Muito antes de conquistarem espaço em editoras, plataformas de streaming e livrarias, muitas narrativas LGBTQIA+ encontraram nas fanfics uma forma de existir e circular. Em plataformas como AO3, Wattpad, Spirit e Tumblr, essas produções deixaram de ser apenas histórias escritas por fãs para se tornarem ambientes de identificação, pertencimento e representatividade. Ao reinterpretarem personagens de universos já conhecidos, autores e leitores passaram a construir tramas mais próximas de suas próprias experiências, especialmente pessoas queer, que por muito tempo tiveram pouca visibilidade nas produções tradicionais.
Com o crescimento dos fandoms na internet, as fanfics ultrapassaram seus nichos de origem e se transformaram em fenômenos globais. De “All The Young Dudes”, inspirada no universo de Harry Potter, às populares histórias sobre Harry Styles e Louis Tomlinson, da One Direction, essas produções acumulam milhões de leituras e mobilizam comunidades inteiras nas redes sociais. Para a escritora e publicitária Tati Lopatiuk, esse alcance evidencia uma busca crescente do público por histórias mais diversas e emocionalmente conectadas às vivências dos leitores:
“Existe uma certa indulgência em pegar algo que já existe e criar uma nova versão totalmente sua. Essa indulgência vem também de um afeto muito puro e sincero dos fãs, que acaba transparecendo nas obras produzidas, tornando as fanfics extremamente autênticas. Isso contribui para que as obras originadas de fanfics se destaquem, criando conexão com o público. Além de serem histórias de qualidade, as fanfics trazem essa carga emocional que cativa o público de uma maneira muito orgânica, muito fácil de se identificar”, afirma a escritora.
Em uma indústria do entretenimento que levou anos para incorporar personagens e narrativas LGBTQIA+ de forma significativa, muitas pessoas da comunidade ainda se sentem pouco representadas pelas produções tradicionais. A estudante Beatriz Bueno, de 18 anos e leitora assídua de fanfics, comentou como percebe essa questão da representatividade:
“Especialmente na representação lésbica, hoje em dia já temos mais personagens sáficas no geral, mas muitas vezes os relacionamentos não são bem escritos e acabam caindo em estereótipos. Acho que um exemplo famoso seria Stranger Things. A última temporada, no geral, foi muito mal escrita, mas os relacionamentos LGBT deixaram muito a desejar. O relacionamento da Robin e da Vickie foi totalmente construído “por fora”, enquanto todos os outros relacionamentos da série foram desenvolvidos ao longo das temporadas. Acho que isso acontece com muitos escritores que não fazem parte da comunidade e acham que qualquer coisa já conta como representatividade”, afirma a estudante

(Foto: Divulgação/Netflix)
Ainda é importante destacar os diversos estereótipos utilizados por muitos autores ao retratar pessoas LGBT, sejam eles relacionados à aparência, às roupas e aos comportamentos, ou a elementos recorrentes das tramas, como a rejeição familiar. Nesse contexto, as fanfics acabam preenchendo lacunas deixadas pela mídia tradicional, já que apresentam personagens com características e conflitos que vão além da sexualidade, inseridos em histórias que não se limitam a essa questão. Essa construção contribui para que muitos leitores se identifiquem mais com essas narrativas do que com as obras que lhes deram origem.
“Quem sabe o principal ponto que torna as fanfics tão diferentes das histórias tradicionais é o fato de trazer o ponto de vista do próprio leitor/consumidor como protagonista. Quando você traça um paralelo com a publicidade, por exemplo, que precisou mudar com as redes sociais e deixou de impor conversas para tentar fazer parte das que já existem nas redes, é possível entender também na literatura e no audiovisual essa necessidade de ouvir o público e tomar parte de conversas que já estão acontecendo. Estamos saindo do tradicional, do mercado impondo o que devemos consumir, para outro patamar onde o mercado é quem precisa ouvir e acatar o que estamos querendo consumir. Nisso, as fanfics se encaixam perfeitamente, trazendo histórias elaboradas pela comunidade e feitas para o grande público de uma forma muito mais humana e que gera conexão espontânea”, explica a publicitária.
