Haiti Aqui: Projeto integra haitianos à comunidade brasileira

O número de migrantes haitianos no Brasil aumentou 160% nos últimos dez anos, segundo dados da Polícia Federal. Para auxiliá-los, a ONG Viva Rio criou o projeto Haiti Aqui. A organização participa de uma missão de paz no Haiti desde 2004 e, após o aumento no fluxo migratório vindo do país, criou o programa cujo foco principal é a integração dos haitianos à comunidade brasileira, além do auxílio para a obtenção dos documentos oficiais e da promoção da cultura do país em terras tupiniquins.

Francelin Saint-Ilme é um desses migrantes. É com expressão triste que ele mostra o papel carimbado que lhe serve como identidade provisória. Há dois anos tenta tirar o documento oficial, válido por nove anos. Sem conseguir, ele procurou o projeto Haiti Aqui. Ele veio do país em busca de trabalho para que pudesse enviar dinheiro à família, que ficou em sua terra natal, mas como ainda não tem a Cédula de Identidade do Estrangeiro (CIE), nem isso pôde fazer. Ele tem que apelar para amigos haitianos que conseguiram o registro para que possa mandar o dinheiro à família de forma legal.

O jovem de 29 anos desembarcou no Brasil pelo Acre, depois de uma exaustiva viagem pelas fronteiras da América do Sul. “Depois que cheguei em Rio Branco peguei um ônibus para São Paulo. Foram cinco dias de ônibus. Mas não consegui trabalhar e fui para Rio de Janeiro”, conta ele. O haitiano teve dificuldades para encontrar trabalho devido à falta do documento oficial, mas após seis meses foi contratado pelo Instituto Nacional do Câncer (Inca), em Vila Isabel, como auxiliar de serviços gerais.

Francelin é um dos milhares de haitianos que migraram para o Brasil após o catastrófico terremoto de 2010, que deixou 200 mil mortos e um milhão de desabrigados. Em um país com pouca estrutura, o tremor de magnitude 7 teve efeitos devastadores. A qualidade de vida caiu drasticamente, dando início a um fluxo migratório de pessoas em busca de melhores oportunidades. De acordo com a Organização das Nações Unidas (ONU), o Índice de Desenvolvimento Humano (IDH) do Haiti é o menor do continente americano e mais da metade da população vive abaixo da linha de pobreza.

Assim como Francelin, seu conterrâneo Benneus Joseph, 42 anos, veio de Fort-Liberté para o Brasil em busca de trabalho, que também encontrou no Inca. Sua esposa e filho ainda estão no Haiti, e ele espera pelo dia em que obterá o documento oficial que permitirá trazer a família de que tanto sente falta. “Não quero voltar para o Haiti. Não tem trabalho lá. Quero trazer a minha família para morar comigo. Já faz dois anos que não vejo eles, só falo pelo WhatsApp”, conta Benneus.

A realidade dos dois é muito comum entre os haitianos que entram no Brasil clandestinamente e encontram dificuldades para obter a residência oficial. Quando chegaram em Rio Branco, Francelin e Benneus receberam um documento da polícia local. De posse dele, deveria ser simples obter a CIE, mas o processo no Rio de Janeiro se mostrou complicado. Para tentar resolver o problema, pediram ajuda aos amigos com os quais dividem casa e que também emigraram do Haiti. Eles indicaram o projeto realizado pelo Viva Rio.

É quase sem sotaque que Jean Baptiste, 29, coordenador do projeto Haiti Aqui, explica que a maior dificuldade dos haitianos ao chegar no Brasil é o idioma. O português é radicalmente diferente do crioulo haitiano (créole), que tem suas raízes no francês. “O Haiti Aqui é importante para integrar o que os haitianos podem fazer para participar de forma ativa na sociedade brasileira. Ajudamos com documentos, mas também promovemos a cultura por intermédio da rádio e do próprio programa”, explica.

A Viva Rio tem uma rádio própria, na qual há o programa Voz do Haiti. Como o nome indica, ele é voltado para o público do país caribenho e é veiculado principalmente em créole. Além de informar as principais notícias do país e criar um canal de comunicação com os haitianos, a música desempenha um papel fundamental, ao trazer um pouco da terra natal àqueles que sentem falta dela, como o próprio Jean, que, apesar da saudade, não tem planos de voltar.

O Brasil é o país na América do Sul que mais recebeu haitianos, à frente de Chile e Argentina, devido à relativa facilidade de imigração. Depois do desastre ambiental de 2010 e da crise resultante dele, o governo brasileiro abriu uma nova categoria de vistos humanitários para facilitar a entrada desses imigrantes. O processo foi facilitado com a aprovação, em abril, da Lei de Migração, que substitui o Estatuto do Estrangeiro, em vigor desde 1980. A nova lei garante a eles os mesmos direitos que os de um cidadão brasileiro, além de coibir a xenofobia e o racismo.

“O brasileiro tem uma postura preconceituosa com relação aos imigrantes de países pobres. Isso vem muito da nossa herança da escravidão. Temos que repensar a nossa própria verdade, o preconceito e a intolerância, principalmente contra negros e pobres. Um imigrante norte-americano ou francês que vem ao Brasil para trabalhar não é malvisto, mas o que vem de um país menos favorecido é”, explica Karla Gobo, professora de Relações Internacionais da Universidade Veiga de Almeida.

Não é o que pensa Paula Andrade, estudante de História, 21 anos. Para ela, os imigrantes e refugiados são bem-vindos, ainda que ela não conheça nenhum. “Não tenho nada contra a presença deles no país. Acho que quanto mais gente para gerar renda, melhor para a situação econômica. Tenho convicção que eles devem ser bem tratados e respeitados como cidadãos estando em solo brasileiro. Mas aqui tem muita desigualdade, não seria diferente para outros que vêm de fora”, conta.

Assim como Paula, Gabriel Ramalho, estudante de Engenharia, 18, também aprova a vinda dos imigrantes para o Brasil, que tem recebido a maioria das pessoas que sai de seus países de origem em busca de melhores condições de vida.  “Acho incrível a presença de estrangeiros no Brasil, pois, além de termos ainda mais oportunidades de conhecer novas pessoas de culturas diferentes da nossa, estamos ajudando aquele que infelizmente não pode viver no seu próprio território”.

 

Jean Baptiste e colega

Jean Baptiste e seu colega de trabalho na sede do projeto Haiti Aqui, realizado pela ONG Viva Rio.  [foto: Camilla Castilho]


Camilla Castilho e Tainá Valiati 

*Reportagem realizada para o Projeto Interdisciplinar em Jornalismo I – Impresso.

Um comentário sobre “Haiti Aqui: Projeto integra haitianos à comunidade brasileira

  1. Pingback: Haiti Aqui: Projeto integra haitianos à comunidade brasileira — AgênciaUVA – CONEXÕES SEM FRONTEIRAS

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair /  Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair /  Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair /  Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair /  Alterar )

Conectando a %s