Esporte

Jornalistas e cientista político comentam caso Carol Solberg

Punição da jogadora de vôlei Carol Solberg gera debate em torno do posicionamento político dos atletas no meio desportivo

Após gritar “Fora Bolsonaro” em entrevista durante a primeira etapa do Circuito Brasileiro de vôlei de praia, que aconteceu em Saquarema no mês passado, a jogadora Carol Solberg foi advertida pelo Superior Tribunal de Justiça Desportiva (STJD) por sua fala. Jornalistas e especialistas ouvidos pela Agência UVA opinaram sobre o assunto, que gerou debates nas redes sociais e nos bastidores.

Para a escritora e jornalista Eliana Alves Cruz, que tem uma coluna no UOL Esporte, a punição foi uma loucura. Ela conta que viu a atleta sendo silenciada e vê esse caso como muito sério, pois o esporte é parte da sociedade e não uma área em separado do mundo.

Jornalista Eliana Alvez Cruz fala sobre a punição de Carol Solberg. Foto: Arquivo pessoal

“É tudo muito difícil. Às vezes o mundo do esporte se acha à parte da sociedade, não se vê dentro da política, só que não é verdade. É um caso que expõe um momento histórico, resvalando para questões ditatoriais”, afirma Eliana.

A jornalista ainda recordou o caso dos jogadores de vôlei da Seleção Masculina, que em 2018 fizeram, com as mãos, o sinal 17, a favor do presidente Jair Bolsonaro, e nada aconteceu.

Dois jogadores de vôlei causam polêmica ao fazer o sinal de 17. Foto: Reprodução CBV

Eliana ressalta que uma das razões para tal punição pode ter sido o fato de Carol ser mulher, considerando que a sociedade é machista.

“Quando se trata de uma mulher, acompanhada das críticas, vem toda misoginia, vem todo machismo, vêm aqueles comentários tenebrosos e escabrosos que expõem o quão retrógrada ainda é a sociedade brasileira nas questões feministas e com a mulher que pratica esporte e tem opinião formada”, conclui a jornalista.

O jornalista Marcelo Barreto, apresentador do Redação Sportv, diz que algumas opiniões dos atletas, como da Carol Solberg, dependendo do momento do evento esportivo, podem gerar certa comoção, principalmente se forem de cunho político ou religioso.

“Temos uma onda positiva muito grande, a NBA, por exemplo, se tornou uma liga de posições sociais forte, principalmente em relação ao racismo, e isso é muito bem visto e bem aceito. Mas parece que ainda há debate com relação a posições pessoais expressas no momento esportivo”, conjectura Barreto.

Para o cientista social e Mestre em Comunicação, Guilherme Carvalhido, professor da Universidade Veiga de Almeida, o que faz a estrutura do esporte desestimular as manifestações políticas são os contratos estabelecidos com o governo e empresas.

“Normalmente, são pelos contratos estabelecidos com os governos e empresas que não desejam manifestações políticas. Essa é uma atitude normal no universo empresarial, já que os governos, obviamente, não querem ser criticados por aqueles que são patrocinados por eles”, afirma Carvalhido.

Carol Solberg grita “Fora Bolsonaro” após ganhar o bronze no Circuito de vôlei em Saquarema. Foto: Reprodução SporTV

Entenda o caso
Durante uma etapa do Circuito Brasileiro de vôlei de praia, disputado dos dias 17 a 20 de setembro, a jogadora Carol Solberg foi denunciada pelo Superior Tribunal de Justiça Desportiva (STJD) por ter gritado “Fora, Bolsonaro” em uma entrevista após ganhar o bronze na competição.

Carol foi denunciada com base nos artigos 191º e 258º do Código Brasileiro de Justiça Desportiva (CBJD). O primeiro deles faz alusão ao cumprimento do regulamento da competição: “deixar de cumprir, ou dificultar o cumprimento de regulamento, geral ou especial, de competição”. E o segundo à atitude antidesportiva: “assumir qualquer conduta contrária à disciplina ou à ética desportiva não tipificada pelas demais regras deste Código à atitude antidesportiva”.

Em entrevista para o programa “Papo de Segunda” (abaixo), do GNT, na última segunda-feira (19), Carol reiterou a necessidade de expressão de atletas e disse que irá recorrer junto ao STJD.