Beatriz também afirma que gostaria de ver mais diversidade em produções leves e cotidianas com personagens LGBT. Segundo ela, muitas obras ainda recorrem a narrativas marcadas pelo sofrimento ou por finais trágicos para personagens queer. Embora considere essas histórias válidas, a estudante destaca a importância de mostrar vivências felizes e comuns, nas quais esses personagens simplesmente existam, sem que sua trajetória esteja necessariamente ligada a uma tragédia.
Apesar do crescimento dessas comunidades, as fanfics ainda são frequentemente vistas como produções amadoras e têm seu valor artístico questionado, mesmo reunindo milhões de leitores ao redor do mundo. Para muitos fãs, essa percepção está ligada ao fato de o público ser formado majoritariamente por jovens, mulheres e pessoas LGBTQIA+, grupos historicamente subestimados nos espaços culturais. Beatriz observa que, embora o tema tenha ganhado mais visibilidade nos últimos anos, as fanfics também serviram como porta de entrada para a escrita de muitos autores e não deveriam ser motivo de vergonha.
A escritora Tati Lopatiuk também explica por que tantas autoras iniciaram sua trajetória literária escrevendo fanfics:
“Quando você vai escrever uma história pode ser desafiador, ainda mais se você estiver apenas começando na escrita, partir do ponto zero para criar todo um universo de personagens, cenários e narrativas. Acho que fanfics são um bom meio de começar porque já partem de um ponto conhecido: os personagens que você já conhece e ama. Você só precisa adaptá-los em um novo contexto que seja seu. Isso torna a escrita menos assustadora, mais familiar, para quem está começando. Sem contar que é divertido brincar com esse ‘faz de conta’ de reimaginar algo que já existe”, afirma Tati

(Foto: Reprodução/Pexels)
Nos últimos anos, o mercado editorial e audiovisual passou a dedicar mais atenção a histórias com representações queer consideradas mais autênticas, especialmente aquelas que já conquistaram espaço entre fandoms e comunidades de fãs. Para Tati, esse movimento reflete tanto mudanças sociais quanto uma estratégia de mercado, já que as fanfics frequentemente demonstram, de forma independente, o potencial de determinadas narrativas e públicos.
Em 2025, a série canadense “Heated Rivalry”, lançada no Brasil como “Rivalidade Ardente”, tornou-se uma das produções mais assistidas do ano e viralizou nas redes sociais. O romance entre dois jogadores de hóquei conquistou o público, mas o que muitos não sabem é que a história surgiu originalmente como uma fanfic escrita pela autora. Na versão inicial, os protagonistas não eram Scott e Kip, mas Steve Rogers, o Capitão América, e Bucky Barnes, personagens da Marvel.
A obra faz parte de uma série literária e corresponde ao segundo volume da saga. O primeiro livro será lançado em breve no Brasil pela editora Alt com o título “Virada de Jogo”, e parte de sua história já pode ser vista no terceiro episódio da adaptação televisiva.
Por fim, mais do que um produto de entretenimento ou uma oportunidade comercial, as fanfics se consolidaram como espaços de identificação e construção de comunidade para muitas pessoas LGBTQIA+. Nesses ambientes, leitores e escritores encontram acolhimento, pertencimento e a possibilidade de compartilhar experiências semelhantes.
“Para mim, a primeira vez que encontrei um senso de comunidade foi através dos fandoms e das fanfics. Você acaba encontrando pessoas que têm os mesmos interesses que você. Crescer sendo uma pessoa queer pode ser muito solitário, então esses espaços de fandom acabam fazendo com que as pessoas se sintam menos sozinhas e consigam se encontrar”, relata Beatriz.
Assim, entre releituras de personagens, representações mais plurais e comunidades formadas nas redes sociais, as fanfics deixaram de ser vistas apenas como um nicho da internet para se consolidarem como espaços de expressão, criatividade e conexão. Ao mesmo tempo em que influenciam os mercados editorial e audiovisual, essas narrativas oferecem a muitas pessoas LGBTQIA+ a oportunidade de se reconhecerem em histórias que, por muito tempo, tiveram pouco espaço na mídia tradicional.
Foto de capa: Reprodução/Pexels
Reportagem de Carolina Bento, com edição de texto de
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