Se na sexta-feira, o Rock in Rio teve Foo Fighters fechando a noite, esta edição de 2026 continuou com as guitarras no sábado, mas agora para um dia voltado totalmente para o metal. Este novo dia 05, teve, na maioria do line-up, bandas um pouco mais novas comparados aos esperados metaleiros figurões. Uma das únicas mais antigas foram os veteranos do Sepultura, fazendo seu último show no Rock in Rio na parte final da sua turnê de despedida. Fora isso, Avenged Sevenfold, o grande headliner da noite, começou suas atividades por volta dos anos 2000, assim como Bring Me the Horizon. Nomes como Poppy, Bad Omens e até mesmo Black Pantera, renovaram o público de metaleiros na Cidade do Rock. Mesmo provocando uma distância do público purista do gênero, os homens mais velhos, isto criou uma narrativa curiosa com bons shows e apresentações ruins neste segundo dia de Rock in Rio.
O dia do Palco Mundo começou já com o “pé na tábua” com Sepultura, mais uma vez se apresentando no Rock in Rio. Esta é a oitava vez que o grupo mineiro de heavy metal se apresenta no festival, e a última de todas por conta de sua turnê de despedida que dura desde 2024 com previsão de encerramento em novembro de 2026, em São Paulo. Esta apresentação foi especial para celebrar a trajetória exclusiva do vocalista Derrick Green, ou seja, todas as canções de 1997 em diante, algo criticado pelos fãs de longa data da banda. Porém, durante o primeiro grito de Green, o público acumulado na frente do Palco Mundo já estava se movimentando com mosh pits (as famosas “rodas punk”). Mesmo embaixo de chuva, os fãs do Sepultura estavam em peso sentindo a energia de um dos últimos shows dos metaleiros, que anunciaram o fim das atividades em 2023. Em um dos momentos, o guitarrista Andreas Kisser agradeceu à “sepulnation” pelos 42 anos de estrada e também a Derrick Green e ao jovem baterista Greyson Nekrutman, que integrou à formação da banda em 2024.
O Palco Sunset também foi movimentado durante o sábado, 6. Após o Sepultura, os também mineiros da Black Pantera trouxeram uma boa carga do metal brasileiro à Cidade do Rock. Recentemente, o trio de Uberaba, Minas Gerais, lançou seu mais novo e político álbum de estúdio, “Continental”, e estreou parte do repertório no palco. Mesmo que um grupo pertencente ao rock underground, eles conquistaram seu espaço na cena metaleira nacional e se apresentaram pela primeira vez no festival. Com forte carga política em suas letras, como “Fogo nos Racistas” e “Padrão é o Car****”, em que fala “Jesus não era branco / A vida começou no continente africano”, em um momento do show teve tempo para manifestações contra Bolsonaro (“nem o pai, nem o filho”, disse o baixista Chaene de Gama).
A Black Pantera recebeu, quando cantaram “Serotonina”, a vocalista Prika Amaral da banda de thrash metal Nervosa, convidada especial do trio. Infelizmente, durante a exibição pela televisão, os vocais da cantora não foram captados, ao contrário durante a apresentação na Cidade do Rock. A representatividade é algo que dá visibilidade para ambas as bandas, em que Black Pantera todos os integrantes são negros e a Nervosa tem somente integrantes mulheres. Essa representação no metal fez a Pantera realizar o convite, acertado por toda química no palco, especialmente no cover de “Obrigado Não”, composição dos anos 1990 de Rita Lee.
De volta ao Palco Mundo, o Rock in Rio 2026 recebeu mgk (conhecido também como Machine Gun Kelly). Por algum motivo, encaixaram o artista no “Dia do Metal”, mesmo o artista focado no pop punk e no pop rock. Começou no trap rap, mgk tem uma carreira confusa, cada disco tem uma vertente sem uma identidade concreta, e agora está no meio de nomes de peso do rock pesado de bandas como Bring Me the Horizon e Avenged Sevenfold. Durante os primeiros minutos, ele entendeu o seu desencaixe no line-up em um dia carregado por metaleiros. Mesmo diante de esforços, como novos arranjos com guitarras metálicas em canções como “Till I Die”, uma superprodução com uma cabeça de Estátua da Liberdade (referente à seu último disco, “Lost Americana” de 2024) e até mesmo dançarinas, foi realizado o show mais apático e desengonçado do dia. Mesmo com anos de trajetória, mgk não convence como um rockstar por suas performances e letras bobas, falta de carisma e atitude punk somente a olho nu.
