Ciência brasileira sofre com cortes no orçamento e isso afeta a vida de todos

Desde os antigos gregos, com pertinentes constatações na matemática e astronomia, além das contribuições para filosofia e ética, a ciência sempre caminhou ao lado do progresso. Os gregos foram pioneiros em dar liberdade à curiosidade. Algumas das questões levantadas por volta de 5000 a.C. ainda estão pendentes de resposta, porém as ideias fomentadas pelos antigos pensadores da Grécia foram pilares em que o mundo atual foi construído.

Como qualquer sustento, a ciência às vezes vive momentos conturbados. A Idade Média foi a cegueira intelectual que ofuscou nomes como Copérnico, Kepler e Galilei. O perigo da aniquilação nuclear durante a Guerra Fria causado pelos resultados de pesquisas atômicas do início do século passado e, agora, o Brasil vive seu momento tempestuoso.

Com a crise que assola o país, diversos setores governamentais sofrem com os cortes no orçamento, um deles é o científico. Fundamental para o aprimoramento de muitas áreas de relevância, como saúde, energia e telecomunicações, a sociedade científica brasileira se preocupa com a falta de recursos. O que leva ao atraso no desenvolvimento do país, de um modo geral.

Mas como pesquisas que envolvem átomos, fórmulas complicadas ou microrganismos invisíveis ao olho nu afetam o nosso dia a dia? Graças a cientistas, hoje temos o refino do petróleo gerando a gasolina e outros compostos que são usados diariamente; a eletricidade gerada a partir do movimento da água, do vento ou até mesmo da luz do sol. Inclusive o nosso maior medo, a bomba nuclear, também é fruto da ciência.

Vamos explorar juntos setores do mundo científico do Rio de Janeiro e descobrir os desafios que são enfrentados pelos responsáveis das inovações e como eles tentam lidar com a falta de recursos para não encerrar trabalhos que podem durar mais de uma década e, uma vez parados, são perdidos para sempre.

A Fundação Oswaldo Cruz (Fiocruz) é um complexo que abriga diferentes centros de pesquisa, ligados ao Ministério da Saúde, ou seja, sem cortes tão agressivos no orçamento, é considerado privilegiado por pesquisadores de outras áreas. Localizado em Manguinhos, zona norte do Rio de Janeiro, oferece espaços de lazer e engajamento científico aos moradores da cidade.

A veterinária Monique Lima, que completou o mestrado e doutorado na Fiocruz, no Instituto Nacional de Infectologia, é responsável por um biotério, um viveiro para animais que serão utilizados de experimentação, onde são elaboradas melhorias para o tratamento de doenças. Os resultados destas pesquisas são disponibilizados para população por meio do Sistema Único de Saúde (SUS).

Toda a infraestrutura que o espaço possui permite que a instituição seja referência em pesquisas da área de saúde. Monique trabalha no Instituto Oswaldo Cruz (IOC). O prédio é simples, porém abriga as mentes que usam a criatividade para fabricar os medicamentos que usamos. A elaboração científica leva tempo. Em alguns casos, pesquisas podem durar mais de vinte anos para trazerem o resultado que a habilite para a produção em massa. Tudo começa com uma pergunta. E então uma hipótese é formulada para responder a esta pergunta.

Munidos de uma hipótese, os pesquisadores fazem uso de um conjunto de regras que o cientista deve ter em mente ao desenvolver sua pesquisa. Segundo Monique, o método científico pode ter duas linhas: a básica, na qual são feitas considerações genéricas, e a aplicada, que como o nome sugere, é a aplicação dos resultados obtidos na pesquisa básica. Os testes irão dizer se ela é válida ou não. Tantas etapas levam tempo.

De acordo com a veterinária, tudo é feito de forma minuciosa. “Todo esse processo desde a pesquisa básica até a formulação que está sendo estudada e caracterizá-la quanto eficácia e segurança, leva anos. Os estudos de vacinas, podem durar em média 15 anos”. O uso de equipamentos caros é essencial para esses testes e análise dos resultados. E esse tem sido o ponto que mais atrapalha os cientistas.

Um exemplo que retrata o presente nebuloso da ciência brasileira é o repasse financeiro realizado pelo poder público. “Em 2013, o investimento foi de 9 bilhões e agora é um pouco mais de 3, em 2016. Não se pode fazer ciência com a verba que o governo oferece. A pesquisa para e não tem volta. É irreversível”. E as mudanças na tecnologia, ou até mesmo o desenvolvimento de uma solução semelhante em outros países, são agravantes que impedem a retomada dos estudos exatamente do ponto onde parou.

