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A ascensão do rap feminino e a conquista de espaço das mulheres na cena

Presentes no hip-hop há décadas, mulheres conquistam cada vez mais espaço e visibilidade em uma cena que sempre ocuparam

A atual geração de rappers brasileiras está transformando a cena do rap nacional, conquistando espaço e popularidade em um mercado historicamente dominado por homens. Grandes nomes como Duquesa, MC Luanna, Ebony, Tasha e Tracie vêm se mostrando cada vez mais em evidência.

Mas, muito antes de o rap feminino ocupar as playlists da nova geração, conquistar espaço nos grandes festivais e viralizar nas redes sociais, mulheres já disputavam seu lugar nos primeiros anos do hip-hop brasileiro. Pioneiras, elas foram fundamentais para a construção e o fortalecimento da cena, abrindo caminhos para as artistas que vieram depois.

Fotomontagem por Regina Lemmi, estagiária sob supervisão de Magaly Prado. (Fotos: Divulgação/da direita para à esquerda: @leticiasuxo/@balbino.x/@isabelleindia_/@valdinei/@isabelleindia_ /@juliojustoo/@stefflima)

Sharylaine é um dos nomes historicamente reconhecidos como pioneira do rap feminino. A artista acompanhou de perto o momento em que futuros gigantes do rap nacional ainda davam os primeiros passos. Muitos dos nomes que hoje são sinônimo de sucesso e reconhecimento no gênero cruzaram seu caminho justamente na fase inicial da carreira, quando tudo ainda estava sendo construído e o rap brasileiro buscava espaço e legitimidade.

Sharylaine Sil.
(Foto: crewactive)

Nascida na Zona Leste de São Paulo, a cantora conquistou espaço na cena no final da década de 1980. A rapper foi uma das fundadoras da Frente Nacional de Mulheres no Hip Hop e, ainda hoje, segue usando sua voz na defesa do protagonismo feminino. Apesar de sua contribuição para a construção do rap nacional, sua trajetória ainda não alcançou o mesmo reconhecimento de outros nomes que ajudaram a consolidar a cena. Resgatar sua história é também reconhecer o papel de mulheres que, muitas vezes, permaneceram à margem dos holofotes, mas foram fundamentais para abrir caminho para as novas gerações.

“O primeiro é porque o hip hop sempre foi uma cultura de rua. E a rua é perigosa para nós mulheres”, destaca a entrevistada

Ana Julia Parreiras, 25 anos, jornalista e entrevistada para esta reportagem, destaca que as mulheres sempre estiveram presentes na cena do rap, mas, por muito tempo, não tiveram espaço ou oportunidades para serem ouvidas. Essa ausência de visibilidade também está relacionada à forma como a presença feminina nas ruas é vista, especialmente em contextos noturnos. Além disso, Ana Julia aponta o trabalho de cuidado como outro fator que historicamente limita a participação das mulheres na cultura hip-hop. Enquanto os homens podem ter mais tempo livre para o lazer e para desenvolver sua criatividade, escrevendo letras e produzindo música, muitas mulheres precisam conciliar a criação artística com responsabilidades domésticas e de cuidado, o que dificulta, desde o início da trajetória, até mesmo encontrar tempo para escrever.

“Não só as artistas mulheres estão tendo mais destaque na cena, como o público feminino na posição de ouvinte do rap aumentou muito também”, explica.

Ela acredita que esse crescimento do público feminino e LGBTQIA+ está muito ligado à identificação. Segundo ela, as artistas estão rimando sobre sexualidade, amor-próprio e vida real, indo muito além de apenas falar sobre a dificuldade de ser mulher no rap. São temas mais íntimos e sensíveis, que acabam atraindo outras meninas. Ela cita como exemplo um show da Ebony no Circo Voador, onde é possível ver muitas mulheres e pessoas LGBTQIA+. Para a entrevistada, isso mostra que o espaço está se abrindo e que essas pessoas são bem-vindas no movimento hip-hop, porque também são parte dele. Ao mesmo tempo, reconhece que, apesar de o movimento pregar a diversidade, ainda é um movimento muito machista e transfóbico.

“Não digo que é mais fácil, mas hoje você tem mais opções e ferramentas para você expor a sua arte como um todo” destaca.

A pesquisadora de mulheres no hip-hop destaca que, embora não seja mais fácil, artistas que surgiram depois de 2020 contam com mais ferramentas digitais para expor sua arte, como redes sociais e plataformas de streaming. Ela compara esse cenário ao de artistas como Negra Li e Flora Matos, que surgiram em um período em que era mais necessário o apoio de uma gravadora e um investimento maior, ressaltando que, hoje, há mais possibilidades para artistas independentes.

“Os caras gostam de rap ou eles gostam de ver um homem cantando rap?”, questiona a especialista.

A jornalista reforça que crescemos escutando homens falando sobre a sexualidade deles, até no funk, mas os mesmos homens não aguentam ver mulheres falando sobre sexualidade. Existe uma identificação dessas mulheres com as experiências retratadas pelas artistas, mas também existe uma resistência do público masculino em consumir o rap feito por mulheres, porque o homem gosta de escutar o homem.

