Nas últimas semanas de agosto foram realizados diversos eventos da prefeitura do Rio de Janeiro em comemoração aos dez anos dos Jogos Olímpicos e Paralímpicos Rio 2016, que ocorreram em agosto daquele ano. Nesta última década, a cidade passou por transformações a partir do evento esportivo e problemas provenientes da falta de compromisso com o legado. No Museu do Amanhã, no dia 5 de agosto, foi inaugurada a exposição “O Amanhã Olímpico: Legado e Futuro” que traz a memória da preparação e da realização dos jogos na cidade, além das transformações ocorridas provenientes dos jogos.
”O legado olímpico não é algo que a gente guarda numa caixa, ele está vivo na vida dos cariocas. Estamos falando dos BRT´s, Terminal Gentileza proveniente do IBC (Centro Internacional de Transmissão), os quatro ginásios educacionais tecnológicos que foram feitos a partir da Arena do Futuro, o Museu do Amanhã, Porto Maravilha e região portuária”, declarou o prefeito Eduardo Cavaliere.
Durante a palestra mediada pelo prefeito, foi anunciado que estavam previstos à época 17 projetos de legado pela cidade, porém foram entregues 30 após a realização dos jogos. Dentre as entregas, estão a construção de quatro corredores expressos do sistema BRT, os museus no Boulevard Olímpico, o Centro de Operações Rio (COR), os Piscinões da Praça da Bandeira e o Saneamento da Zona Oeste.
Para Rafael Lisbôa, jornalista e mestre em Relações Internacionais, o Rio de Janeiro foi escolhido como sede dos jogos pelo motivo de o comitê olímpico entender que a transformação causada pelo evento seria maior do que se houvesse sido escolhido uma das outras cidades em disputa na época.
“Do ponto de vista de transformação urbana talvez nenhuma outra cidade tenha tido tanta entrega, talvez apenas Barcelona, que até hoje é exemplo em termos de legado. A escolha do Rio, e do continente como a América do Sul, foi uma estratégia de ajudar o Comitê Olímpico Internacional a mostrar que receber os jogos olímpicos é muito mais do que a realização do maior evento esportivo do mundo, e sim, sobre mudar vidas e impactar socialmente a população”, disse o especialista.

(Foto: Reprodução/Acervo Pessoal)
O impacto na economia carioca, de acordo com a prefeitura, foi de R$ 99 bilhões entre 2009 e 2024, com um impacto no PIB de R$ 51 bilhões. Os empregos gerados chegaram a 465 mil, com mais de 36 bilhões de reais de renda para as famílias cariocas. A população atendida pelo transporte público de média capacidade, cresceu mais que o triplo nos últimos dez anos, com 18% dos cariocas em 2016 tendo acesso a sistemas como BRT ou VLT. Em 2026, esse percentual subiu para os 65%.
Algumas estruturas olímpicas seguem sendo usadas pela população nos dias atuais. No Parque Olímpico da Barra, o chamado “Coração dos Jogos Olímpicos do Rio”, a Arena Carioca 1, palco dos basquete em 2016, é administrada pelo Ministério do Esporte e recebe anualmente eventos esportivos e atividades abertas para o público geral. Já a Arena Carioca 2, está em obras para receber o novo campus do Instituto Federal do Rio de Janeiro (IFRJ) e garantir o acesso ao ensino técnico e profissional para estudantes de comunidades de Jacarepaguá.
A Arena Carioca 3, usada para competições de taekwondo e esgrima, pertence atualmente à Prefeitura e é administrada pela Secretaria Municipal de Educação. Desde 2024, a arena se tornou o Ginásio Educacional Olímpico Isabel Salgado, uma escola pública municipal que conta com ensino de oito modalidades olímpicas. Atualmente, a escola conta com 875 alunos matriculados do ensino fundamental e 24 salas de aula, além de instalações esportivas.

