Falta de planejamento é grande agente das enchentes do Rio

Carlos Murdoch, Mestre em Arquitetura e coordenador do curso de Arquitetura e Urbanismo da UVA, comenta decisões que levaram Rio de Janeiro ao estágio de crise

O Rio de Janeiro sofre com o descaso político há tempos, mas na terça-feira (9), o “estágio de crise” em relação às chuvas deixou ainda mais evidente os problemas que assolam a cidade. Em cenários como este, é comum que a população se volte para o poder público demandando melhorias. No entanto, é necessário entender que caminhos levaram o Rio a esta tragédia: o Mestre em Arquitetura Carlos Murdoch, coordenador do curso de Arquitetura e Urbanismo da UVA, dá a sua opinião sobre o caso.

“Para que tal tragédia ocorra, uma sequência de erros aconteceu previamente. O caso das inundações é um exemplo de uma malfadada concatenação de descasos e ausência de planejamento”, diz Murdoch. 

photo

O arquiteto (foto ao lado) evidencia que ao se modernizar, ao longo dos anos, a cidade passou por aspectos artificiais que influenciam na formação de alagamentos. “O Rio tem uma topografia peculiar, principalmente em áreas como o Centro, Zona Sul e alguns trechos da Zona Norte. A água que cai sobre os morros deságua nos vales, causando as enchentes. Para complicar a situação, boa parte do Centro e da Zona Sul se encontra em áreas de aterro (em marrom no mapa abaixo), portanto suscetível a alagamentos”, completa. 

Mapa topográfico do Rio de Janeiro. Fonte: Prefeitura do Rio de Janeiro/ Arte: Carlos Murdoch

Murdoch volta ao passado para explicar o processo de urbanização da cidade. Ele conta que apesar de cientes sobre o recorrente problema de enchentes no Rio de Janeiro, os governantes priorizaram o embelezamento da cidade. “Quando houve uma nova proposta de modernização, através do Plano Agache no final da década de 1920, durante o mandato do Prefeito Antônio Prado Júnior, mais uma vez o critério de embelezamento da cidade foi usado em detrimento da praticidade, segurança e infraestrutura”, diz. 

Anos mais tarde, em 1969, o arquiteto Lúcio Costa tomava para si os planos de urbanizar cerca parte da Barra da Tijuca. O projeto que completa 50 anos em 2019, tinha a intenção de manter as belezas do centro-oeste carioca, que eram consideradas por Lúcio como o agreste da cidade. Para ele, a criação de túneis e vias expressas na Barra resolveriam alguns problemas, visto que desafogariam as zonas Norte e Sul.

Fonte: Plano Agache 1930. Material de arquivo pessoal de Carlos Murdoch.

As medidas, no entanto, não previam a ocupação deste espaço e não foram capazes de acompanhar o crescimento populacional do Rio de Janeiro. Murdoch entende isso como um problema que pode, a curto prazo, se tornar um grande transtorno ainda maior.  “Aqui no Brasil temos um vício quando tratamos da ocupação do território. Via de regra o poder público não se antecipa à ocupação, simplesmente libera para a construção e depois corre atrás do prejuízo. Vide a Barra da Tijuca sem esgoto mesmo depois de uma Olimpíada”, diz ele. Os custos póstumos à ocupação revelam-se mais caros, segundo o especialista.

Em 2018, o Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE) chegou a contabilizar mais de 6 milhões de pessoas vivendo em um espaço territorial de cerca de 1.200.255 km² da cidade. O alto número populacional somado à falta de manutenção das questões urbanísticas é capaz de causar tragédias como alagamentos nas grandes metrópoles.

O Plano Diretor do Município do Rio de Janeiro, aprovado pela Lei Complementar Nº 111 de 2011, prevê princípios como o “cumprimento da função social da cidade e da propriedade urbana”. Ele detalha ainda políticas setoriais como regularização urbanística e saneamento ambiental. Entretanto, a Prefeitura do Rio de Janeiro congelou em cerca de 90% a previsão de gastos relacionados ao combate a enchentes em 2018.  

Mapa de Saneamento Ambiental da Cidade do Rio de Janeiro, constando pontos de drenagem. Fonte: Prefeitura do Rio

Segundo Murdoch, uma das obras de infraestrutura mais recentes foi a criação de reservatórios para o controle das cheias, conhecidos como piscinões, localizados na Praça da Bandeira. Estes, no entanto, tiveram a sua capacidade reduzida à metade e custaram 33% mais caros do que o previsto. 

“Os piscinões são uma solução antiga e têm sua eficiência comprovada, porém não fazem milagres e devem ser apenas uma parte do plano maior para a contenção de águas”, analisa. 

Para o especialista, o desafio é adequar as estruturas urbanas existentes às novas condições climáticas, ao envelhecimento da população, às demandas sociais justas e à mobilidade democrática. “Necessitamos da instalação emergencial de galerias pluviométricas nos pontos de alagamento, uma política rígida em relação à proteção das matas ciliares das encostas e a sua ocupação irresponsável, forte fiscalização e campanhas de educação em relação ao lixo da rua”, fala. Murdoch reforça ainda que não é serviço para apenas um mandato, mas sim um plano suprapartidário de longo prazo.

“Arquitetos e urbanistas irão assumir um papel de protagonistas no processo de solução das grandes questões de nosso tempo. Tem nos faltado a iniciativa e a coragem para nos posicionarmos como gestores e produtores de políticas públicas. Sabemos que a tarefa é complexa e demanda um novo paradigma de atitude e, acima de tudo, uma visão sistêmica global para resolver questões locais”, finaliza ele.

LEIA TAMBÉM: “Raiz do problema está no processo de urbanização do Rio”
LEIA TAMBÉM: Enchentes fazem parte da história do Rio de Janeiro

LEIA TAMBÉM: Fortes chuvas no Rio causam alagamentos e transtornos


Arielle Curti – 7º Período

2 comentários sobre “Falta de planejamento é grande agente das enchentes do Rio

  1. Pingback: Você sabia que existe uma CPI das Enchentes? | AgênciaUVA

  2. Pingback: Tragédia em Muzema: desabamento de 2 prédios em comunidade no RJ deixa ao menos 10 vítimas | AgênciaUVA

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair /  Alterar )

Foto do Google

Você está comentando utilizando sua conta Google. Sair /  Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair /  Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair /  Alterar )

Conectando a %s