Geral

“Raiz do problema das enchentes está no processo histórico da urbanização carioca”

Cézar Pires, coordenador do curso de Engenharia Ambiental da Veiga (ao centro na foto), conversou com a Agência UVA sobre as enchentes do Rio. Confira os melhores trechos

Cézar Pires, coordenador do curso de Engenharia Ambiental da Veiga, conversou com a Agência UVA sobre as enchentes do Rio. Confira os melhores trechos

Para o especialista Cézar Pires, Mestre em Ciências de Engenharia Civil e coordenador do curso de Engenharia Ambiental da UVA, o problema da cidade do Rio de Janeiro é muito mais complexo do que se imagina. Historicamente sofrendo com chuvas, inundações e deslizamentos, os problemas vêm desde o inicio da urbanização da cidade, passam pela falta de investimentos do poder público e vão até a irresponsabilidade das pessoas. Confira a entrevista que Agência UVA fez com Cézar acerca do tema:

Agência UVA: De que forma poderíamos ter minimizado os impactos das chuvas que se abateram na cidade?
Cézar Pires: O problema é complexo, é um problema urbano. Problemas complexos como esse nunca têm uma única solução, mas sim um conjunto de soluções. Existem medidas para se encontrar soluções tanto a curto quanto a longo prazo. A curto prazo, o que se pode fazer é uma limpeza preventiva urbana tanto no sistema de drenagem, como também nas galerias e nos rios, que em sua maioria estão assoreados. Também tem o sistema de alarme, em comunidades e áreas de risco. A longo prazo, temos as soluções de engenharia, de micro e macrodrenagem. Microdrenagem são os bueiros, galerias. Muitas dessas galerias já estão subdimensionadas, por que a cidade cresceu, então elas deveriam ser redimensionadas para dar vazão às chuvas. Além disso, uma série de ações poderiam ser implementadas: desocupação de encostas em áreas de risco, desocupação de áreas de rio, impedir o desmatamento e reflorestar as encostas. A vegetação nas encostas ajuda a segurar o solo para não deslizar, absorve a água.

31064457_1890371691255965_7546574025517647975_n
Para Cézar Pires, que coordena o curso de Engenharia Ambiental da UVA, no centro na foto, ações a curto, médio e longo prazo podem ser tomadas por governantes e poder público. Fonte: Arquivo pessoal

 

Agência UVA: Poderia comentar, neste caso, a Gestão de Desastres dessa chuva em específico?
CP: Nesse caso, o fundamental, os órgãos essenciais são a Defesa Civil, o Corpo de Bombeiros e o pessoal de Serviço Social do poder público. Os Bombeiros e a Defesa Civil têm aquela responsabilidade de atuar na hora do desastre de forma emergencial. Impedir a locomoção de pessoas para áreas de risco; retirar pessoas de uma edificação que já desabou ou que está com um grande risco de isso acontecer. O pessoal do Serviço Social faz a função de acolhimento dessas pessoas. As pessoas que saem dos seus lares em áreas de risco ou ficam impedidas de voltar para a casa, elas vão pra onde? Então é necessário que existam locais seguros com capacidade de atendimento e acolhimento dessas pessoas, para que fiquem ali esperando até o momento de poderem retornar para suas casas.

LEIA TAMBÉM: Crivella sobre ação da Prefeitura nas chuvas: ‘Nós falhamos’

Agência UVA: De que forma os impactos globais no meio ambiente podem ter contribuído para uma calamidade como esta? A forma como a sociedade está se comportando tem a ver com isso?
CP: Não gosto de afirmar que mudanças climáticas globais e suas consequências sejam as responsáveis por um evento chuvoso como esse no Rio de Janeiro. Primeiro que isso sempre aconteceu na cidade, você tem relatos do início do século passado ou retrasado de grandes chuvas torrenciais. Acredito que sejam eventos locais que acontecem pelo fato de sermos um país tropical. Além disso, a cidade do Rio de Janeiro é uma cidade de encostas e morros muito próximas do litoral, de forma que os rios descem essas encostas com muita velocidade, encontram uma planície relativamente pequena, e logo em seguida o mar. E é uma cidade que foi urbanizada de forma um tanto errada. Já a questão do lixo é uma questão extremamente problemática. A gente cansa de ver os bueiros entupidos por excesso de lixo. Acho que a forma tradicional de coleta não está funcionando, a gente vê nossas ruas extremamente sujas e trazendo esse problema do entupimento. Ainda há, infelizmente, uma falta de educação da população, em jogar lixo na rua. A gente ainda vê isso, até mesmo vindo de pessoas instruídas, que sabem as consequências e fazem mesmo assim.

LEIA TAMBÉM: Enchentes fazem parte da história do Rio de Janeiro

Agência UVA: De que forma podemos refletir sobre o futuro da cidade? O que mais precisará acontecer para que algo seja feito?
CP: Creio que deve haver, de forma crescente, uma maior cobrança do poder público (local e regional) e de suas empresas: empresas de lixo, de saneamento e drenagem, etc. Hoje com a nossa “web democracia”, as pessoas podem exigir cada vez mais pelas redes sociais. O debate traz reflexões sobre os problemas. Essa questão de chuvas passa por essas duas esferas do poder público. Mas de maneira estrutural, nosso maior problema ainda é a pobreza. Você tem pessoas que se sujeitam a morar em áreas arriscadas, muitas vezes de forma degradante. Uma condição de pobreza traz uma ausência de opção. A gente necessita ter um empoderamento econômico e educacional da nossa população, para que ela tenha condições de cobrar mais e ter uma ação mais responsável ambientalmente, mais responsável socialmente.

Agência UVA: Há uma percepção de que o número de desastres causados pela chuva vem se intensificando e aumentando nos últimos anos. O senhor poderia comentar?

CP: A natureza tem uma aleatoriedade inerente aos seus processos, e muitas vezes, acontecem anos com muitos desastres ambientais oriundos de chuvas, e às vezes passam 30, 40, 50 anos e isso não acontece. Não afirmaria que esse possível aumento de frequência dos desastres estaria associado às mudanças climáticas globais. Uma coisa que realmente pode estar acontecendo é que as consequências sejam maiores, mas isso em função do aumento populacional, do crescimento da cidade. Por exemplo, uma chuva que caiu há 30 anos, essa mesma chuva caindo hoje traria uma intensidade maior dos desastres. Por quê? Por que a cidade cresceu, a população cresceu, tem mais gente morando em encostas, mais pavimentação irregular, entre outros.

LEIA TAMBÉM: Fortes chuvas no Rio causam alagamentos e transtornos aos cariocas


Victor Leal – 7º período

3 comentários em ““Raiz do problema das enchentes está no processo histórico da urbanização carioca”

  1. Pingback: Falta de planejamento é grande agente das enchentes do Rio | AgênciaUVA

  2. Pingback: Você sabia que existe uma CPI das Enchentes? | AgênciaUVA

  3. Pingback: Tragédia em Muzema: desabamento de 2 prédios em comunidade no RJ deixa ao menos 10 vítimas | AgênciaUVA

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair /  Alterar )

Foto do Google

Você está comentando utilizando sua conta Google. Sair /  Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair /  Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair /  Alterar )

Conectando a %s