Histórico de manifestações políticas no meio desportivo
Em um texto publicado no site GQ da Globo, em 2018, o apresentador do Big Brother, Tiago Leifert causou polêmica ao dizer que esporte não deve se misturar com política e que eventos esportivos não são locais apropriados para manifestações políticas.

“Um evento como jogo de futebol serve a manifestações políticas? Eu acho que não. Não vejo motivos para politizar o esporte”, escreveu ele. Na época o texto do apresentador gerou muitas discussões entre os internautas nas redes sociais.

Contudo, o esporte já vivenciou vários momentos marcantes em que a política esteve presente em eventos de caráter esportivo. Olimpíadas, futebol e até NBA são exemplos de que posicionamentos políticos e sociais e liberdade de expressão foram importantes na história do esporte e do mundo.

Nas Olimpíadas de 1968, na Cidade do México, no segundo dia das provas de 200 metros rasos, o norte-americano Tommie Smith, conhecido como “O Jato” levou o ouro com o tempo de 19,83 segundos. Enquanto o compatriota John Carlos levou o bronze. Durante a comemoração, os atletas não olharam para bandeira, mas abaixaram a cabeça e ergueram o punho com luvas pretas: saudação dos Panteras Negras, grupo ativista que, na época, lutava contra o racismo nos EUA. Como consequência, foram expulsos da delegação americana, junto com outros atletas que também se manifestaram, e voltaram para casa.

Nesse dia os atletas protagonizaram um protesto que entrou para a história.

Tommie Smith fazendo saudação dos Panteras Negras nas Olimpíadas de 1968. Foto: Brasildefato/ Google Creative commons

Ainda, a principal liga de basquetebol profissional do mundo, NBA americana, sofreu um dos boicotes mais históricos do esporte. Em virtude da pandemia, a liga foi disputada em uma bolha montada no parque da Disney, em Orlando, nos Estados Unidos. Os jogadores se manifestaram em razão da violência policial contra a população negra americana: em jogo contra o Orlando Magic, os atletas do time Milwauke Bucks se recusaram a entrar em quadra, causando suspensão da partida.

Essa decisão foi tomada pelos atletas após Jacob Blake, um homem negro de 29 anos, ter sido alvejado com sete tiros pelas costas por policiais brancos em Kenosha, no estado de Wisconsin. A partir dessa ação, os jogos da NBA foram paralisados.

Erroneamente, muitos afirmam que futebol e política não se misturam. Mas no passado, o clube Sport Club Corinthians Paulista criou um dos maiores movimentos ideológicos da história do futebol Brasileiro. Liderados por futebolistas politizados como Sócrates, Wladimir, Casagrande e Zenon, constituíram um movimento chamado “Democracia Corinthiana”.

Sócrates foi um dos líderes da Democracia Corinthiana. Foto: Sport Club Corinthians Paulista

Essa fase do clube foi muito importante, pois foi quando as decisões, como contratações, regras de concentração, direito ao consumo de bebidas alcoólicas em público, liberdade para expressar opiniões políticas e outros, eram decididas através do voto igualitário de seus membros, de modo que o voto do técnico, por exemplo, valia tanto quanto o de um funcionário ou jogador. Isso criou uma espécie de “autogestão” do time, algo revolucionário para o contexto em que estava inserido.

E esse não foi o único caso que futebol e política se uniram em prol de mudanças. Durante a pandemia, torcidas organizadas, como Palmeiras, Corinthians, São Paulo e Santos, se uniram no dia 14 de junho, na Avenida Paulista, em São Paulo para protestar contra o fascismo, racismo e o governo do presidente Jair Bolsonaro.

Torcedores se uniram na Avenida Paulista em ato pela democracia. Foto: Fernando Bezerra/ Google creative commons

Também esse ano, atletas, ex-atletas e jornalistas esportivos lançaram um movimento chamado “Esporte Democracia”. A ideia do movimento é buscar maior participação do setor esportivo na luta pela defesa da democracia e dos direitos humanos. Há também grande ênfase na luta antirracista, colocando o tema como uma das principais reinvindicações.

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Mateus Almeida Marinho – 8º período

3 comentários em “Jornalistas e cientista político comentam caso Carol Solberg

  1. Grande reportagem!!!

    Parabéns a toda a equipe.

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