Nos últimos anos, enquanto as plataformas de streaming passaram a dominar a indústria da música, os discos de vinil seguiram na contramão do mercado e vivem hoje um momento de crescimento. Segundo a IFPI (International Federation of the Phonographic Industry), 2025 marcou o 19º ano consecutivo de aumento nas vendas de vinil no mundo, com alta de 13,7% e movimentação de cerca de US$ 2,4 bilhões. Parte desse resultado vem das lojas independentes, responsáveis por 39% das vendas de vinil nos Estados Unidos, de acordo com a Luminate.
Os números chamam atenção para um formato considerado obsoleto em meados da década de 1990. Hoje, o vinil cresce entre jovens que descobriram os LPs recentemente e adultos que retomaram o hábito impulsionados pela nostalgia e pela experiência de ouvir música de forma mais física e imersiva.
Mas o que explica esse fenômeno? Em busca da resposta, a Agência UVA reuniu relatos de colecionadores, um especialista em cultura e o dono de uma loja de discos para entender o renascimento do vinil e a importância dos sebos e lojas especializadas como espaços de vivência musical coletiva.
Leonardo De Marchi, doutor em Comunicação e Cultura e professor da Escola de Comunicação da UFRJ, explica que, em países do Norte Global e em economias mais avançadas, o disco de vinil nunca desapareceu totalmente, apenas teve sua produção reduzida. Segundo o pesquisador, o vinil se transformou em um fetiche cultural porque nunca foi apenas um disco, mas um objeto pensado para além da música.
“Os discos de vinil se tornaram uma forma de colecionar música e de expressar capital simbólico e cultural. O LP construiu uma relação afetiva com os ouvintes. Depositamos no vinil várias emoções, o que o transformou em um produto singular na história das indústrias culturais”, explica Leonardo.
Para o professor, com o surgimento da distribuição digital, o disco ganhou outro significado. Ele parece dar uma certa segurança e perenidade àqueles que só escutam música através do streaming, cuja experiência se esvai no momento da escuta. A relação com os discos é muito diferente da que se tem com o mesmo álbum no digital, no qual ele passa e às vezes você nem percebe.
Além disso, o especialista cita o investimento estratégico por parte dos artistas como um dos fatores que sustentam o ressurgimento dos discos de vinil, já que a economia da música digital tende a reduzir a remuneração dos artistas, enquanto a venda de vinis gera retorno mais direto e imediato.
“A vontade de ter algo que obrigue o ouvinte a parar para escutar música, como acontece com os LPs, junto à questão econômica, já que o vinil dá um bom retorno aos artistas, ajuda a explicar o ressurgimento do formato como uma força no mercado da música gravada”, reitera o professor.

(Foto:Reprodução/Pinterest)
A experiência afetiva e sensorial dos LP’s
O influenciador digital Caio Campos, criador do perfil Agulha Suja, coleciona discos desde os 11 anos. O primeiro contato com o vinil veio dentro de casa, ao ver o tio mostrar sua coleção. Caio lembra ter ficado hipnotizado ao observar um objeto de plástico tocando música. Seu primeiro disco foi “The Queen Is Dead”, da banda The Smiths, que pertencia à mãe.
Para ele, o fato de a arte gráfica existir em um material físico, e não em uma tela, faz com que o vinil transmita sensações que o streaming não consegue oferecer:
“Sentir as texturas e o cheiro, além da sensação de olhar para a estante e escolher algo aleatório para ouvir. É uma forma de entrar em contato com o mundo real na hora do lazer, sem ficar à mercê de mais um aplicativo. Quando se tem um aparelho bom e um vinil bem produzido, o resultado é mágico”, conta Caio.
A experiência sensorial é um dos principais motivos para o retorno da popularidade do vinil e o crescimento de novos adeptos. Antes mesmo de ser tocado, o disco estabelece uma relação afetiva com a música. O contato físico, a escolha do momento certo e a preparação para ouvir o álbum transformam a experiência em um ritual.
Quando compra um LP novo, Caio limpa o vinil, coloca os plásticos internos e externos, sempre nos modelos aos quais já está acostumado, e deixa o álbum fora da estante, à mostra. O disco permanece ali até que ele sinta que chegou a hora de ouvi-lo pela primeira vez.
Essa dedicação também se reflete no momento da escuta. Ouvir música em vinil exige uma atenção diferente da experiência digital.
“Como trabalho com música, aprendi a prestar atenção ouvindo pelos streamings, mas não foi fácil e, dependendo do dia, pode ser cansativo. Com o vinil é diferente. Basta deitar na cama, contemplar a arte gráfica, ver o disco girando e levantar para virar o lado”, completa Caio.

