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Eleições 2026: relembre músicas de protesto feitas em crises políticas

Mutantes, Public Enemy e Bad Bunny tem, em sua discografia, músicas que ajudaram a enfrentar crises políticas e sociais.

Arte sempre teve um reflexo social sobre o que está acontecendo no mundo, na sociedade e na política. Um exemplo disso é como a canção popular, cuja finalidade é atingir a massa, tem, em algumas ocasiões, a forma de protestar pelo que há de errado do mundo em seu momento. Desde a era do jazz nos anos 1920 e 1930, letras como “Strange Fruit”, cantadas por Billie Holiday, traduziam com poesia e melodia, o que acontecia nos Estados Unidos durante a segregação racial. No Brasil, a MPB e a Tropicália mascaravam mensagens políticas de liberdade e contra a alienação por meio de metáforas, indo contra a censura durante a Ditadura Militar. Até hoje, um artista global como Bad Bunny, em canções com bilhões de streamings, é capaz de mobilizar diálogos sobre a repressão contra o povo latino de Porto Rico. Com isso, e a proximidade das eleições gerais de 2026, em meio a diversos escândalos nos últimos meses, a equipe da Agência UVA fez uma lista especial com canções de protesto na história da música popular. Confira:

Mutantes – “Panis et Circenses”

Escrita por Caetano Veloso e Gilberto Gil e interpretada por Rita Lee, Arnaldo Baptista e Sérgio Dias, “Panis et Circenses” é um marco, até hoje, da alienação da elite durante o Regime Militar. Composta e lançada em 1967 no álbum “Os Mutantes”, disco de estreia do grupo paulistano e marco do tropicalismo, a canção faz referência à política do “pão e circo”, em que a alimentação e entretenimento vazio satisfaziam a população, dando espaço para que o governo fizesse o que bem entendesse. “As pessoas na sala de jantar” é o grupo mais alto da sociedade que não se importa com a violência do militarismo brasileiro, em alta na época.

Chico Buarque – “Roda Viva”

Composta e lançada na mesma época, “Roda Viva”, samba escrito por Chico Buarque, é mais um retrato político na MPB durante o Regime Militar. Mesmo sendo um hino de resistência à ditadura, a música foi feita para a peça musical de mesmo nome, escrita também por Chico Buarque e que, mais tarde, seria atacada pelo Comando de Caça aos Comunistas (CCC).

A canção fala sobre o desejo do povo de decidir e, a roda-viva, uma analogia ao regime ditatorial, “carrega o destino para lá”. Esse sentimento de impotência especialmente da classe artística e de comunicadores fez com que Buarque e sua esposa, a atriz Marieta Severo, se exilassem na Itália em 1969. Além de “Roda Viva”, Chico compôs várias letras sobre o período de ditadura, como “Cálice”, “Apesar de Você” e “Acorda Amor”.

Caetano Veloso – “Alegria, Alegria”

Retornando ao tropicalismo, Caetano Veloso, que também foi exilado no final da década de 1970, lançou, em seu álbum de estreia, “Alegria, Alegria”. O artista baiano foi um dos porta-vozes contra o regime militar de 1964, algo que resultou em uma perseguição por parte do governo, sua prisão e seu exílio na Inglaterra em 1969. A letra da canção se refere ao sonho de uma liberdade, de poder andar pelas ruas “sem lenço, sem documento” como qualquer um. Junto disso, algumas referências a cultura pop do período, como Claudia Cardinale e Brigitte Badot, em mais um atestado da canibalização da cultura estrangeira na construção do próprio imaginário tropicalista.

Public Enemy – “Fight the Power”

Deixando o Brasil e prosseguindo nos Estados Unidos durante o final dos anos 1980, Public Enemy, histórica dupla de hip hop de Chuck D e Flavor Flav, lançou, como trilha do filme “Faça a Coisa Certa” de Spike Lee, a combativa “Fight the Power”. Uma referência ao grupo de R&B The Isley Brothers, que também possui uma música com este nome, a faixa é um manifesto até hoje de retaliação contra as forças opressoras e racistas na América. Esta canção repercute até hoje, e foi classificada pela revista Rolling Stone como a segunda melhor canção de protesto de todos os tempos.

Billie Holiday – “Strange Fruit”

O professor e poeta americano Abel Mereepoi, após ver imagens de um linchamento em Indiana, estado do centro-oeste dos Estados Unidos, de dois homens negros enforcados em 1930, decidiu escrever um poema em protesto ao show de horrores. “Strange Fruit”, depois de anos, se tornou uma canção e um hino antológico em prol dos direitos civis na América, se tornou vívida na voz de Billie Holiday, lendária intérprete de jazz vocal, no ano de 1939. A letra usa como metáfora os frutos das árvores comparadas às vítimas, Thomas Ship e Abram Smith. Mesmo que a interpretação mais famosa seja de Billie Holiday, “Strange Fruit” foi regravada diversas vezes por nomes da música como Nina Simone, Jill Scott, Jeff Buckley e Siouxsie and the Banshees.

Patti Smith – “People Have the Power”

Durante o início dos anos 1980, Patti Smith afastou-se da música para se dedicar a sua família com o também músico Fred “Sonic” Smith, baixista da banda de garage rock MC5. Em determinado momento, ela faz um comeback com o álbum “Dream of Life” e o hino de protesto “People Have the Power”, uma das canções mais marcantes de Smith até hoje. Justiceira e pacífica, Patti declara que as armas não trarão a paz e sim a comunhão do povo. Desde seu lançamento, a faixa é usada em protestos como contra a guerra do Iraque, atos contra o aquecimento global e em movimentos sociais.

Bad Bunny – “LO QUE LE PASÓ A HAWAii”

“LO QUE LE PASÒ A HAWAii” é uma das músicas mais recentes e mais impactantes sobre o cenário político atual dos Estados Unidos sob o governo Trump. A letra da canção de Bad Bunny fala sobre a história de Porto Rico, seu país, incorporado ao Estados Unidos, assim como o Havaí, no título da faixa de “DeBÍ TIRAR MáS FOToS” de 2025. No Havaí, com a dominância estadunidense, houve uma perda cultural gigante com a chegada da indústria do açúcar por empresários americanos. Bad Bunny é um responsável por criar esse diálogo histórico com a atualidade, em que os latinos perdem direitos sob a vigilância do governo de Donald Trump.

Foto de capa: Arquivo/Os Mutantes

Reportagem de Vinicius Corrêa, com edição de texto de Natália Zichtl

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