Da sala de aula

Preconceito contra asiáticos e seus descendentes cresce no Brasil durante a pandemia

Micro agressões contra pessoas amarelas sempre existiram, mas se intensificaram com a chegada do vírus

por Juliana Ramos

A chegada da Covid-19 no mundo, com origem na China, trouxe à tona, de forma ainda mais notável, um tipo de preconceito que asiáticos e seus descendentes conhecem bem e não é de hoje: o racismo amarelo. O tipo de preconceito muitas vezes velado ganhou novos contornos por conta do Coronavírus, e o Brasil não fica de fora desta realidade mundial.

A jovem estudante de 21 anos e descendente de chineses, Luiza Huang, é uma das vítimas dessa micro agressão. Ela relata que nos primeiros dias de lockdown na cidade do Rio de Janeiro, saiu para ir ao mercado e, no caminho, a acertaram com uma latinha. “Tacaram uma latinha de refrigerante em mim como se eu fosse um lixo”, relata Luiza. Ela não está sozinha. Bem antes de o vírus se espalhar agressivamente pelo Brasil, a criadora de conteúdo de Bruna Tukamoto, de 25 anos, conta que ouviu de um rapaz: “Meu amigo quer tirar o Coronavírus de você”.

Bastidores dos vídeos da criadora de conteúdo Bruna Tukamoto
(Foto: Acervo pessoal)

A chinesa e professora de mandarim de 25 anos, Isabela Jiang, também é um exemplo. Ela relata que no começo da pandemia, acompanhava os noticiários pelo YouTube e lia os comentários, muitos agressivos, sobre a China e os chineses, Chegou a um ponto em que ela teve que parar de acompanhar os noticiários por causa desses comentários, que não eram diretamente para ela, mas que provocam raiva e tristeza, porque eram sobre seu país.

É importante entender que existe um racismo contra as pessoas amarelas, e que vai além da xenofobia. Os dois estão ligados, mas existe uma diferença. Bruna, que fala sobre o racismo amarelo em suas redes sociais e também estuda sobre o assunto, explica que a xenofobia está mais ligada mais à localização geográfica. Já o racismo está relacionado ao contexto histórico de uma população.

O racismo amarelo é uma pauta muito recente, e isso se deve ao fato de que muitas pessoas estão começando a identificar que certas atitudes e falas que ouviram durante sua vida inteira são racismo. O ato de puxar os olhos para parecer como os olhos asiáticos, por exemplo, é um ato racista. Usar a palavra “japa” para se referir a qualquer pessoa asiática ou descendente é um termo pejorativo, pois não há só o Japão na Ásia, e tal costume acaba desconsiderando que aquela pessoa tem um nome.

Da mesma forma, imitar uma pessoa asiática com frases como “pastel de flango” também é uma atitude preconceituosa, sendo uma micro agressão e um preconceito linguístico, pois insinua que as pessoas amarelas não conseguem pronunciar a letra “r” do Português.

“Quando eu estava no Ensino Médio comecei a reparar que algumas coisas que as pessoas me falavam eram características de racismo amarelo. Não sabia na época que existia essa denominação, mas sabia que era preconceito”, recorda Luiza.

Isabela concorda: “Todo dia sofremos micro agressões, que se acumulam e apagam nossa identidade. Não conseguiremos engolir por muito tempo. Dentro dessas micro agressões têm coisas piores que outras. Por exemplo, eu tenho meu Instagram aberto para dar aulas e toda semana praticamente alguém entra no meu perfil reclamando da China, como se eu pudesse resolver a vida da pessoa”.

Com as agressões crescendo, o resultado não poderia ser outro: o movimento antirracista Stop Asian Hate (Pare o Ódio Contra Asiáticos) veio como resposta a elas. Essa luta foi levantada nos Estados Unidos depois de muitos asiáticos e norte-americanos com descendência asiática irem às ruas relatando crimes de ódio, agressões verbais e até mesmo físicas contra eles. No Brasil, essa luta foi mais discutida pela hashtag #StopAsianHate nas redes sociais em 2021.  