Retornando ao Palco Sunset, um dos shows mais aguardados da noite foi Poppy, uma estrela do pop alternativo que fez uma transição muito bem aceita ao nu metal com o álbum “I Disagree” (Sumerian, 2020). Desde então, ela já colaborou com nomes como BABYMETAL, Knocked Loose e Amy Lee do Evanescence. Esta foi sua estreia no Rock in Rio, um ano após ser o ato de abertura da última turnê de Linkin Park pelo Brasil. Logo após a cansativa apresentação de mgk, Poppy relembrou ao público a temática metal do dia. Em uma setlist que transita em canções mais melódicas, como “have you had enough?”, e também faixas mais experimentais, “Scary Mask” e “Concrete”, a artista, toda fofa e serelepe, percorreu a parte metaleira de sua carreira. Mesmo para um público que não seja o mesmo de Avenged Sevenfold, Poppy se mostrou competente com sua banda, apresentando bons riffs metálicos e poderosos.
Mesmo não sendo o grande headliner da noite, os britânicos da Bring Me the Horizon, com certeza, foram um dos shows mais aguardados deste sábado. A multidão estava empolgada em um show lotado de uma das mais populares bandas de metalcore (gênero que mistura batidas e guitarras intensas de ambos metal e punk hardcore). Diferentes de grupos mais rústicos deste estilo, a BMTH é conhecida por misturar timbres eletrônicos e refrões melódicos ao subgênero, criando um fenômeno pop com álbuns como “Sempiternal” de 2013 e “Post Human: Nex Gen” de 2024.
A apresentação começou bem, certamente uma das mais agressivas da noite, complementadas por uma superproteção de telões e interlúdios com temática de videogame. Em muitos dos momentos, o vocalista Oliver Sykes arranhou um português por seu convívio no Brasil com sua esposa, a modelo Alissa Sales, com quem tem dois filhos. Após o final do show, ficou claro que este foi um dos mais catárticos da edição de 2026, acompanhado de uma penca de hits e até participação de um brasileiro, o JP, no meio da performance para cantar “Play for Plagues”.
Por fim, encerrando a noite de sábado para domingo, Avenged Sevenfold subiu ao palco do Rock in Rio pela terceira vez ao festival e oitava ao Brasil. O grupo californiano de heavy metal veio ao país em janeiro deste ano para apresentações solo em São Paulo e Curitiba. Eles estão de volta ao Rock in Rio após também terem sido headliners do Dia do Metal de 2024. Para os fãs do grupo, eles estão em um momento estranho: seu último lançamento, o EP “Statica” de 2026, tem uma produção mais eletrônica, com muita modulação de voz e que não foi nada bem recebido pelo público. O show começou com atraso, com a equipe técnica configurando os telões e as estruturas do palco.
Liderados pelo vocalista M. Shadows, cada um dos membros entrou no palco usando um tipo de roupa, como se cada um fizesse parte de uma banda diferente. A banda, conhecida pela mistura de elementos progressivos ligados à uma linguagem mais popular, muito parecido com o que o Muse faz, trafegou, em sua setlist, por toda sua carreira. De músicas de álbuns como “City of Evil” de 2005, “Avenged Sevenfold” de 2007 e “Hail to the King” de 2013, o A7F equilibrou o som despojado do metal alternativo com o épico clássico do heavy metal. Mesmo assim, a banda pareceu diminuida pelo extremo emocional causado pela banda anterior no Palco Mundo.
O que na sexta-feira, 4, o Dia do Rock parecia confuso em seu foco dentro do guarda-chuva roqueiro, no dia 5, o Dia do Metal apostou no ecletismo. Apesar da coesão entre o segmento cronológico dos shows parecer confuso, a dinâmica de rock pesado pareceu eficiente. Apenas o show de mgk pareceu desajeitado para os metaleiros, que receberam um prato cheio, principalmente, com Bring Me The Horizon.
Foto de capa: Divulgação/Rock in Rio
Reportagem de Vinicius Corrêa
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