O processo legislativo de mudança institucional do Centro Federal de Educação Tecnológica Celso Sukow da Fonseca (Cefet/RJ) para Universidade Federal de Ciência e Tecnologia do Rio de Janeiro (UFCI/RJ) acaba de ser finalizado. A Lei nº 15.521/2026, que também aborda a transformação do Cefet de Minas Gerais em universidade, foi sancionada pelo presidente Lula e publicada no Diário Oficial da União na sexta-feira, 25 de setembro.
A discussão para a transformação dos Cefets dos dois estados em universidades dura mais de duas décadas. Ela se iniciou em 2008, quando ocorreu a criação da Rede Federal de Educação Profissional, Científica e Tecnológica durante a gestão de Fernando Haddad no Ministério da Educação (MEC). Na época, as duas unidades não aderiram à transformação em Institutos Federais, visando seguir o modelo do Cefet do Paraná, que se tornou a primeira Universidade Tecnológica Federal do país, a UTFPR, em 2005.
Os membros da comunidade acadêmica do Cefet/RJ criam diferentes expectativas em torno da alteração institucional. Ellen Azevêdo de Oliveira, aluna do sétimo período do curso de graduação em Engenharia Elétrica da Unidade Descentralizada (Uned) de Angra dos Reis é esperançosa quanto ao aumento de recursos para a melhoria dos laboratórios e criação de novos cursos, em especial de mestrado e doutorado.
O mesmo destaque é dado por Mateus Vieira da Silva, aluno do sexto período do curso de graduação em Engenharia Mecânica, também da Uned de Angra dos Reis. Mateus é otimista quanto à instituição ter mais acesso a verbas, melhorias na estrutura acadêmica e a possibilidade de abertura de novos cursos, tanto técnicos de nível médio, quanto de graduação.
“Vai fomentar ainda mais a questão tecnológica e acadêmica nos grandes centros como também no interior, permitindo formar grandes profissionais na área com cada vez mais capacitação e conhecimento”, destaca o estudante.
A valorização da instituição nas unidades do interior do estado é também destacada por Glauco dos Santos Ferreira da Silva, professor de Física da Uned Petrópolis. Além das duas unidades na capital, Maracanã (sede) e Maria das Graças, o Cefet/RJ está presente em Angra dos Reis, Itaguaí, Nova Iguaçu, Nova Friburgo, Petrópolis e Valença.

O professor Glauco aponta que o Cefet/RJ, enquanto escola técnica federal é muito conceituado e reconhecido. Os estudantes formados nos cursos técnicos de nível médio da unidade Maracanã, por exemplo, se inserem rapidamente no mercado de trabalho.
“Em Petrópolis, o Cefet/RJ passou a ser mais conhecido agora. Talvez se tornando uma universidade, isso poderá dar mais visibilidade e atrair mais as pessoas para se interessarem em se matricular nos diversos cursos”, ressalta o professor.
Outro ponto destacado pelo professor Glauco diz respeito à organização administrativa. Atualmente, o Cefet/RJ tem uma gestão centralizada na unidade-sede, no Maracanã, a partir da gestão da direção-geral. Na configuração de universidade, a gestão passará a ser a de um reitor, e cada unidade terá seu próprio diretor de campus. A descentralização administrativa, assim criada, é favorável para atender as especificidades de cada unidade, na visão do professor.
O professor Maurício Saldanha Motta, diretor-geral do Cefet/RJ, aponta outros dois aspectos favoráveis às atividades acadêmicas desenvolvidas em nível de graduação e pós-graduação há muitos anos na instituição. Um deles é a internacionalização, com o aumento da visibilidade e do reconhecimento junto a outras instituições universitárias de outros países. O outro é quanto à participação em editais de fomento para projetos do ensino superior.
“A gente experimentou ao longo desses anos. Éramos dois Cefets [no Rio de Janeiro e em Minas Gerais], e as agências de fomento pensavam de forma global nas universidades. Era sempre um esforço justificar e fazer jus a participar dos editais ou de outros acordos”, explica o diretor-geral.
