Setembro é o mês da visibilidade bissexual, mas, para quem vive essa orientação, ser visto não se resume a um período do ano. O questionamento sobre a própria identidade, os estereótipos e o apagamento, dentro e fora da comunidade LGBTQIA+, ainda fazem parte da realidade de pessoas bissexuais.
Mesmo com o aumento das discussões sobre diversidade sexual, a bissexualidade ainda é frequentemente associada à indecisão, à confusão ou a uma suposta “fase”. A orientação também pode ser colocada em dúvida de acordo com o gênero da pessoa com quem o indivíduo se relaciona, reforçando a ideia de que é necessário estar em um relacionamento para que sua sexualidade seja validada.

(Foto: Reprodução/Internet)
Segundo o psicólogo e psicanalista especializado em gênero e sexualidade Matheus Wada Santos, a associação da bissexualidade à indecisão tem três fatores principais. O primeiro está relacionado à forma como gênero e sexualidade foram compreendidos historicamente pela filosofia e pela medicina.
“Porque, inicialmente eram focados apenas no corpo masculino (até o século XVIII), só depois abrindo espaço para o entendimento da figura feminina”, explica.
O psicólogo afirma que o reconhecimento da orientação bissexual está ligado à forma como a pessoa vivencia seus afetos, seus direitos, seus espaços de pertencimento e sua própria existência. Segundo ele, o apagamento pode interferir na construção da identidade individual e social, além de dificultar o reconhecimento de si, do próprio corpo e dos grupos aos quais a pessoa pertence.
Entre os estereótipos associados à bissexualidade, também está a ideia de que pessoas bissexuais necessariamente buscam relacionamentos não monogâmicos ou teriam maior tendência à infidelidade. Para Alice Gomes, estudante de Direito e bissexual, esse tipo de julgamento já apareceu em situações do cotidiano.
“Acho que a coisa mais absurda foi acharem que, pelo fato de eu ser bi, só funcionaria em relacionamentos abertos ou que eu faria a pessoa de corna só por isso.”, relata.
O questionamento também aparece quando a bissexualidade é tratada como indecisão ou confusão. Segundo Alice, comentários desse tipo já despertaram sentimentos de tristeza, chateação e raiva. Para ela, a dificuldade está em fazer com que outras pessoas entendam que se interessar por mais de um gênero não significa não saber o que quer.
Alice conta que, apesar de reconhecer a existência da invisibilidade bissexual, especialmente na internet, ainda não passou por esse tipo de situação entre seus amigos LGBTQIA+. Para ela, o acolhimento encontrado nesses espaços fez diferença na forma como vivencia a própria orientação. Mas o fato de essa experiência não fazer parte de sua trajetória não significa que o questionamento deixe de existir para outras pessoas bissexuais.
O psicólogo Matheus Wada Santos acredita que o acolhimento é justamente uma das formas de evitar que a pessoa bissexual tenha sua identidade constantemente colocada em dúvida. Para ele, esse processo passa pelo respeito às vivências, aos afetos e aos relacionamentos, mas também pela disposição de quem está ao redor em rever os próprios preconceitos e buscar informação.
“Esse trabalho passa por três grandes eixos: se esforçar para respeitar a pessoa que está ao lado, seja nas vivências, afetos ou relacionamentos; estar disposto a enfrentar os próprios preconceitos e a falta de entendimento sobre o assunto; e buscar informações por conta própria, sem esperar que a pessoa bissexual seja uma ‘enciclopédia ambulante”, afirma.
A bissexualidade ainda é cercada por ideias que reduzem a orientação a uma fase, uma dúvida ou uma característica que pode ser confirmada a partir dos relacionamentos de uma pessoa. Esse tipo de visão contribui para o apagamento da identidade bissexual e mostra que a falta de informação também pode se transformar em uma forma de invalidação.
Por isso, a discussão sobre visibilidade não se limita à representação ou à existência de um mês dedicado à pauta. Ela também está na forma como a sociedade reage quando alguém se identifica como bissexual, no respeito às suas experiências e na disposição para rever estereótipos que ainda são reproduzidos dentro e fora da comunidade LGBTQIA+.
Em setembro ou fora dele, falar sobre visibilidade também significa questionar por que algumas pessoas ainda precisam provar a própria identidade para serem reconhecidas e respeitadas.
Foto de capa: Reprodução/Pinterest
Reportagem de Isabel Menezes Ferreira, com edição de texto de Cássia Verly
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