Além disso, houve o movimento I am Not a Virus (Eu Não Sou um Vírus) online, também nas redes sociais, com muitos relatos e denúncias da discriminação que a população amarela sofre de forma mais intensa desde o início da pandemia da Covid-19. Bruna Tukamoto fez um vídeo acompanhando esse movimento, com uma pergunta para seu público amarelo: “Você já sofreu alguma violência, seja física ou não por causa da pandemia?”. Ela recebeu inúmeros relatos.

Os casos são diversos, mas os registros oficiais não refletem esta realidade. A resposta dada a uma solicitação de dados – realizada por meio da Lei de Acesso à Informação (LAI) – sobre casos de racismo contra a população amarela no Brasil foi de que o sistema não permite revelar pedidos sobre investigações criminais realizadas por policiais. Entretanto, é difícil imaginar que haja alguma denúncia de racismo para a polícia, já que muitas pessoas amarelas não se sentem confortáveis para fazer uma ou identificar alguma micro agressão como racismo, e muito menos a polícia entender que é um crime de ódio.

“Eu acho que há um apagamento. Nós sofremos muitas micro agressões e isso dificulta um pouco que as pessoas, de forma geral, legitimem nossa luta, porque existe uma ideia popular de ‘É piada, não é racismo, a gente está brincando quando zoa seu sobrenome ou quando fala que seu pênis é pequeno (no caso de um homem amarelo). É só uma piada, mas você se sente ofendido?’. Eu acho que existe esse comportamento de invalidar nossas dores. Por não ser tão violento e tão escancarado, as pessoas confundem muito e ignoram”, declara Bruna.

A diferença entre o racismo amarelo sofrido por chineses e japoneses

O racismo amarelo tem raízes no passado e no presente: remonta ao contexto histórico do Imperialismo japonês, mas também à forma como a China é vista pelo mundo e por ela ter sido o primeiro país a identificar um caso de Covid-19 em 2019. A visão que as pessoas têm dos japoneses, chineses e seus descendentes acaba sendo diferente. Enquanto os japoneses são vistos pela população como pessoas inteligentes e com boas condições financeiras, os chineses são vistos como pessoas sujas e com renda baixa. Isso não significa que os japoneses não sofrem preconceito, mas sim que pode existir diferença entre os olhares.

A estudante de cinema e filha de pais japoneses, Letícia Ohfugi, conta que, mesmo não sendo estranhos a micro agressões, ela e sua família não sofreram nenhum ataque durante a pandemia: “Acho que é por minha família ser japonesa e pelo jeito como as comunidades nipo-brasileiras são vistas no Brasil. Existe um certo privilégio quando se compara a outras pessoas amarelas, porque há um mito de que os japoneses não são amarelos, são brancos, e muitos japoneses não têm noção de que são amarelos. Talvez o preconceito relacionado à Covid seja mais com pessoas chinesas”.

Da mesma forma pensa Isabela Jiang: “Nós somos considerados mais sujos. Não sei se consigo me expressar bem com essa palavra, mas o preconceito é mais violento se comparado aos japoneses, é mais escancarado e mais agressivo. A galera não poupa palavras”.

A história de Luiza ilustra essa situação. Às quartas-feiras à tarde, a estudante de Enfermagem ajuda seus pais chineses em sua lanchonete, e conta que sempre foi muito difícil trabalhar lá por conta das falas e atos preconceituosos que ela e sua família ouviram durante a vida, principalmente na pandemia.

“Se eu for contar nos dedos o número de pessoas que passam com um olhar de desprezo, falam que vão passar mal se comerem na lanchonete, ou que nós estamos roubando, não vai caber. São vários tipos de comentários que desagradam, episódios como olhar para a nossa cara e cuspir no chão, e de querer urinar na loja. A gente se desgasta”, desabafa Luiza.

