Política

Professores de Jornalismo da UVA avaliam cobertura dos protestos do dia 29

Manifestações ocuparam as ruas de 200 cidades no país, mobilizando ativistas, movimentos sociais e trabalhadores

Depois das manifestações contra o governo de Jair Bolsonaro, realizadas durante todo o sábado (29), terem mobilizado ativistas, movimentos sociais e trabalhadores em mais de 200 cidades e 27 capitais no país, o que movimentou as redes sociais no domingo (30) foi justamente a falta de cobertura jornalística destes atos por parte da imprensa. Muitos tweets de famosos e populares, jornalistas e pesquisadores da Comunicação, questionaram o fato de “O Globo”, “O Estado de SP”, “Globonews” e outras emissoras de TV, não darem o devido espaço à ‘cobertura’ do evento.

A Agência UVA foi à campo conversar com os professores do curso de Jornalismo, pesquisadores em suas respectivas áreas, para entender o contexto e ouvir deles uma avaliação sobre a cobertura. Os atos pediam o impeachment do presidente Bolsonaro e criticavam, especialmente, a gestão da pandemia da Covid-19 pelo Governo Federal, citando atrasos na compra de vacinas e as mais de 450 mil vidas ceifadas pela doença no Brasil.

A jornalista Carol Pires, que é pesquisadora da Universidade de Columbia (EUA) e repórter da Revista Piauí, foi crítica especialmente aos veículos impressos de “O Globo” e “O Estado de SP”, que não deram na capa os protestos.

Mônica Nunes, Doutoranda em Comunicação, e professora de Rádio da Universidade Veiga de Almeida, destacou a cobertura feita pelas emissoras de rádio, em especial a “Band News FM”, que além de ter feito a cobertura do evento, deu bastante ênfase ao mesmo em suas redes sociais,  porém questionou a participação das outras mídias na cobertura:

“As emissoras de rádio cobriram e divulgaram as manifestações, durante todo o dia de sábado. Agora, por quê, essa informação não está sendo veiculada da mesma forma em outras mídias? Não vimos informações sobre as manifestações na capa de grandes veículos impressos, por exemplo”, lamentou Mônica.

A Doutra em Comunicação e Cultura e professora de Apuração e Checagem e Jornalismo de Revista da UVA, Maristela Fittipaldi, também lamentou a contribuição da impresa brasileira nas manifestação do dia 29:

Ética no jornalismo com Maristela Fittipaldi – Redação 8022
Para Maristela, muitos veículos não fizeram seu trabalho primordial. Foto: Redação 8022

“Bastava que os jornais fizessem seu trabalho básico de apuração: enviar equipe à manifestação, entrevistar pessoas nas ruas, ouvir a organização do evento, ouvir a polícia, repercutir os atos juntos a atores políticos de várias vertentes, registrar, como deve fazer um jornalista bem pautado. O que vemos é que isto não ocorreu. Na verdade, a mídia pouco contribuiu, ou melhor, contribuiu, em sua maioria, para ocultar e minimizar um movimento que ocupou de fato as ruas de muitas cidades, em especial as metrópoles brasileiras, e também encontrou eco em mais de dez países, nos quais houve manifestações”, criticou a professora.

Questionada sobre a importância da mídia impressa em eventos desse tipo, Maristela fez a seguinte ressalva:

“Por mais que possamos argumentar que os veículos impressos vêm perdendo espaço para as mídias eletrônicas e digitais, e para as redes sociais, eles ainda gozam de prestígio junto à uma boa parcela da população, justamente a fatia que abrange atores sociais que têm poder de influência sobre outra camadas da população, que estão nos cargos decisórios do país, que determinam políticas públicas”, ressalvou a Doutora.

Luis Carlos Bittencourt, Doutor em Comunicação e Cultura, e discente de Televisão na UVA, comentou sobre os problemas enfrentados na cobertura das manifestações:

Bitt comenta que a TV ainda é o principal meio de informação do país. Foto: Reprodução/Redes Sociais

“A imprensa nacional relutou em fazer a cobertura por conta da pandemia e do isolamento social. Acredito que o problema se deu por conflitos éticos entre destacar ou não as manifestações, por conta das medidas de distanciamento, muito mais que uma autocensura política”, diz.

Ele explicou o trabalho em conjunto das mídias para a formação da opinião pública: “A tevê ainda é o principal meio de informação da maioria da população e como tal, contribui para a formação da opinião pública. Mas não de uma maneira unidirecional. Há uma série de fatores que entram nessa convergência entre mídia e sociedade”, explica o Doutor.

O também professor de TV da UVA, Luiz Gustavo de Lacerda, Doutorando em Comunicação Social, teceu comentários sobre a pouca participação das emissoras de televisão na cobertura dos eventos do dia 29:

“Houve uma cobertura insuficiente por parte da televisão. Faltou realmente pautar as manifestações, dar espaço para as mesmas, fruto de falta de interesse editorial por parte das emissoras, que não só deixaram de colocar esse acontecimento em sua agenda jornalística, como também deturparam as manifestações. Conforme observado, por exemplo, pela cobertura feita pela Record”, criticou o professor.

Luiz Gustavo ainda deixou clara a importância de as coberturas televisivas, assim como de outros veículos de informação, em um Estado democrático:

“A televisão, bem como os outros canais de informação, são um exercício de democracia. Porém, a TV nos permite ter uma melhor visualização dos eventos, nos fazendo perceber o volume que se gera, bem como as bandeiras dos movimentos que ocupam aquele lugar”, destacou Luiz Gustavo.

Para a Mestra em Comunicação e professora de jornalismo digital da UVA, Daniela Oliveira, a omissão não é nova e ocorreu também em outros episódios da história.

“Entendo uma preocupação em não incentivar a aglomeração em tempos pandêmicos, mas não cobrir da maneira correta algo que está acontecendo não é fazer, de fato, jornalismo sério. Se olhamos para outras coberturas, percebemos que parte da imprensa também não cobriu manifestações importantes no passado. Mais recentemente, me lembro dos protestos de 2018 com o mote #elenão, que tiveram milhares de manifestantes nas ruas de diversas capitais e foram minimizados por alguns veículos”, diz.

Um outro fato apontado por ela foi a cobertura dos protestos antirracistas, nos EUA, também ocorridos durante a pandemia, terem sido cobertos de outra forma por veículos brasileiros. “Foram dois pesos e duas medidas”, pondera.

Para quem se interessa pelo tema da cobertura jornalística, a professora recomenda ainda (a alunos do curso de Jornalismo e interessados, em geral) que leiam a newsletter do Observatório da Ética Jornalística (objETHOS), uma realização do Programa de Pós-Graduação em Jornalismo (PPGJOR) da Universidade Federal de Santa Catarina.

“O ObjETHOS sempre vem com uma aula de ética jornalística e mil reflexões sobre o nosso papel, o papel da imprensa. É muito importante que não só façamos Jornalismo, mas pensemos sobre o papel do jornalista e da imprensa, tão comentados em tempos como hoje”, recomenda Daniela.

No tweet abaixo é possível observar as análises do ObjETHOS sobre a cobertura deste e de outros eventos.

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Gabriel Figueiredo – 1º período

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