Educação Geral Sociedade

ODS nº4: Brasil e seu mais alto degrau

Agenda 2030 elenca desafios para o país enfrentar em prol do desenvolvimento sustentável. Entre eles, a educação plena

A educação é um direito básico garantido pela Constituição brasileira e pelos Direitos Humanos Internacionais. É considerada como parâmetro para avaliação do bem-estar social dos países pela Organização das Nações Unidas e por sua fundação voltada para área, a UNESCO. Essencial para o desenvolvimento humano e também é um dos principais Objetivos de Desenvolvimento Sustentável (ODS) estabelecido pelo Agenda 2030 da ONU, cuja meta 4 visa “garantir o acesso à educação inclusiva, de qualidade e equitativa, e promover oportunidades de aprendizagem ao longa da vida para todos”.

No Brasil, a educação é avaliada por meio do Índice de Desenvolvimento da Educação Básica (Ideb), além de outras maneiras de avaliação do sistema educacional no país, como o Exame Nacional de Desempenho dos Estudantes (Enade) ou o popular Exame Nacional do Ensino Médio (Enem). Todos estes parâmetros evidenciam a mesma realidade: há uma lista de desafios a serem atingidos para um futuro melhor.

E isso, para o Brasil, talvez seja um enorme obstáculo. A educação é considerada como o principal tema a ser avaliado pelos brasileiros como importante, além de ser o segundo ministério com o maior receita do governo federal para 2020, com cerca de 102 bilhões de reais disponíveis, realidade que pode mudar em 2021, já que perderá, de acordo com projeções da secretaria do Tesouro, entre 13 e 40 bilhões de reais. Para o Ideb 2019, a meta da educação fundamental foi para 5,9 pontos, enquanto o ensino médio atingiu apenas 4,2 tendo como meta a nota 5,0.

A instabilidade em algumas prefeituras é o que mais atinge a educação básica no Brasil, o que resulta na falta de professores, de materiais e até mesmo de água encanada. “É difícil você querer vir estudar em uma escola que não tem nem professor nem água”, diz Ingrid Souza, de 18 anos, estudante do CIEP José Carlos Brandão na Penha, Rio de Janeiro.

É claro que com a situação da pandemia, a situação da escola deveria ser amenizada com a prática do ensino a distância (EAD), mas não foi exatamente o que ocorreu. “Demorei três meses para receber um chip com internet dado pelo governo para eu poder estudar. Com menos de uma semana, tive prova e minha melhor nota foi um 4 em Português”, conta Ingrid.

Ingrid é estudante de uma escola pública no Rio de Janeiro. (Foto: Acervo Pessoal)

A ODS de número 4 talvez seja a mais burocrática e difícil de realizar no Brasil. O retrato da desigualdade não é apenas culpa da má educação pública, mas do alto nível de oportunidades de emprego. Em meio à pandemia, e com a saída do ensino a distância como única solução para “salvar” um ano letivo considerado perdido por todos, 53% do país não tem internet de qualidade em casa e em apenas 46% dos lares brasileiros há algum tipo de computador.

Vitória Montez, de 22 anos, é estudante universitária de enfermagem na UNIRIO e comenta as dificuldades enfrentadas. “Estudei em um curso pré-vestibular comunitário na Baixada Fluminense que tinha mais recursos que a escola onde estudei”. Antes moradora de Belford Roxo, hoje ela vive em um apartamento em Del Castilho alugado com alguns amigos. “A situação da educação vai muito além da falta de dinheiro, faltam pessoas capacitadas”. Sua principal queixa talvez se reflita no dado divulgado em 2019 pela ONG Todos Pela Educação, que aponta que 71% dos professores do Brasil estão insatisfeitos com suas condições de trabalho.

Vitória Montez é estudante de enfermagem na UNIRIO. (Foto: Acervo pessoal)

Tal necessidade de profissionais capacitados resultou na abertura de uma faculdade de Educação em São Paulo inaugurada pelo Serviço Social da Indústria (Sesi) em 2015. “O Sesi sempre capacitou, permanentemente, seus professores, mas sentia muita dificuldade no professor ingressante, que era aquele que vinha com conhecimento muito grande da parte teórica, mas na parte prática ainda era muito cru”, explica Fernando Antônio Carvalho de Souza, diretor da Faculdade de Educação do Sesi/SP em um comunicado institucional anos atrás.

