Moda com propósito: o estilo da juventude em 1960

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 Reproduzido do Pinterest I Love Fashion

A roupa do dia era um conjunto de terninho com botões encapados e saia evasê, ambos de linho. A estampa do tecido eram listras verticais em rosa e branco. Salto de sete centímetros e uma bolsa: duas peças que deviam estar sempre a combinar. A cor? Branco, claro, para harmonizar com o terninho. A roupa costurada pelas próprias mãos foi produzida para ir à escola em que lecionava à turma de Ensino Fundamental. O estilo e o capricho na hora de se vestir eram reconhecidos pelas outras mulheres que moravam no bairro, que, ao vê-la passar rumo ao trabalho, comentavam: “Lá vem a elegante da Luis Sobral”.

A cena descrita acima foi vivida por Lidice Marcia Peçanha, de 68 anos. A roupa usada pela professora era comum às mulheres da época, no fim dos anos 50. Tempo em que a moda se torna revolucionária e passa a representar os desejos, as ideologias e a identidade do jovem. Um período de transformação. As mulheres com roupas comportadas, vestidos e saias rodadas começam a dar lugar às calças cigarette, aos terninhos e às saias e vestidos tubinhos. Uma das décadas mais ricas em cultura e moda, o ano de 1960 foi considerado um tempo de liberdade, principalmente para as mulheres, mas também, um ano de repressão.

Enquanto, por um lado, 1960 compôs um cenário importante para a moda, por outro, foi palco de um período turbulento e de grandes marcos na história recente do Brasil e do mundo. Os acontecimentos dessa década são representados por ‘Maio de 68’, época que emergiram grandes manifestações. O ideário contestador desse período surgiu ao longo dos anos anteriores – inspirado no sucesso de revoluções como a de Cuba, em 1959; e a independência da Argélia, em 1962 – até eclodir em 1968.

1968: o ano que não acabou

Maio de 68 foi semeado por anos cinzentos, mas marcou caminhos. Havia países em desenvolvimento se rebelando contra as grandes potências capitalistas e, ao mesmo tempo, o modelo soviético socialista era fortemente contestado. Na França, surgia uma onda revolucionária dos universitários e sindicalistas. No Brasil, então sob Ditadura Militar desde 1964, o ano também foi marcado por intensas mobilizações sociais e pelo endurecimento do regime. Maio 68 foi um movimento profundo, alimentado pela raiva contra a sociedade conservadora e a modernização dilacerante.

E em meio ao caos, a saída era se rebelar e expressar a ideologia contrária ao que era imposto à sociedade por meio da cultura, da música e da moda. Os anos 60 foram marcados por movimentos musicais que inspiraram a moda em dois sentidos: no comportamental e no comercial. O professor de História da Moda, Flávio Bragança, explica que nesse período a roupa surge como uma questão identitária. “Para se pertencer a um grupo e ao mesmo tempo se diferenciar de outros que não se tenha afinidade”, explica.

Até a década de 50 a moda tinha um padrão homogêneo, uma silhueta única. Nos anos seguintes, formou-se um novo grupo de consumidores, que romperam com essa estética ao decidirem não se parecer com os pais conservadores. Nesse novo cenário, o grande destaque eram os baby boomers – aqueles que nasceram após a Segunda Guerra Mundial. Pela primeira vez o foco era exclusivamente os adolescentes. Uma explosão da juventude em todos os sentidos.

Bragança aponta o crescimento da moda industrial como outro aspecto que incentivou essa fragmentação. Com a massificação da prêt-à-porter (pronto para vestir) as pessoas deixam, cada vez mais, de fazer roupa sob medida, com costureiros. “A indústria da roupa pronta estava totalmente atrelada com a juventude, porque ela precisava do imediato. E também com o comércio, porque incentivava a produção e a venda em larga escala”.  

Essas coleções abriram o caminho para a popularização de um produto de design a preço acessível, para todas as classes sociais. A moda única é deixada de lado e passa a existir um novo estilo, que varia de acordo com o comportamento. Torna-se um meio de expressar a personalidade e o individualismo.

Os movimentos musicais e a influência na moda

A música e a moda chegaram, lado a lado, a um patamar político sem precedentes no Brasil. Era mais do que ritmo e roupa, era um movimento, pois a música não se limitava aos discos e shows. Tudo deveria fazer sentido, das roupas ao corte de cabelo. O estilo era fundamental, transmitia a essência do que era ser jovem.

