao relatar o que viu antes da revisão, já apontava um braço junto ao corpo, foi para o monitor e teve convicção de sua decisão mesmo com o toque: “Sim, mas não é pênalti para mim”, afirmou.

Veja aqui o vídeo dessa conversa entre os árbitros

Perguntados se a tecnologia pode atrapalhar o futebol, os três entrevistados tiveram visões semelhantes.

“Na minha opinião, o VAR não vai atrapalhar o futebol, mas todos nós estamos nos adaptando a ele”, diz Denis Gonçalo.

“A tecnologia só pode acrescentar ao futebol. Não é ela quem atrapalha o jogo, mas sim árbitros despreparados para usar esse recurso que permite manter a justiça no futebol. Imagina seu time chega numa final de libertadores e perde porque um ou dois gols foram anulados por impedimentos que com o VAR seriam analisados e validados. A tecnologia só tem a ajudar o esporte”, comenta Antônio.

“A tecnologia ajudou no basquete, no tênis, no vôlei, e no futebol será igual. Basta adaptação e treinamento”, aponta Marcelo Neves.

A tecnologia do Vídeo em outros esportes

O vôlei se inspirou no tênis e começou a implementar o vídeo em 2012. Cada equipe pode desafiar pelo menos duas vezes por set a decisão da arbitragem. Se o vídeo comprovar que não houve erro dos juízes, o time perderá um desafio. Por outro lado, caso a imagem prove que ter havido erro por parte da arbitragem, o número de desafios é mantido. São analisadas seis situações quando os técnicos pedem o desafio: bola dentro/fora; toque na rede; invasão por baixo da rede; toque no bloqueio; toque na antena e se a bola tocou no chão quando alguém tenta defender com uma mão espalmada no chão.

A tecnologia de vídeo no vôlei é um sistema eficiente. (Foto: Reprodução/Charley Gima-FuteRock)

Nesta modalidade, os técnicos podem errar dois desafios por set. O árbitro também pode pedir para rever os lances. O desafio também passou a funcionar como parte da estratégia de jogo. Por vezes, mesmo quando sabem que não terão sucesso no pedido, os técnicos pedem a análise apenas para parar o jogo e esfriar a pressão do adversário.

O vôlei de praia tem regras parecidas. Mas, neste caso, os próprios jogadores pedem os desafios, que podem ser solicitados no máximo duas vezes por set e funcionam para avaliações de bola dentro/fora; toque no bloqueio; toque na rede; toque na antena ou toque na linha durante o saque. Se a dupla fizer um desafio não válido durante o rali, perde o ponto automaticamente.

Em um dos campeonatos mais prestigiados do mundo, a NBA, 18 são as situações analisadas pelo árbitro de vídeo e não há pedido dos técnicos para esta revisão. A responsabilidade é toda do árbitro. A NBA instituiu o replay na temporada 2002/03, na qual apenas revisava se os arremessos foram feitos antes de expirar o tempo de 24 segundos ou de jogo e, ainda, se válido, se foram de 2 ou 3 pontos, ou se o jogador estava dentro de quadra, caso contrário, o lance era invalidado.

Também foi instituído para faltas no último segundo, viabilizando as variáveis do lance. Em 2008, novos tipos de situações de desafios foram adicionadas. Os replays são vistos pelos árbitros através de um monitor, disposto na mesa oficial de anotações do jogo. Na temporada 2014/15 a NBA inaugurou a Central de Replays, que fica em Nova Jersey.

Luhan Alves- 6° Período

2 comentários em “O desempenho do VAR no Brasil

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