Para além das expectativas, as apreensões
A transformação institucional, além de alterar o modo como a instituição funciona, desperta emoções em quem já desenvolveu forte vínculo de pertencimento com o Cefet/RJ. O estudante Mateus também se expressa acerca de como se sente com a futura mudança de identidade visual da instituição.
“É algo positivo virar universidade, mas também ‘triste’ por ser o fim de um legado histórico pelo qual tivemos muito apego e carinho. Terá mudança de identidade visual, por exemplo, coisas necessárias, mas que nos fazem sentir saudade”, expressa o estudante.

Ao mesmo tempo, o processo desperta apreensões e anseios em parte da comunidade acadêmica que apresenta muitas dúvidas sobre qual modelo de universidade será instituído e reivindica participação nessa discussão.
Leonardo Couto, presidente da Associação de Docentes do CEFET-RJ (ADCEFET-RJ), aponta que o processo ocorreu sem abertura para diálogo interno entre comunidade e gestão para a construção coletiva e democrática desta nova instituição.
“Fecha-se uma escola para abrir uma Universidade. E se trata de uma Universidade cuja natureza é nada conhecida. O que significa, na prática, uma instituição voltada para ciência e inovação? Não sabemos. A comunidade dos dois Cefets, de Minas Gerais e do Rio de Janeiro, não participou da construção desta nova instituição. Nossa demanda para as direções gerais e para o MEC é que, por compromisso com a democracia, seja aberto um processo Estatuinte”, destaca o professor.
O professor Leonardo também aponta que muito otimismo expresso pela comunidade acadêmica se baseia em informações extraoficiais, que não apresentam nenhuma garantia, como aumento de recursos e de vagas para a admissão de novos servidores para a nova instituição.
Outra apreensão da comunidade se relaciona à manutenção das vagas dos cursos técnicos de nível médio tradicionais do Cefet/RJ. O receio é de que ao se tornar universidade, a instituição foque nos cursos de graduação, pós-graduação e na pesquisa, diminuindo as vagas e os cursos da educação profissional técnica de nível médio.
Ao se analisar dados da UTFPR, modelo para essa transformação, observa-se que os cursos técnicos foram sendo gradualmente reestruturados e extintos. Dos 10 cursos que inicialmente a instituição ofertava como Cefet/PR, hoje, apenas um continua em funcionamento. O Cefet/RJ atualmente oferece 38 cursos técnicos entre as seguintes modalidades: integrado (ofertado juntamente com o núcleo das disciplinas de formação geral do nível médio), concomitante e subsequente (onde são ofertadas apenas as disciplinas da formação técnica).
Quanto a esse ponto, o diretor-geral Maurício Saldanha ressalta que o Cefet/RJ e o Cefet/MG, para resguardar os cursos técnicos, atuaram em um substitutivo na lei para a criação de um Colégio Técnico vinculado a cada Universidade Federal de Ciência e Inovação. O texto publicado da Lei nº 15.521/2026 estabelece como um dos objetivos da UFCI/RJ e da UFCI/MG: “ministrar cursos de educação profissional técnica de nível médio”. No entanto, não há menção explícita nessa lei sobre a criação desses Colégios Técnicos.
“O que a gente quer é que haja uma discussão ampla, de qual universidade a gente quer. Não apenas pensando em uma decisão interna, mas entendendo que esta é uma instituição pública. Queremos discutir qual universidade queremos, mas também pensarem como ela pode atender às necessidades da sociedade”, conclui o diretor-geral Maurício Saldanha.
A sanção da lei de criação da UFCI/RJ e da UFCI/MG dá início a um complexo processo de implantação. Em primeiro lugar, haverá a nomeação de um reitor pró-tempore em cada instituição. Ao mesmo tempo, o MEC está trabalhando em um projeto de lei de criação de funções e cargos. A discussão do novo estatuto e a reorganização interna administrativa aponta para uma transição que vai avançar pelo ano de 2027, com a promessa de abertura de participação ativa da comunidade acadêmica.
Reportagem de Luciene Silva, com edição de texto de Maria Eduarda Lima
Foto de capa: Luciene Silva/Agência UVA
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