Política Saúde

O que o aumento do eleitorado idoso pode significar para o Brasil?

Aumento populacional da população idosa pode mudar os rumos das políticas públicas para esse grupo

De acordo com um levantamento feito pela Nexus-Pesquisa e Inteligência de Dados com bases oficiais do Tribunal Superior Eleitoral (TSE) em março, a quantidade de idosos (pessoas com mais de 60 anos) aptos a votar aumentou, em 2026, em 74% desde 2010. Dando um salto de 20,8 milhões para 36,2 milhões, a população idosa representa hoje 23,2% do eleitorado total (pessoas com pelo menos 16 anos).

Esse dado sozinho não mostra que os idosos estão dispostos a ter maior participação política, apenas que houve um aumento populacional desse público. Porém, uma análise a partir de dados do TSE, mostra um aumento da taxa de comparecimento nas urnas pelos idosos, entre os anos de 2014 e 2022. De todos os idosos aptos a votar, 65,54% foram às urnas em 2022, enquanto 62,89% foram em 2014.

Gráfico 1: Taxa de comparecimento das eleições de 2014, 2018 e 2022

O gráfico demonstra que, apesar da população idosa ter um índice baixo em comparação à população jovem e à população total, a taxa apresentou um crescimento desde 2014, ao contrário das outras variáveis.

A diferença abismal não é incomum, já que depois dos 70 anos os cidadãos não são mais obrigados a votar. Uma evidência de que esse fato afeta muito o resultado é a taxa aumentar para 85,72% em 2022 quando considera-se apenas os idosos com idade entre 60 e 69 anos. Mas também foram analisadas as taxas dos grupos com mais de 70 anos e com idade inferior a 18 (entre 16 e 17 anos), ambas com direito a voto facultativo.

Gráfico 2: Taxa de comparecimento das eleições da população com direito a voto facultativo de 2014, 2018 e 2022

Neste gráfico, a taxa de comparecimento dos idosos também é muito inferior, mas ainda apresenta um aumento de quase 5% entre 2014 e 2022 enquanto o índice dos jovens tem resultados instáveis.

Os resultados demonstram uma mudança que vai além do aumento populacional de idosos. Esse grupo etário está mais interessado em ter participação política e ela não fica restrita ao papel de eleitor. De acordo com o TSE, dos 315 candidatos registrados para concorrer às 54 vagas no Senado Federal, 121 têm pelo menos 60 anos, somando 38,41% das candidaturas. Os candidatos mais velhos chegam aos 92 anos.

O que pode mudar?

Para Vera Lucia Vliese, profissional de yoga e administradora do lar de 81 anos, a participação política é necessária. “Presenciamos muitas desigualdades, preconceitos e violências”, disse Vera. Ela também afirmou que se atenta a propostas de políticas públicas para idosos quando escolhe candidatos para votar.

“Nós, idosos, estamos, a cada dia, vivendo mais. São diversas oportunidades para obter uma saúde mais plena”, Vera acrescenta.

A doutora Karla Giacomin, médica com especialidade em geriatria e diretora-presidente da Associação Cuidadosa, organização sem fins lucrativos voltados à transformação da cultura do cuidado, acredita que o Brasil ainda é um país com muito preconceito contra o envelhecimento e isso dificulta a promoção de políticas públicas para idosos.

“Precisamos de um SUS que atenda pessoas com problemas crônicos, pessoas idosas, pessoas vítimas de traumas urbanos como violência e acidentes de trabalho e de trânsito. Porém o SUS sozinho não dará conta. É preciso fortalecer o sistema único de assistência social, o acesso à renda mínima para pessoas sem condições de trabalho, reconhecer o papel fundamental das pessoas que cuidam de outras pessoas dentro da família”, afirmou Giacomin.

De acordo com o Ministério da Saúde, 81,4% dos idosos usam exclusivamente o SUS. Além dessa questão, Karla pontua outras políticas urgentes para a população idosa. “Precisamos de uma Política Nacional de Cuidados fortalecida e de ratificar a Convenção Interamericana de Direitos da Pessoa Idosa. O Congresso atual não fez isso alegando a questão de gênero. Isso significa que precisamos de políticas que reconheçam o envelhecimento e as questões de gênero”, disse Giacomin.

A Convenção Interamericana sobre a Proteção de Direitos da Pessoa Idosa citada por Karla tem o objetivo de promover igualdade à população idosa, a fim de assegurar sua inclusão na sociedade, e, apesar de ter sido aprovada durante a Assembleia da Organização dos Estados Americanos em 2015, aguarda ser ratificada pelo Congresso Nacional desde 2017.

A pressão social de pautas que estão em alta na sociedade aceleram os processos necessários para elas chegarem à ratificação. Por isso, o aumento no interesse na participação política do eleitorado idoso pode trazer mudanças significativas para as políticas públicas para idosos que são urgentes e demandam mais atenção.

Foto da Capa: Reprodução/Luis Adriano Madruga/FASC/PMPA

Reportagem de Carolina de Melo, com edição de texto de Natália Zichtl

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