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Câncer de mama em mulheres jovens: diagnóstico e tratamento impõem desafios além da saúde

Relatos de mulheres diagnosticadas antes dos 30 anos evidenciam os desafios da investigação da doença e a importância da avaliação médica

O câncer de mama, geralmente associado ao processo de envelhecimento da mulher, pode ser diagnosticado em qualquer idade. A mama mais densa, a ausência de rastreamento de rotina e, principalmente, a baixa percepção de risco são alguns dos principais fatores que podem dificultar o diagnóstico precoce. Nesse sentido, quando diagnosticado antes dos 30 anos, o câncer de mama pode apresentar desafios diferentes daqueles vivenciados por mulheres que enfrentaram a doença em idades mais avançadas.

O Outubro Rosa, campanha de conscientização sobre o câncer de mama, reforça a importância da informação, do diagnóstico precoce e da busca por atendimento médico diante de alterações suspeitas. A iniciativa também contribui para ampliar o debate sobre a doença entre mulheres jovens, que nem sempre consideram a possibilidade de receber esse diagnóstico.

Bruna Furlan, de 24 anos, influenciadora digital e neta do apresentador Carlos Alberto de Nóbrega, foi diagnosticada com câncer de mama no final de 2025. Ela conta que descobriu a doença após perceber um nódulo na mama.

“Comecei a sentir um desconforto intenso na mama quando, por acaso, passei a mão e senti um caroço muito grande. Era véspera de Natal, então fiquei muito assustada. Como a esposa do meu avô é médica, ela me examinou e pediu que eu fizesse uma ressonância para investigar melhor. Depois disso, vieram a biópsia e outros exames para confirmar o câncer e saber se a doença já havia espalhado”, relembra a influencer.

A influenciadora descreve o período do diagnóstico como um dos momentos mais difíceis e conturbados do tratamento. Segundo ela, a possibilidade de desenvolver a doença nunca havia sido considerada, principalmente por causa da idade e da ausência de histórico familiar. A experiência de Bruna evidencia como a percepção de que o câncer de mama está associado apenas a mulheres mais velhas pode fazer com que a doença não seja considerada uma possibilidade entre as mais jovens.

Bruna Furlan utilizou uma touca de resfriamento capilar durante as sessões de quimioterapia para evitar a queda de cabelo.
Crédito: Reprodução/Instagram

Em entrevista, o cirurgião geral e mastologista pelo Instituto Nacional do Câncer (INCA), Dr. Ricardo Queiroga, explicou em quais casos uma mulher mais jovem, precisa realizar a mamografia.

“A mamografia é indicada principalmente em duas situações: quando há sintomas, como nódulos, secreções, sangue, vermelhidão, alterações na pele e no mamilo ou no formato das mamas, e para mulheres de alto risco, com mutação genética ou histórico familiar forte. Nesse grupo, o rastreamento deve começar entre 30 e 35 anos. Para mulheres de risco habitual e sem sintomas, a orientação é realizar a mamografia anualmente a partir dos 40 anos”, orienta.

O tratamento de Bruna incluiu além de sessões de quimioterapia para tratar a metástase encontrada na coluna, 15 sessões de radioterapia e a remoção das duas mamas. A influenciadora contou que também fez hormonioterapia, que é um tratamento feito para bloquear a produção de hormônios, já que seu tumor estava relacionado a eles. E destacou ainda os efeitos colaterais sofridos: “Tinha dias em que eu simplesmente não conseguia sair da cama”. O cansaço e a fraqueza mencionados por Bruna estão entre as principais queixas de pacientes que passam pelo tratamento oncológico.

A influenciadora afirmou que o tratamento da doença trouxe muitas mudanças para sua rotina e ressaltou que o ritmo de vida acelerado de antes já não fazia parte de sua realidade. Entender e respeitar os limites do corpo deixou de ser uma opção. O organismo que antes suportava noites em baladas, poucas horas de sono, exercícios físicos intensos e exposição ao sol passou a pedir, constantemente, por repouso. Bruna também revela que aprendeu a viver um dia de cada vez e deixou de fazer grandes planos.

“Durante o tratamento, meu maior plano se tornou sobreviver”, desabafou a neta do apresentador.

As mudanças provocadas pelo câncer também atravessaram a vida de Giulianna Nardini. A designer e ilustradora de 28 anos, conta que tinha 21 anos quando começou a sentir fortes dores em um dos seios, mas não imaginava que pudesse se tratar de um tumor e acreditava que os sintomas estivessem relacionados ao período menstrual. Mesmo após a menstruação, as dores persistiram e, cerca de 20 dias depois, Giulianna notou um nódulo no seio esquerdo quando saía do banho.

“Era um caroço bem grande. Soube depois que tinha quase 6 cm”, explicou a designer.

