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De Santo Amaro aos 80 anos: a trajetória de Maria Bethânia

Fãs e críticos musicais explicam a longevidade da Abelha Rainha da MPB

Em 2025, Maria Bethânia, a “abelha-rainha” da música popular brasileira, completou seis décadas de carreira desde sua estreia, em 1965, como substituta de Nara Leão no espetáculo político “Opinião”. Essa trajetória rendeu mais de 50 discos, que somam mais de 25 milhões de cópias vendidas, além de mais de 40 turnês que percorreram não só o Brasil, como também a Europa e a América Central. Sucessos escritos por Chico Buarque, Caetano Veloso, Gonzaguinha e Adriana Calcanhotto foram interpretados pela cantora como ninguém.

Nesta quinta-feira (18), ela comemora mais uma data especial: seu aniversário de 80 anos. Nascida em Santo Amaro da Purificação, no Recôncavo Baiano, é irmã de Caetano, filha de Dona Canô e Seu Zezinho, geminiana, adepta do Candomblé e menina dos olhos de Oyá. Seus fãs a chamam de “Abelha-Rainha”, apelido que vem não só da música “Mel”, lançada no álbum homônimo de 1979, mas também de sua majestosa arte de performar e interpretar nos palcos.

Maria Bethânia, aos 17 anos, se apresentando no espetáculo político “Opinião”, que misturava teatro e música durante o início da Ditadura Militar.
(Foto: Reprodução/X)

Débora Bap, produtora cultural de 31 anos, é fã de Bethânia há quase 15 anos. Desde que a assistiu no show de 50 anos de carreira, “Abraçar e Agradecer”, aos 18 anos, nunca esqueceu a força e o domínio que Maria apresentava no palco. A produtora, que também é administradora da página Portal Doces Bárbaros no Instagram, dedicada a celebrar a carreira não só de Bethânia, mas também de Gal Costa, Gilberto Gil e Caetano Veloso, enxerga na artista, em sua voz e na grandeza de suas interpretações sentimentos que muitas mulheres carregam na pele.

“Ela cria um lugar em que pode ser apaixonada, brega, sofrida, forte, empoderada, intensa e tantos outros aspectos da feminilidade que muitas só conseguiram reconhecer através de sua voz e sua obra”, relata a produtora.

A intensidade de suas performances, segundo o jornalista e crítico musical Mauro Ferreira, é uma de suas marcas registradas e seu grande diferencial na MPB. Isso é favorecido pelas apresentações ao vivo e por gravações de espetáculos, como o histórico “Rosa dos Ventos: O Show Encantado”, de 1971. Desde 1967, Bethânia desenvolveu, ao lado do diretor teatral Fauzi Arap, uma fórmula para seus shows, intercalando canções, textos e poesias. Para Mauro Ferreira, ela edita e recorta perfeitamente textos de autores como Fernando Pessoa, combinando-os com o tom das interpretações musicais e criando uma experiência capaz de magnetizar o público.

Esse magnetismo, combinado com a poesia de Pessoa e Lispector, foi o que conquistou o jovem professor de português Luis Fernando, de 21 anos. Ao lado de Nana Caymmi, Bethânia é a cantora de sua vida, e Fernando acredita que o repertório e o conteúdo de sua carreira são os mais fascinantes. A partir da música e da arte de Bethânia, conheceu a obra de Fernando Pessoa, Lya Luft e Sophia de Mello Breyner Andresen.

“Ela tem uma carreira, de certa forma, linear e coerente. Nunca fez ou gravou nada para um sucesso imediato. Mas tem uma coerência e um respeito muito grande pelo ofício que exerce, e isso aparece em toda a sua obra”, afirma o professor.

Bethânia se apresentando no show “Cartas de Amor” que mescla poesia e música de forma intimista.
(Foto: Divulgação/João Millet Meirelles)

O primeiro contato de Luis com a música de Bethânia aconteceu durante a infância, por meio da canção “Sonho Impossível”, versão de Ruy Guerra e Chico Buarque para uma composição de Joseph Leigh e Mitch Darion. Já o arquiteto Pedro Vilela, de 25 anos, conheceu a artista por meio das trilhas sonoras de novelas da Globo que assistia quando era criança. Para Pedro, isso a consolidou como um pilar da cultura brasileira, mas ele só passou a ouvir sua discografia quando ficou mais velho, a partir de pesquisas sobre MPB. Ele a enxerga para além da intérprete, considerando-a também uma espécie de “co-criadora” por inserir sua alma e personalidade inigualáveis em cada uma de suas interpretações.