Ana Júlia também reforça a importância de tirar as mulheres desse lugar de quem precisa ser sempre forte e batalhadora. Segundo ela, algumas só querem estar ali para se divertir e fazer música, sem precisar falar o tempo todo sobre força, feminismo ou solidão da mulher negra. A questão, para ela, é que as mulheres já estão ocupando esse espaço e não querem mais ser vistas apenas como minoria, mas como artistas que também podem simplesmente estar ali para fazer rap.

Ainda construindo espaço na cena do rap, Majis Ramalho, 20 anos, e vem transformando experiências e questionamentos em rimas. A artista ganhou maior repercussão recentemente, após viralizar com uma faixa marcada por versos fortes e críticas sociais, colocando em evidência questões que atravessam sua vivência e também a realidade de muitos. Em meio ao crescimento de sua visibilidade, Majis representa uma nova geração de mulheres que encontram no rap não apenas uma forma de expressão artística, mas também uma ferramenta para questionar, denunciar e ocupar espaços.

“A partir dali, enxerguei o potencial da rima como ferramenta para dar voz, sentimento e possibilidade aos meus iguais. Passei a encontrar sentido em seguir esse caminho e desenvolvi ainda mais apreço pela cultura hip-hop”, comenta a artista.

A artista conta que seu primeiro contato com o hip-hop aconteceu por meio do pai. Criada em um lar evangélico, a maioria dos artistas que conheceu inicialmente vinha do meio gospel, como Ao Cubo e Thalles Roberto, que marcaram sua trajetória musical. O contato mais profundo com o rap, no entanto, aconteceu mais recentemente, em 2025, com o lançamento de 137 anos.

“Uma indústria majoritariamente dominada por homens medianos, que ainda nos colocam na posição de precisar entregar 10, 15 ou 20 vezes mais para receber o mesmo reconhecimento”, critica.

Majis comenta que as dificuldades de ser mulher na cena do rap continuam sendo as mesmas: contratantes que inviabilizam os shows ou que não estão dispostos a pagar nem metade do que pagariam a um homem. Além disso, há a falta de credibilidade que muitos produtores demonstram, mesmo de forma indireta, em relação ao trabalho.

“Por outro lado, a cena do rap me abraçou calorosamente”, afirma Majis.


Apesar das dificuldades enfrentadas com produtores e contratantes, a rapper comenta sobre o apoio que recebeu de diversos artistas ao longo de sua trajetória. Segundo ela, a cena do rap a acolheu de forma calorosa, com nomes como Caio Prince e MC Luanna, que a apoiam e acompanham há anos. MC Hariel também teve papel importante nesse percurso, ao oferecer oportunidades essenciais para que ela iniciasse, de fato, sua trajetória no rap. Além disso, a troca de experiências com 2ZDinizz trouxe visibilidade e abriu caminhos importantes para a artista. Ela destaca ainda que recebeu apoio de muitos outros artistas que, embora nem sempre estejam no mainstream, continuam incentivando e acompanhando sua caminhada.

“Eu não quero apenas ocupar um espaço dentro do rap feminino. Quero ser referência na cultura hip-hop como um todo”, reforça.

Em sua visão, ainda existe uma tendência de homens valorizarem e darem maior credibilidade a outros homens, enquanto as mulheres encontram força no apoio e acolhimento mútuos. Por isso, ela deseja transitar entre esses dois espaços e construir uma trajetória capaz de alcançar diferentes públicos. Para a rapper, sua arte representa não apenas expressão, mas também a possibilidade de inspirar esperança, identificação e liberdade, especialmente entre seus semelhantes.

Recentemente, tem ganhado força no Rio de Janeiro e em São Paulo um movimento marcante de encontros voltados para fãs. No último sábado (22), aconteceu um especial Flora Matos, em São Paulo, comandado pelas DJs DaBomb e Negronica.

“A Flora Matos em específico tem uma construção muito forte na cena muito antes do cenário atual formado por essa nova safra de mulheres no rap”, afirma a artista.

Adrielle Coutinho afirma que o fortalecimento da cena feminina tem criado um cenário mais propício e acolhedor para as mulheres, embora situações desconfortáveis e a desvalorização ainda persistam. Para ela, esse crescimento acontece principalmente por meio da identificação com as letras, os estilos e os espaços, além do apoio de homens que também buscam fortalecer a cena. A popularidade da nova safra, refletida nos números de streaming, também contribui para alimentar essa estrutura e fortalecer a presença feminina.

Apesar do crescimento da visibilidade, a presença das mulheres no rap não é novidade. Elas sempre fizeram parte da construção da cultura hip-hop, ainda que nem sempre tenham recebido o devido reconhecimento. Afinal, o chamado “rap feminino” não deve ser entendido como um subgênero, mas simplesmente como rap — uma expressão artística que, assim como tantas outras, também é construída e fortalecida pela voz das mulheres.

Foto de capa: Colagem/Maryanna Andrade

Reportagem de Nicole Bessa, com edição de texto de Cássia Verly

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