Agência UVA Comunicação

Reflexões sobre diversidade marcam último dia do Festival 3i

Evento sobre inovação no jornalismo abordou necessidade de negros e outros grupos minoritários integrarem as redações brasileiras

O terceiro e último dia do Festival 3i, que promoveu na Fundição Progresso, na Lapa, no Rio de Janeiro, conversas sobre um jornalismo independente, inovador e inspirador, abordou temas como a diversidade nas redações jornalísticas; a necessidade de se pensar em novos modelos de negócio e o engajamento das audiências a partir das redes sociais.

Mesa mais aguardada deste domingo (20), a que reuniu Pedro Costa, do Alma Preta; André Santana, do Mídia Étnica e Portal Correio Nagô; Paula Cesarino Costa, editora de Diversidade da Folha de São Paulo e Matías Máximo, do Cosecha Roja (Argentina), pôs o público para refletir. “Precisamos ter redações mais diversas para que possamos refletir a sociedade em que vivemos”, disse André Santana, na conversa moderada por Carolina Monteiro, do Marco Zero Conteúdo.

“Os negros e negras deste país não se veem representados nos veículos jornalísticos em geral. E isso a gente só muda tendo mais diversidade nas redações. Quando foi a última vez que vocês entrevistaram um negro para falar de seu trabalho nas áreas de ciências, robótica ou economia? Não vale se for para falar de violência, samba, futebol ou carnaval”, provocou ele, que também é professor universitário em Salvador.

André criticou bastante a naturalização das mortes de jovens negros (um jovem negro morre a cada 23 segundos no país), a partir das coberturas feitas, especialmente pelos veículos telejornalísticos. “Não podemos mais naturalizar isso. Precisamos ter consciência em nossas coberturas, pois é muito claro que construímos uma narrativa apenas pela forma com a qual tratamos o assunto”, pediu.

Pedro Costa (foto), do Alma Preta, falou da ausência de negros nas redações de grandes veículos de imprensa. Foto: Daniela Oliveira/Agência UVA

Pedro Costa, do Alma Preta, mostrou dados do Grupo de Estudos Multidisciplinar da Ação Afirmativa (Gemaa) de como as redações de tradicionais veículos de mídia do país como O Globo, Folha de São Paulo e Estadão têm respectivamente apenas 8%, 4% e 1% de negros em sua equipe. Paula Cesarino Costa, editora de Diversidade da Folha, cargo criado há menos de dois meses, disse que parte das mudanças que o jornal espera fazer este ano neste sentido é contratar mais negros para seu time. “Também estamos fazendo um mapeamento, em parceria com o pessoal do É Nós Conteúdo, para observar e entender quem são as pessoas que estamos entrevistando e fotografando. A ideia é checar se elas estão refletindo este novo posicionamento de diversidade”, disse.

Quase como um manifesto, Pedro Costa disse se sentir inspirado atualmente pelo trabalho jornalístico independente feito por jovens das periferias das principais cidades do país. “Existe algo mais inspirador do que o jornalismo feito por esta molecada das periferias e das quebradas?”, perguntou, recebendo uma salva de palmas da plateia.

Como cobrir a cidade fora das redações tradicionais

Em outra mesa, um pouco mais cedo, Raull Santiago, do Coletivo Papo Reto, colocou lenha no debate acalorado, afirmando a necessidade de os repórteres das favelas serem considerados jornalistas (com ou sem diploma) e não apenas fontes. “A pessoa que mora naquela comunidade e é jornalista construiu um conhecimento sobre aquela região, sabe como abordar, o que falar. Isso é uma ciência. Ela não pode ser vista apenas como entrevistada”, disse ele.

Na conversa, o americano Darryl Hollyday, do City Bureau (Chicago), dividiu com a plateia como seu veículo treina novos repórteres locais para que áreas invisibilizadas pela grande mídia não deixem de ser vistas. O veículo atua em áreas diversas do jornalismo, não apenas na de produção de conteúdo, mas especialmente na capacitação de pessoas para que possam produzir jornalismo elas mesmas.

“A democracia só vai sobreviver com muito jornalismo. E entendemos que podemos fazer um bom jornalismo, mas seremos muito mais eficazes para a manutenção da democracia se ensinarmos mais pessoas a usarem esta poderosa ferramenta”, disse Darryl.

Repórter premiada, Elvira Lobato, ex-Folha de São Paulo, e com prêmios Esso na bagagem, compartilhou com o público “vazios jornalísticos” em áreas tão perto do Rio de Janeiro como Japeri. “Lá só existem dois blogs, mas que tratam apenas amenidades. A cobertura jornalística neste local é quase como uma cobertura de guerra, tamanha a falta de tudo nesta localidade”, disse.

A segunda conversa do dia girou em torno das formas de tornar viável empreendimentos jornalísticos inovadores. (Foto: Daniela Oliveira/Agência UVA)

Outras mesas foram realizadas bem cedo, uma delas sobre o diálogo com a audiência por meio das redes sociais. Millie Tran, do New York Times, Danisbel Gómez Morillo, do Efecto Cocuyo (Venezuela) e Ana Freitas, da New Content, debateram com Marina Menezes, do Nexo, sobre a necessidade de se aproximar de leitores. Seja por meio de pesquisa, para entendê-los melhor, e engajando em conversas que possam gerar novos conteúdos para seus veículos jornalísticos.  

Em outro momento do dia, Janine Warner (na foto acima, ao centro), da Sembra Media, falou com Mateus Netzel, do Poder 360, e Rogério Galindo, Plural.jor, sobre modelos de negócio para projetos empreendedores em jornalismo. “Não diria que é fácil empreender no jornalismo, por isso, é necessário ter uma boa rede de apoio e buscar recursos, incluindo fundos”, contou Janine, que tem experiência em apoiar projetos independentes por meio de sua aceleradora .

LEIA TAMBÉM: Festival 3i recebe Rosental Alves, referência em inovação no jornalismo
LEIA TAMBÉM: Desinformação e colaboração na pauta do Festival 3i

Se você não conseguiu estar no Festival 3i, assista à gravação de todos os painéis do palco principal, no canal do YouTube do evento.

Daniela Oliveira é jornalista e professora responsável pela Agência UVA.

Agência UVA é a agência experimental integrada de notícias do Curso de Jornalismo da Universidade Veiga de Almeida. Sua redação funciona na Rua Ibituruna 108, bloco B, sala 401, no campus Tijuca da UVA. Sua missão é contribuir para a formação de jornalistas com postura crítica, senso ético e consciente de sua responsabilidade social na defesa da liberdade de expressão.

0 comentário em “Reflexões sobre diversidade marcam último dia do Festival 3i

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair /  Alterar )

Foto do Google

Você está comentando utilizando sua conta Google. Sair /  Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair /  Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair /  Alterar )

Conectando a %s