Giulianna Nardini recebeu o diagnóstico de câncer de mama triplo-negativo, um dos subtipos mais agressivos da doença.
Crédito: Reprodução/Arquivo Pessoal

Dr. Ricardo Queiroga explica que a investigação de alterações nas mamas pode envolver diferentes exames, e que eles são escolhidos de acordo com a avaliação clínica.

“A mamografia é excelente, sem dúvidas, mas nenhum exame é perfeito. Nas mulheres jovens, a mama costuma ser mais densa, mais durinha, porque a paciente tem mais tecido mamário do que gordura. E isso, às vezes, dificulta ver alguma lesão. Por isso, a gente costuma associar o ultrassom e, em alguns casos, até mesmo uma ressonância magnética”, explicou o mastologista.

Ele também acrescentou que os exames podem gerar desconforto, especialmente a mamografia, mas que as mulheres não devem adiá-la por isso, já que existem medidas para amenizar o incômodo. Ele recomenda evitar realizar o exame na semana da menstruação, quando a mama fica mais sensível, conversar com o profissional responsável pelo procedimento para ajustar a pressão do mamógrafo e, em alguns casos, até solicitar o uso de um analgésico.

Giulianna conta que, diferente do que costuma acontecer com pacientes que aguardam um diagnóstico, não ficou ansiosa, embora soubesse que poderia se tratar de uma questão cirúrgica.

“Minha preocupação era precisar interromper meus estudos. Eu tinha acabado de entrar para o estágio dos meus sonhos, não passava pela minha cabeça que poderia ser um câncer”, contou a designer

Ela explicou que foi tranquilizada pelo médico, que logo solicitou uma série de exames para confirmar o diagnóstico. “Eu lembro que estava sentada numa cadeira, apoiada na mesa do médico. Eu encostei, olhei para a minha mãe e era como se, naquele momento, eu tivesse perdido o chão”, recordou Giulianna.

O mastologista destaca que os desafios vão além do tratamento oncológico, explica que uma mulher que recebe o diagnóstico de câncer de mama aos 25 ou 30 anos está no auge da sua produtividade. Logo, seus projetos pessoais e profissionais são impactados, interrupção nos estudos e na carreira, mudanças na imagem corporal, preocupação relacionadas à fertilidade e relacionamento amoroso são questões que atravessam essas jovens e precisam ser levadas em conta. Em relação à fertilidade, ele explica que a quimioterapia pode causar infertilidade e menopausa precoce nessas pacientes. Por isso, antes de iniciar o tratamento, é comum que os óvulos sejam congelados para preservar a possibilidade de uma futura gravidez.

A designer Guilianna contou que já realizava ultrassonografias mamárias periodicamente como forma de prevenção, já que sua mãe havia tido a doença aos 44 anos. Durante seu tratamento, foram necessárias 16 sessões de quimioterapia e 25 sessões de radioterapia. A remoção das duas mamas, porém, foi indispensável, já que o tumor era grande e crescia rapidamente. Ela também destacou que, após o tratamento, seu estilo de vida também mudou completamente.

“Depois do câncer, precisei adaptar minha rotina. Passei a fazer exercícios, cuidar do sono, realizar exames regularmente e parei de consumir álcool”, destacou a designer.

Ter acesso aos exames e ao acompanhamento médico é essencial. Desde 1º de outubro, a Agência Nacional de Saúde Suplementar (ANS) passou a determinar que os planos de saúde cubram a mamografia digital sem restrição de idade ou gênero, desde que haja indicação médica.

Segundo Dr. Ricardo Queiroga, a principal solução é facilitar o acesso à mamografia para mulheres que realmente precisam do exame.

“Quando houver indicação médica, o plano de saúde não poderá negar a cobertura.”, afirma o mastologista.

Ele ressalta, porém, que a medida não significa que todas as mulheres devam fazer mamografia anualmente. O rastreamento de rotina continua seguindo a idade e o risco de cada paciente, enquanto a investigação de sintomas ou de casos de maior risco deve ser feita após avaliação médica.

O Brasil tem estimativa de 78.610 novos casos de câncer de mama por ano no triênio de 2026 a 2028, segundo o Instituto Nacional de Câncer (INCA).
Crédito: Reprodução/Senado Feederal

Bruna Furlan e Giulianna Nardini hoje usam suas redes sociais para conscientizar outras jovens sobre o câncer de mama. As influenciadoras compartilham experiências, esclarecem dúvidas e alertam outras mulheres sobre a importância do autocuidado e da atenção aos sinais da doença. Ao abordar os desafios do diagnóstico e do tratamento, elas ampliam o debate sobre o câncer de mama em mulheres jovens e a importância da informação para enfrentar a doença.

Foto de capa: Reprodução/ANS

Reportagem de Maria Eduarda Ladeira, com edição de texto de Maria Eduarda Lima

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