MPB, Bossa Nova, Jovem Guarda, Música de Protesto e Tropicália: foram os meios como a música popular brasileira se manifestou nos tempos da ditadura no País. Todos esses movimentos musicais foram protagonistas importantes para a construção da história e da memória do Brasil em 1960. Porém os que mais inspiraram a sociedade no quesito estética foram a Jovem Guarda e o Tropicalismo.

O primeiro chegou para balançar as estruturas, e os quadris, ao som do rock and roll e do pop em 65. O grupo composto por Roberto, Erasmo e Wanderléa conquistaram corações com sua estética mod, terninhos, minissaias, lenços, vestidos tubinhos e cabelos sempre bem penteados. Foram trilha sonora de festas e beijos de adolescentes com os hormônios a flor da pele. Também conhecidos como a “turma do iê iê iê”, que tem origem do “yeah yeah yeah” dos Beatles – maior influência externa -, o grupo teve grande apelo midiático, por fazer parte do programa “Jovem Guarda” que foi transmitido durante três anos pela TV Record. “Quando chegou em 68, eles (a jovem guarda) trocaram a estética mod pelo cabelo e barba grande, roupas mais coloridas e outras inspirações do hippie e de Woodstock“, relembra Flávio.

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Ícones da Jovem Guarda, Roberto, Erasmo e Wanderléa formaram padrões de moda nos anos de 1960 (Reprodução do Tumblr Brasilbrasilbrasil)

Já o movimento Tropicália chegou em 68 para mexer com a mente e a forma que os jovens enxergavam o mundo. “Era uma mistura do moderno com o antigo, o urbano com o rural. Eles romperam com todas as fronteiras entre os estilos existentes na época”, aponta Bragança. O repertório musical era um mix de ritmos, com a crítica à sociedade por trás do jogo de palavras e batidas dançantes. Era o “ser diferente” traduzido em moda, que se reafirmou na década de 70.

As roupas usadas pela Tropicália tinham um papel comportamental importante. O cabelo grande, por exemplo, era a maneira de mostrar que eram inconformados com o sistema e tudo que estava acontecendo. Segundo Bragança, a “Tropicália foi uma afronta comportamental”, por romper com os padrões existentes da época. “Rendas do nordeste, chita, brasilidade, bordado manual, aplicação artesanal, batas, maxi saia, kafta, inspiração étnica e muita cor. Tudo com um tom psicodélico da cultura hippie”, explica o especialista. A regra era o “no sense” (sem sentido), as misturas da Tropicália não tinham lógica e não precisavam ser explicadas, pois falavam por si só.

Vale ressaltar que a moda não deve ser tratada como um tema isolado nesse período. “Primeiro temos que lembrar que estamos falando de um movimento que é muito ligado a musica, mas vem das artes plásticas também. Esse era o clima de 1960. Um clima cultural  revolucionário, de transformação”.

“A Tropicália foi uma afronta comportamental” (Flávio Bragança)

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Reproduzido do Tumblr Alquebrada

O melhor da moda anos 60

Passado o período pós-guerra, a Europa revivia uma efervescência cultural e comercial. Após anos de racionamento, inclusive de tecidos, a moda reocupa o seu espaço e os estilistas exploram toda a sua criatividade. A partir da década de 50, o que se viu foi um extravasar, uma revolução na composição de peças.

A especialista em moda Suzana Cohn relembra que no mundo da costura isso se refletia em novas tendências e o abandono do que vinha sendo pregado pelas grandes maisons dos anos 50, como Dior, Galtieur e Balenciaga. A moda passou a ser, então, democrática, unissex e de caráter contestador, político, identitário e filosófico.

Entre as principais inovações e tendências de moda que marcaram os anos 1960 estão o uso de calças pelas mulheres, as minissaias, calças de cintura baixa e a famosa “Boca de sino”, tecidos acetinados com cores vibrantes, estampas em preto e branco, coloridas e floridas, botas brancas e de verniz, bico fino e salto baixo, taileur com mangas ¾, vestidos tubinho, roupas futuristas, tecidos sintéticos, plásticos e metalizados.

Na mesma época o movimento feminista ganhou força e suas integrantes vestiam-se com um estilo hippie.  A moda também foi afetada pela “vibe” do musical e peças artesanais, como tricô e crochê, viraram tendência. “Os estilistas passaram a procurar, cada vez mais, inspirações internas, no Brasil, e não apenas da Europa, como vinha sendo até então”, conta Suzana.

Ainda na vibe dessa viagem pelo tempo sobre a moda, que tal descobrir qual seria o seu estilo se você estivesse em 1960? Responda ao quiz e descubra!

Reportagem de Raissa Gomes para a disciplina de Oficina Multimídia em Jornalismo

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