Com a chegada das plataformas de streaming como Spotify, Apple Music e Deezer, os meios de mídia física perderam o sentido para o público geral, que só quer ouvir a música despretensiosamente. Mas, em uma minoria, os colecionadores de mídias físicas como discos de vinil se tornaram cult. O bolachão, como é conhecido o disco de vinil, continua se popularizando por grupos de colecionadores em meios como Whatsapp e Facebook, páginas de lojas de discos online, vendas via e-commerce como o Mercado Livre e até feiras especializadas que reúnem vendedores do Brasil todo. Segundo a Recording Industry Association of America (RIAA), que mede a indústria fonográfica nos Estados Unidos, as vendas de vinil superaram mais de US$1 bilhão em 2025.
Mas e o CD? O mesmo registro da RIAA mostra que o Compact Disc está em queda livre nos Estados Unidos, com receita de US$312,4 milhões, nem um terço do rendimento do vinil. Mas isso não impede o formato tecnológico que existe desde 1982 de ser um item de colecionador e apreciação. Alfredo Reis, coleciona CDs desde 2011 e hoje possui 519 em sua vasta coleção de mais 800 itens musicais, que vão de CDs, LPs, Blu-Rays e DVDs musicais. O jovem prefere CDs pela praticidade digital de ouvir música sem perder a qualidade da mixagem. Em sons altos, como um Subwoofer (uma caixa de som especial para sons graves e subgraves, que adiciona impacto à música), isso é ideal.
Gabriel Cordeiro, assistente administrativo de 24 anos de São Paulo, enxerga não só no CD mas como em todas as mídias físicas e meios que não são virtuais uma forma de se manter próximo da música e dos artistas que ele gosta. Mesmo com 36 CDs, isso sempre trás “um conforto em ter algo concreto de um projeto ou artista que admiro, mas isso acaba também se estendendo para outros produtos de merch, como vinis, camisetas e pôsteres, geralmente.”

“Acredito que por existir essa constatação de que os CDs são a reprodução mais fidedigna das músicas das músicas gravadas, sempre percebo algum instrumento, algum som, algum detalhe sonoro que não percebemos ouvindo essas canções pelos streamings e isso, querendo ou não, agrega muito na experiência. Mas ao mesmo tempo, é muito com eu ficar na dúvida se seria uma impressão psicológica ou se realmente é um detalhe não identificado anteriormente”
São inúmeros os locais que pode-se garimpar e encontrar algo surpreendente, incluindo raridades e importados. Como a Feira de Antiguidades da Praça XV, localizada no Centro do Rio, próxima ao terminal de barcas e ao Paço Imperial. O vendedor Marcelo Bittencourt atua na feira de antiguidades há pelo menos 25 anos. Ele, que também é um colecionador de CDs, vê uma movimentação de clientes interessados em vários estilos e gêneros. Tem fã de pop e rock dos anos 1980, de Depeche Mode e The Cure, fãs de divas pop de Shakira, Madonna e Lady Gaga até os senhores fãs de metal clássico. Segundo Marcelinho, como é conhecido na Praça XV, vê que tem gente que gosta de escutar e, também, de colecionar apenas na estante.

Isso não é o caso de Andrei Oliveira, estudante e ator de Pelotas, Rio Grande do Sul, que tem mais de 500 CDs e 500 discos de vinil. No momento, ele prioriza as raridades encontradas em aplicativos de e-commerce como a Shopee e o Mercado Livre. Ele vê sua coleção tanto como investimento quanto um hobby e gosta do formato compact disc para além da música, e valoriza o trabalho de encarte e créditos, muitas vezes indisponível no streaming.
“Eu considero que o design é a propaganda principal da mídia física e do que está presente nas canções. O design do “Blackstar” do David Bowie, até hoje, me deixa em choque. As texturas, o efeito lustrado que algumas partes do encarte tem… Acho fantástico, sem dúvidas meu design favorito”.