Os desafios para uma educação melhor se somam à falta de recursos e à insatisfação dos profissionais, e o desinteresse dos alunos talvez seja outro ponto cardial nesta luta por uma educação de qualidade para todos. Pedro Monteiro, de 21 anos, jovem aprendiz, é um dos estudantes que não se interessam em ingressar na faculdade. “A falta de oportunidade que a gente tem é um degrau enorme, e eu não posso arriscar. Preciso de algo real, que me sustente agora, e não um planejamento para depois”.

Pedro Monteiro foi estudante do Pedro II. (Foto: Acervo Pessoal)

E a decepção não é para menos: mais de 50% dos jovens que desejam cursar uma faculdade dependeriam de algum recurso do governo. A pesquisa da Associação Brasileira de Mantenedoras do Ensino Superior (ABMES) aponta que 64,4% dos jovens sonham com um diploma do ensino superior e que 64,8% concluíram o ensino médio em uma escola pública.

Em meio a esses desafios que parecem sem solução, uma bomba-relógio conhecida por Geração Nem-Nem, reúne quase 10 milhões de jovens brasileiros, entre 15 e 29 anos sem emprego e sem estudo superior. É considerado um exército de pessoas que não agregam em nada a situação da educação brasileira.

Mas engana-se quem pensa que o problema é exclusivo do Brasil, ou de países desiguais. De acordo com a Organização Internacional do Trabalho (OIT), só em 2013, último ano que foi feito esse censo, 73,4 milhões de pessoas entre 15 e 24 anos não tinham emprego e nem estudo ao redor do mundo.

É uma dura realidade para jovens como Gabriel Nóbrega, de 19 anos, que recém-formado no ensino médio, não se preocupa em ingressar na faculdade. “É difícil você manter um foco pra entrar na faculdade se você precisa de um emprego, pagar contas, ajudar em casa. Aos poucos a gente vai deixando na faculdade pra depois”. Gabriel busca seu primeiro emprego agora e enxerga a exigência do mercado por experiência. “Vale mais um ano de experiência do que uma faculdade”.

Gabriel Nóbrega tenta aos 19 anos conseguir seu primeiro emprego. (Foto: Acervo Pessoal)

Luísa Cordeiro, professora de História e que hoje dá palestras em escolas ao redor do Rio de Janeiro, conversando sobre a importância da faculdade, afirma que é irresponsável colocar a faculdade pra depois por capricho. “É irresponsável, se o mercado está exigente, se as chances estão diminuindo. Pense na faculdade, ou no curso superior, como um funil, um filtro, para separar os funcionários promissores daqueles que não receberão atenção.”

Luísa Cordeiro é professora de História e palestra sobre a importância da educação superior. (Foto: Acervo Pessoal)

O dado do IBGE mais atualizado mostra que 19,6% dos jovens brasileiros são dessa chamada Geração Nem-Nem, aqueles 10 milhões de brasileiros, de uma população estimada em 48,8 milhões de jovens. Se a faculdade passou a ser um objeto de desejo que pode ser adiado, assim como uma viagem ou a compra de um carro, o trabalho é essencial. “Para um jovem, hoje é mais vantajoso ter um emprego do que priorizar a educação. O país obriga a isso”, completou.

Eduardo Côrrea trabalha na área da educação há mais de 25 anos. (Foto: Acervo Pessoal)

Para Eduardo Côrrea, Doutor em História e coordenador de um curso pré-vestibular no Rio de Janeiro, os avanços obtidos pelo ENEM foram os maiores da educação brasileira no período republicano, mas são poucos diante da realidade. “Apenas 24% das vagas no ensino superior são públicas, uma vergonha. É crucial que o Estado apresente propostas que visem à geração de mais e mais vagas públicas para o ensino superior ou bolsas e financiamentos para quem precisa e tem que recorrer à educação privada”. A Agenda 2030 é mais um desafio para o Brasil, mas elenca o seu mais antigo problema: a falta de educação igualitária para todos.

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