(Foto: Reprodução/Pinterest)
A loja de discos como espaço cultural
Daniel Cairoli coleciona discos há quase 20 anos e é fundador da Prainha Discos. Ele começou como feirante nas praças XV, Glória e General Glicério até inaugurar a loja física, no Centro do Rio de Janeiro, em setembro de 2024. Segundo o colecionador, nos últimos anos houve uma mudança no perfil de consumo da loja, que passou a atrair um público jovem que até pouco tempo não existia:
“Nosso público majoritário é formado por homens e mulheres, de forma quase igualitária, na faixa dos 30 aos 40 anos. Mas vejo um movimento crescente de jovens com menos de 30 anos cada vez mais presentes na loja. Isso é bem diferente de alguns anos atrás, quando a maior parte do público era composta por homens acima dos 40”, conta o colecionador.
Com uma curadoria focada na discografia nacional, a loja de Daniel tem no samba e na MPB seus gêneros mais procurados. Apesar disso, o vendedor destaca que o rock continua atraindo um público fiel, com vendas constantes tanto na internet quanto na loja física.
As lojas de vinil são mais do que pontos de venda. Elas são parte essencial da experiência coletiva de ouvir e descobrir música, funcionando como espaços de encontro onde ouvintes e entusiastas formam conexões, compartilham histórias e constroem suas identidades musicais.
Para o professor Leonardo de Marchi, as lojas especializadas podem sim ser consideradas pontos de sociabilidade e de construção de conhecimento sobre música. O especialista destaca que, especialmente ao longo do século XX, quando o rádio priorizava apenas os grandes sucessos, as lojas de discos possibilitavam aos ouvintes entrar em um universo musical ao qual dificilmente teriam acesso de outra forma.
“Nas lojas de vinil mais especializadas, muitas vezes comandadas por músicos ou fanáticos por música, era possível encontrar pessoas que ouviam as mesmas coisas que você e conversavam sobre os mesmos interesses. Muitas vezes, você saía de lá com amizades e encontrava pessoas que compartilhavam a mesma sensibilidade”, explica o especialista.

(Foto; Reprodução/Pinterest)
Esse ambiente de troca e convivência torna as lojas de discos especializadas espaços importantes para a descoberta musical fora da bolha criada pelos algoritmos do streaming. O colecionador relembra ter descoberto um de seus discos favoritos justamente por meio dessas interações presenciais, quando levou para casa “Live Through This”, da Hole.
“Eu costumava ir a uma loja de discos em uma cidade vizinha, a Vitrola, do meu saudoso amigo Fernando. Eu estava com pouca grana e não tinha encontrado nada que pudesse comprar. No balcão, havia alguns discos usados e, entre eles, um do Hole, que foi o único que despertou meu interesse, mesmo sem eu nunca ter ouvido. Então perguntei: ‘Fernando, o que você acha de Hole?’. E ele respondeu: ‘Ô velinho, esse aí é bom! Eu escuto só uma vez por ano, mas é bom!’. Levei para casa e hoje é um dos meus álbuns favoritos de grunge”, relembra Daniel.
O Doutor em Comunicação e Culturaainda analisa que o consumo de vinil serve como uma forma de construção de identidade cultural.
“Comprar um disco de vinil hoje, ainda mais do que na época em que o formato predominava no mercado fonográfico, é um ato de afirmação de um tipo de amor à música e da valorização de determinados gêneros musicais. O consumo de música em vinil é, antes de tudo, simbólico. Ele diz aos outros quem você é e do que você gosta”, finaliza Leonardo.
Mesmo com o crescimento do mercado, manter uma loja de discos ainda não é uma tarefa simples. O fundador da Prainha Discos afirma que a recente valorização do vinil trouxe novos desafios. Para ele, o principal problema não está na concorrência, mas na falta de cuidado de alguns comerciantes. Segundo o lojista, a venda de discos danificados ou sem curadoria adequada pode frustrar novos compradores e comprometer a experiência de quem está começando agora no formato.
Ainda assim, as histórias e conexões criadas pela música mantêm viva a paixão pelo vinil. Daniel lembra de um episódio marcante de quando ainda vendia na Feira da Glória e expôs “Maria Fumaça”, clássico da Black Rio. Um senhor se aproximou para observar o disco mais de perto. Era Sebastião Barbosa, fotógrafo responsável pela capa do álbum. “A felicidade e o orgulho que ele sentia ao revisitar aquele momento impresso na capa foram impagáveis”, completa o colecionador.

A materialidade dos discos de vinil vai na contramão do imediatismo da sociedade contemporânea. Em uma rotina marcada pela pressa e pela fluidez, em que a divisão entre trabalho e lazer se torna cada vez menos nítida, escolher um álbum e ouvi-lo com atenção revela um espaço de pausa e reflexão em meio a um mundo efêmero. A permanência das lojas de vinil também evidencia o valor dessa experiência material para um grupo de pessoas em uma sociedade marcada pelo digital.
“A experiência de ouvir discos conecta as pessoas não só entre si, mas também com a técnica. É preciso ter cuidado e carinho com a tecnologia. O vinil não é um produto em que você simplesmente aperta o play e deixa tocando. A agulha pode travar, é preciso virar o disco, então o ouvinte precisa estar atento ao que está sendo reproduzido”, explica o professor.
O pesquisador também reflete sobre como esses momentos de atenção fazem falta atualmente. Segundo Leonardo, a rotina contemporânea mistura trabalho, lazer e redes sociais o tempo todo, sem uma divisão clara entre essas atividades. Para ele, ouvir música em vinil funciona como um lembrete da importância da atenção, do tempo e do cuidado, elementos cada vez mais raros no cotidiano.
Leonardo De Marchi também destaca que, apesar do crescimento nas vendas, os discos de vinil continuam sendo um produto de nicho. O pesquisador explica que o formato possui alta rentabilidade por conta do valor elevado dos LPs, mas dificilmente voltará a ocupar o espaço dominante que teve no passado, principalmente diante do volume de artistas e lançamentos da indústria musical atual.
Ainda assim, o crescimento do vinil revela mais do que uma tendência de mercado ou um movimento nostálgico. Em meio à lógica acelerada do digital, os discos e as lojas especializadas seguem representando espaços de pausa, descoberta e troca coletiva, nos quais ouvir música volta a ser uma experiência marcada pela atenção, pela presença e pelo afeto.
Foto de capa: Reprodução/Pinterest
Reportagem de Júlia Quintas, com edição de texto de João Gabriel Lopes
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