(Foto: Divulgação/Prefeitura)
A Arena do Futuro, construída sob o conceito de arquitetura nômade, foi desmontada e deu origem a quatro Ginásios Educacionais Tecnológicos (GET´s) distribuídos na Zona Oeste da cidade entre os bairros de Bangu, Campo Grande, Santa Cruz e Rio das Pedras. Outra estrutura desmontável foi o Estádio Aquático Olímpico, que teve o deslocamento da piscina olímpica, onde Michael Phelps conquistou o ouro, para o Parque Oeste, localizado em Inhoaíba, na Zona Oeste. O local oferece aulas de natação para mais de 2 mil alunos.

(Foto: Divulgação/Prefeitura)
O velódromo continuou recebendo competições de ciclismo após as olímpiadas e recebia treinamentos e práticas esportivas de diferentes modalidades. Em agosto de 2025, foi inaugurado no local o Museu Olímpico, que reúne artefatos e conta a história desde a escolha da cidade como sede, passando pela preparação, até a realização da Rio 2016. Em abril deste ano, o espaço sofreu um incêndio causado por um curto-circuito em uma das salas e, desde então, se encontra em reformas na estrutura.
A Vila dos Atletas, atual Ilha Pura, virou empreendimento imobiliário e hoje em dia possui infraestrutura de um bairro planejado. Sob um custo de R$ 2.9 bilhões bancados por um consórcio formado pela Carvalho Hosken e Odebrecht, a Vila recebeu duras críticas de acabamentos durante os jogos e teve dificuldades de vender as unidades dos 31 edifícios que contam com área de lazer, piscinas, quadras poliesportivas, colégio e rede de supermercado.
Em Deodoro, o Parque Radical continua em pleno funcionamento com o Estádio Olímpico de Canoagem Slalom e a Pista de BMX. Administrado pela prefeitura, o local serve como área de lazer para a população da região, além de atender milhares de pessoas em projetos sociais e competições. Já o Centro Olímpico de Tiro, a Arena da Juventude, o Centro Olímpico de Hóquei e o Centro Nacional de Hipismo ficam localizados em uma área sob responsabilidade do Exército e chegaram a ter as atividades suspensas em março de 2025 por falta de repasse do Ministério do Esporte.

(Foto: Reprodução/Riotur)
No quesito de infraestrutura, o Rio teve avanços significativos em mobilidade urbana, mesmo que com diversos atrasos em projetos, até 2016 foram inaugurados os corredores expressos do BRT: a TransOeste, TransCarioca e TransOlimpica. Atualmente, o sistema também conta com a TransBrasil, corredor construído na pista central da Avenida Brasil que liga Deodoro, na Zona Oeste, com a região portuária do Rio.
O Terminal Gentileza, construído com reaproveitamento de materiais do IBC, é um dos principais pontos de conexão entre modais de transporte da cidade. O terminal integra linhas de ônibus municipais, linhas do BRT TransBrasil e o VLT.

(Foto: Divulgação/Prefeitura)
A linha 4 do Metrô, que liga a Barra da Tijuca à Zona Sul, construída para os jogos olímpicos, teve o traçado modificado e transporta hoje cerca de 100 mil passageiros diariamente. Com 10 anos de operação, a estação da Gávea, parte do traçado planejado, ainda não foi concluída. Após anos de paralisação, inundação da estrutura para garantir estabilidade e escândalos de desvio de dinheiro público, as obras retornaram em 2025 com previsão de entrega para o final deste ano.
A derrubada da Perimetral foi um dos pontos mais importantes na transformação da região portuária da cidade. O local foi transformado no Boulevard Olímpico, por onde passa o VLT e conta com equipamentos de cultura e lazer como o AquaRio e o Museu de Arte do Rio, além do próprio Museu do Amanhã. No Porto Maravilha, novo bairro e parte do legado olímpico, estão sendo erguidos diversos condomínios residenciais, com intuito de revitalizar a região que por muitos anos foi sinônimo de abandono.
Em relação a áreas verdes, o Parque Madureira se tornou símbolo de lazer na Zona Norte e no subúrbio carioca, sendo um dos principais legados deixados pelos jogos. Inaugurado em 2012, o espaço transformou uma região abandonada do bairro em um local de encontro de famílias e recreação, com quadras poliesportivas, bares, brinquedos e pista de skate, e virou exemplo para a criação de outros projetos como o Parque Oeste e o Parque Realengo.