Sua personalidade é um grande destaque que contribui para sua longevidade artística. De acordo com o jornalista cultural Leonardo Lichote, Maria Bethânia surgiu e se mostrou maior do que vários dos movimentos que marcaram a música nacional nos anos 1960, como a Tropicália de seu irmão Caetano, a música política do espetáculo Opinião e a MPB de Edu Lobo e Chico Buarque. A cantora passou a interpretar canções que iam além das tendências do momento, como os sambas-canção de Noel Rosa, incorporando obras que combinavam com sua identidade, mesmo quando essas composições eram consideradas ultrapassadas.

“Ela não se deixava dobrar por questões de mercado. Ela sempre teve e tem uma relação muito fiel e íntegra com quem ela é e com o que a interessa. Isso faz com que ela se mantenha como uma referência central da MPB, do que uma música popular pode alcançar de mais fundo”, destaca.

Um dos principais traços da artista ao longo de sua carreira está em sua espiritualidade. Filha de Oyá, ou Iansã, Bethânia é candomblecista desde 1981, iniciada pela icônica Mãe Menininha do Gantois, um dos terreiros mais tradicionais do Brasil. Essa conexão com a religiosidade aproximou a jornalista Elaíny Carmona, de 29 anos, da música da artista. Umbandista, ela compartilhava com seus colegas de terreiro canções que retratavam sua fé. Nos momentos de descontração ou de preparação para os ritos, Maria Bethânia estava sempre presente na playlist por abordar a espiritualidade de forma aberta em muitas de suas músicas. Elaíny também é filha de Iansã, e isso a ajudou a dimensionar a importância desse Orixá.

Maria Bethânia abre o álbum “Pássaro Proibido” de 1976 com “As Ayabás” sauda orixás como Ejá, Iansã e Oxum.
(Foto: Reprodução/Deezer)

Em seu imenso repertório, há canções sobre sua espiritualidade, como “Iansã”, composição de Gilberto Gil e Caetano Veloso. Mas também há músicas que abordam o amor, a política, a história e a feminilidade. Para a empreendedora e administradora da página Bethânia e Chico, Raquel Soares, de 36 anos, “Sangrando”, composição de Gonzaguinha presente no registro ao vivo “Nossos Momentos”, é a mais especial.

“Ela canta de um jeito tão verdadeiro que parece sentir cada palavra da canção. Sua interpretação traz ainda mais emoção para a música e me toca de uma maneira muito profunda”, afirma.

Já para Débora Bap, do Portal Doces Bárbaros, “Rosa dos Ventos”, histórica faixa do cancioneiro de Chico Buarque, é uma escolha indiscutível. Quando assistiu Bethânia pela primeira vez no show “Abraçar e Agradecer”, aos 18 anos, deparou-se com uma gigante no palco. Segundo ela, naquele momento enxergou a dona do dom, experiência que a marcou profundamente.

Para Pedro Vilela, a canção mais impactante é “Yayá Massemba”, composta pelos baianos José Carlos Capinam e Roberto Mendes e presente no álbum “Brasileirinho”. A letra aborda a trajetória de uma pessoa escravizada que reconstrói sua identidade após um aterrorizante trajeto marítimo.

Essa diversidade em seu repertório é explícita não só na variedade de compositores, mas também nos estilos musicais que interpreta. O jornalista Mauro Ferreira destaca essa integridade artística ao apontar que Bethânia transita por gêneros que vão do samba-canção de Dalva de Oliveira aos boleros e até ao fado português. Mas um dos principais aspectos dessa abrangência estilística está no samba de roda, manifestação nordestina que amplia e preserva as raízes africanas. Ao mesmo tempo, sua trajetória não se limita ao regionalismo, voltando-se para a música popular de forma ampla e abrangendo toda a diversidade brasileira.

Essa variedade em seu repertório, sua força interpretativa e sua personalidade marcante contribuem para um legado que, mesmo em vida, é considerado inegável pelo jornalista Leonardo Lichote. Para os artistas contemporâneos, ela representa a coerência de quem está além das regras do mercado fonográfico. Seja por seu olhar mais dramático e moderno sobre o samba-canção barroco de Noel Rosa, pela música religiosa ligada ao Candomblé ou pela perspectiva interiorana do Brasil, a pesquisa de mercado não é o principal fator de sua obra. Para Lichote, sua grande mensagem para a próxima geração de artistas é a busca pela eternidade, por meio da autenticidade e de um investimento radical no próprio olhar sobre o mundo.

Foto de capa: Divulgação/Guilherme Nabhan

Reportagem de Vinicius Corrêa, com edição de texto de Cássia Verly

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