Essa pausa impacta os profissionais da área. Isso porque a cadeia de produção envolve coleta dos materiais usados nas pesquisas, manutenção dos laboratórios, produção e, quando pronto, distribuição do produto. Nessas etapas são gerados empregos, visto que são necessárias pessoas para suprir a demanda de todas essas funções. Além do mais, o investimento em bolsas é fundamental. Se não houver mestrandos e doutorandos auxiliando os trabalhos, não tem como fazer ciência.

Monique, que por sua profissão precisa ser otimista com relação ao futuro, não demonstra o otimismo para o cenário brasileiro. Ela é enfática: “A gente ainda vai passar por uns anos tentando recuperar o que foi perdido. Os próximos anos serão de sobrevivência. Nenhum gestor está conseguindo visualizar um futuro que não seja de retrocesso”. Para ela, o Brasil ainda tem um longo caminho pela frente, até estar pronto para vislumbrar uma luz no fim do túnel.

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O estudante de geologia, Felipe de Castro, de 24 anos, entrou para faculdade devido à curiosidade e o amor à ciência. Nunca se contentou com explicações superficiais e viu na graduação a possibilidade de encontrar respostas mais concretas para seus questionamentos. Quando ingressou, o mercado estava em alta, com o “boom” de empregos prometidos pelo pré-sal e seu petróleo: “Em 2012, havia mais vagas de emprego do que geólogos para suprir as vagas”.

Entretanto, o cenário mudou daquela época até hoje e, para Felipe, a crise que afeta o país e, consequentemente, a principal petrolífera brasileira – envolvida em escândalos de corrupção, desvio de verba e lavagem de dinheiro -, é o grande obstáculo da profissão atualmente. “A Petrobras dita o mercado de geólogos do Brasil, mas ela está quebrada”, afirma o estudante de geologia.

E esse poder pode ser observado em números obtidos por Felipe. A Petrobras não só é um local almejado para desenvolver o que foi aprendido na faculdade, mas também um ponto de referência na profissão. Isso pode explicar o porquê da empresa sozinha ter na sua equipe de funcionários 90% de todos os geólogos atuantes no brasil.

Mesmo esse grande número de profissionais, que diariamente desenvolvem trabalhos na estatal, não significa garantia para a próxima geração. É isso que enfatiza Felipe. “De uma turma de 30, um vai conseguir estágio e talvez seja efetivado; o resto continua aí.” Atualmente, a crise gera consequências para todos.

Dificuldades essas que não são vistas apenas na hora de exercer a atividade. Sem dinheiro não há trabalho e nem incentivo educacional. O estudante enxerga aí o principal motivo para ciência estar sendo deixada de lado nos debates sociais. Para ele, o investimento em inovação científica é fundamental. “É importantíssimo para sociedade, porque tudo que é pesquisado traz retorno”.

Outro ponto, segundo ele, é a falta de divulgação dos projetos. “Um absurdo é o Fundão (termo pelo qual é chamado o campus da Universidade Federal do Rio de Janeiro na Ilha do Governador), que é cercado por comunidades e tem diversos projetos bacanas, mas que ninguém dali aproveita”. O futuro vislumbrado pelo estudante não é dos melhores. “Este ano tem eleição, pode piorar ou melhorar, tem que ver”. Felipe escolheu uma carreira que vive um futuro de incertezas, mas que tem, como maior característica, trazer respostas.

Na contramão do Felipe, está Thais Rosa, estudante do terceiro ano do Colégio Estadual Bangu, na zona oeste do Rio de Janeiro. Num passeio na Fiocruz, ela conta que cresceu perto da natureza e tem curiosidade pela área. “Conhecer o espaço onde são realizadas as pesquisas, pode despertar o interesse de outros alunos pela profissão”, acrescenta.

A visita da escola foi promovida pelos professores do Colégio Bangu. Entre os organizadores, José Ricardo Lira, professor de Biologia. Para ele, a atividade serve para mostrar aos alunos que os ensinamentos de sala não estão restritos às provas ou aos vestibulares. “Aqui eles vão entender na prática o que aprendem nas aulas de ciências”. O professor acredita que o primeiro passo para formar um futuro cientista é levar os estudantes até os locais de pesquisa.

Esse é um modo de mostrar que essa profissão não é aquela figura de cientista afastada da realidade, mas sim pessoas apaixonadas pelo meio ambiente e os mistérios por trás disso.  Em virtude de professores como José Ricardo, a ciência brasileira pode ter esperança por dias melhores. O interesse e a vontade dos estudantes de entender os fenômenos do mundo garantem um futuro científico.


Reportagem de Pablo Guaicurus e Pablo Siviero para as disciplinas Infografia no Jornalismo e Jornalismo Digital

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