Também próximo a Praça XV fica na Travessa do Ouvidor. Nesta rua conhecida como local que Pixinguinha tocava seu saxofone está a Allegro Discos com 25 anos em atividade e mais de 40 mil CDs em seu acervo. São tantos discos que existem duas lojas, uma voltada para música popular contemporânea, especializada em jazz mas que também trabalha com MPB, pop e rock internacionais e nacionais. A outra loja é especializada em música clássica e erudita.
Vinicius Spala, dono da Allegro, conta que desde a abertura, em 2001, um cliente apareceu e disse que “eles estavam malucos” ao abrir uma loja de CDS, por causa da criação do compartilhamento de arquivos MP3s via internet. O imenso acervo disponível para compra vai de itens novos importados e usados coleções particulares ou de alguns clientes que já tem uma coleção muito grande.
“Sorte a nossa ele estar enganado. Nunca pensei que os CDs iam desaparecer de vez, no máximo achava que o número de consumidores fosse diminuir, o que de fato aconteceu. Porém notei que mesmo o número de clientes diminuindo, os que mantinham esse hábito, se tornavam cada vez mais fiéis a mídia física”, afirma Spala.
Spala também percebeu, após o fim da pandemia de covid-19, o crescimento da procura por CDS por parte da geração Z, independente da faixa etária. Muito disso vem por muitas mídias não estarem disponíveis no streaming, e comparou o CD e o Spotify com a diferença entre um e-book do Kindle e um livro físico.
Porém, o retorno ao mainstream, assim como o LP, é quase impossível. Os principais artistas do momento, como Liniker e Marina Sena, não lançaram CDs de seus álbuns recentes, mas sim em vinil via clubes exclusivos como Três Selos e Noize. Enquanto o formato se escassa, a procura diminui e os preços aumentam, algo que piora quando se trata de produtos importados.
Pedro Falcão, designer de 25 anos de Santos, zona litorânea de São Paulo, possui 161 CDs. Um de seus perrengues para conseguir de um artista sem uma tiragem nacional foi da banda norte-americana de dream pop Beach House. Mas, segundo o colecionador, com o estado econômico das coisas, não há uma grande volta da mídia física comparado a praticidade dos ouvintes e do interesse dos executivos do digital. Mas ele enxerga que o digital não dura para sempre e que isso é percebido pelos fãs de música.

Em janeiro de 2024, músicas de ícones da MPB como Djavan, Roberto Carlos e Ana Carolina simplesmente sumiram do Spotify por um problema da editora, a Sony Music. Em 2022, Joni Mitchell e Neil Young foram alguns dos artistas que tiraram suas músicas também do Spotify em protesto à publicidade feita pelo aplicativo ao podcast de Joe Rogan, que espalhava fake news sobre a vacina de covid-19. Ainda há muitos casos de artistas que são contra a forma que as distribuições monetárias, por meio de royalties, são feitas. Na música brasileira, também tem artistas com problemas com editoras como o João Gilberto.
O fator “efêmero”, que as coisas podem sair do ar a qualquer momento, promove a mídia física como o consumidor ser dono do produto e pode escutar a hora que quiser com um aparelho. É o caso de Andrei de Oliveira, que opta pelos CDs que pode escutar quando a internet cai, por exemplo. Os colecionadores como Pedro, Gabriel, Afonso e Andrei estão na faixa dos 24 aos 30 anos, e fazem parte de uma parcela mais velha da geração Z que ainda viu um pouco do CD durante a infância e a pré adolescência.
Isso cria um efeito nostálgico, também, de se ver em lojas de discos ou lojas de departamento que vendiam CDs e remetem a saudade da proximidade com a música fora do celular. Mesmo sendo uma minoria do consumo de mídias, o CD ainda consegue causar apego a seus fãs dos mais variados gêneros, seja metal, rock alternativo, pop dos anos 2000 e MPB. Apesar dos índices mostrarem uma queda e o disco de vinil conseguir ser mais atrativo, o CD ainda não se mostra descartável.
Foto de capa: Bixby
Reportagem de Vinicius Corrêa, com edição de texto de Ana Carolina Freitas
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