Luiza Huang estuda Enfermagem na Universidade Veiga de Almeida
(Foto: Juliana Ramos)

O racismo amarelo também precisa estar na luta antirracista

Pelo fato de muitas pessoas não entenderem que essas micro agressões contra as pessoas amarelas são atitudes racistas, fica difícil incluir o racismo amarelo na luta antirracista. Mas é hora compreender e lutar contra qualquer tipo de fala e de ação, ainda que seja um assunto o qual começa a ter mais vozes, e pessoas escutando essas vozes. Já existem criadores de conteúdo que são amarelos, falam sobre este tipo de discriminação e sobre como lutar contra ela.

Além deles, a pauta está sendo muito levantada no governo do atual presidente dos Estados Unidos, Joe Biden, que convidou o grupo sul coreano BTS à Casa Branca para denunciar os crimes de ódio que os asiáticos e descendentes sofrem no país desde a chegada da Covid-19. “Todo mundo tem sua própria história. Nós esperamos que hoje tenha sido um passo à frente para respeitar e entender um ao outro como pessoas valiosas”, discursou Kim Taehyung, de 26 anos, um dos membros do grupo.

O membro Kim Taehyung do grupo BTS discursando na Casa Branca no dia 01/06/2022
(Foto: Reprodução/@btsqtarchive no Twitter)

Essa realidade de preconceito também pode ser vista nos ambientes universitários, um lugar em que se espera que as pessoas sejam mais conscientes sobre racismo e a luta antirracista, mas onde ainda há muita ignorância — inclusive por parte de professores.  A estudante de Cinema Letícia Ohfugi conta que uma de suas professoras foi racista. Em um vídeo para um trabalho, Letícia colocou o áudio de um filme coreano, e a professora perguntou por que ela não pôs de um filme japonês, já que a representaria melhor.

“Respondi que sou brasileira e minha família é japonesa, e coloquei esse áudio porque é de um filme de que eu gosto. Como resposta, ela me disse: ‘Mas coreano e japonês ninguém vê diferença, e ninguém precisa saber’. Eu fiquei chocada, porque foi uma pessoa que passou o período todo falando sobre racismo. Então, o racismo amarelo não é visto como racismo para as pessoas”, relata a estudante.

Essa e outras micro agressões ainda não são vistas por uma boa parte das pessoas como racismo, mas os relatos evidenciam que é preciso mudar esta mentalidade. Bruna Tukamoto resume:

“Eu sempre falo que a luta antirracista precisa de aliados. Ela foge do nicho só amarelo, precisa de pessoas não amarelas engajadas”.

Reportagem realizada por Juliana Ramos para a disciplina Apuração, Pesquisa e Checagem, ministrada pela professora Maristela Fittipaldi

Foto de capa: Pixabay

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Agência UVA é a agência experimental integrada de notícias do Curso de Jornalismo da Universidade Veiga de Almeida. Sua redação funciona na Rua Ibituruna 108, bloco B, sala 401, no campus Tijuca da UVA. Sua missão é contribuir para a formação de jornalistas com postura crítica, senso ético e consciente de sua responsabilidade social na defesa da liberdade de expressão.

2 comentários em “Preconceito contra asiáticos e seus descendentes cresce no Brasil durante a pandemia

  1. Excelente, documentário.
    Não sabia que era tão sério essa situação

  2. Parabéns pelo texto. Muito bem escrito e necessário.
    O tema racismo e preconceito em suas diversas dimensões precisam ser tratados com seriedade e divulgados com exaustão.
    Lembremo-nos que a normalização que ocorre/ocorria sobre estes assuntos precisa ser desconstruída. No entanto não podemos esquecer que é um movimento que implica diretamente em processos de mudança educacional que impactam na mudança de hábitos e posteriormente se enraízam enquanto cultura. É um movimento lento e que pede reestruturação social. Para acelerá-lo na medida possível da sua natureza, é preciso o envolvimento direto dos poderes públicos, das instituições de educação e das associações e grupos organizados para disseminar a mensagem e esperar a aderência da sociedade.
    Que todos que se identifiquem de alguma maneira com o tema se unam, divulguem e recebam o acolhimento necessário das pessoas corretas, que possam influenciar e divulgar o movimento e, sobretudo, a ajudar no enfrentamento à tais atitudes vis, repugnantes e descabidas.

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