(Foto: Marcos Paulo)
“Na época, o Rio se comprometeu em entregar 17 projetos de legado, entregando 27. Por exemplo, o Porto Maravilha não estava no dossiê de candidatura, nem o Metrô da linha 4 e a TransOlímpica, ou seja, foi utilizada a desculpa das Olímpiadas para fazer obras que nunca saíram do papel. O Parque Madureira, onde foram levados os aros olímpicos doados por Londres, é um projeto em um bairro que não havia relação direta com as áreas esportivas que receberam competições, mas foi construído como parte de um legado para o lazer da população”, completou o jornalista.
Para Maicom, de 23 anos, os Jogos Olímpicos possibilitaram grandes reformas urbanas, visibilidade para o exterior e a importância do Parque Madureira.
“Na época das Olimpíadas, tiveram algumas reformas e construções que buscaram melhorar a vida urbana. A visibilidade que o Rio teve para o mundo, com muito turismo, muita gente nova vindo para cá, a gente ligava a televisão e só dava Rio de Janeiro. O Parque Madureira em si é um espaço único aqui na Zona Norte. A gente entra aqui e tem espaços verdes, banheiros públicos, existe uma preocupação com a limpeza do local, além de ter muita gente que vem se exercitar e se divertir aqui nesse espaço cultural, muito importante para a Zona Norte”, afirmou o jovem.
Embora as muitas transformações urbanas melhorarem a vida dos cariocas, a segurança e saúde pública são pontos que não receberam devida atenção nos anos posteriores aos Jogos Olímpicos. Além das obras apoteóticas e as grandes transformações na cidade, o legado pós olímpiadas ainda teve lacunas com problemas sociais ocultados no período do evento esportivo. A Vila Autódromo, em Jacarepaguá, é um dos grandes reflexos dos resultados de abuso de poder e descaso social causados pelas olímpiadas.
Na Zona Norte, a construção do Parque Madureira deu destaque para o bairro, mas a insegurança e o descaso ainda permanecem durante à década. Dona Jane, aposentada de 78 anos, destaca a importância das olímpiadas para a geração atual, porém demonstrou insatisfação com o descaso pelo restante das atividades públicas.
“Há uma falta de presença das autoridades, da polícia, suporte na segurança para que nós habitantes realmente possamos participar da cidade. Antes de fazer uma olímpiada no Rio de Janeiro, é necessário investir em segurança, porque vivemos um momento muito difícil. Aqui mesmo (Parque Madureira) essa semana ja aconteceu dois assaltos”, declarou a moradora.
Um dos pontos levantados pelo especialista Rafael Lisbôa, no qual poderia ter obtido resultados melhores, foi o projeto de despoluíção da Baía de Guanabara, que ainda não obteve os resultados desejados pela falta de investimento necessário do Governo. Além disso, o avanço do projeto só visa a limpeza total em prol do turismo. O jornalista destaca que houve uma melhora no quesito de limpeza, porém não foi entregue exatamente o prometido.
“A Baía de Guanabara chegou em 2016 muito melhor do que estava, houve um avanço na limpeza, tanto que não houve problemas nas competições aquáticas que ali ocorreram. Porém, havia uma promessa do Governo do Estado que não foi cumprida, de deixar a Baía limpa em um percentual de 80%. Hoje, a despoluíção está em andamento e avançando aos poucos”, explicou o jornalista.
Os jogos olímpicos, portanto, deixaram uma marca na cidade do Rio de Janeiro. O legado, ainda em construção, busca beneficiar a população que utiliza os espaços públicos que foram construídos para os jogos. O Parque Olímpico se transformará em um polo de grandes eventos idealizado pelo Roberto Medina, criador do Rock In Rio. Os planos de ampliação de mobilidade urbana também são consequências do evento, assim como a ocupação de novos moradores na região portuária da cidade.
Foto de capa: Wikipédia
Reportagem de Marcos Paulo, com edição de texto de Gabriel Goulart
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