A Copa do Mundo Fifa é um dos poucos eventos capazes de transformar completamente a rotina de um país. Embora no Brasil essa mudança seja marcada por ruas enfeitadas, reuniões para assistir aos jogos e uma atmosfera de festa, a realidade nos três países-sede da edição de 2026 é bastante diferente. Estados Unidos, Canadá e México recebem o maior torneio global de futebol de formas distintas, mostrando como é possível haver diferentes relações culturais com o esporte.
Embora os três países compartilhem a responsabilidade de sediar o torneio, depois de quase um mês de competição é possível perceber que cada um recebe a Copa de uma forma própria. A maneira como a população ocupa as ruas, lota os estádios e se envolve com os jogos revela diferentes relações com o futebol e ajuda a explicar como a experiência de viver uma Copa é tão diferente em cada lugar.
Recebendo 78 partidas, os Estados Unidos está repleto de turistas das mais diversas nacionalidades, que estão fazendo sua festa da forma que conseguem, mas os donos da casa não demonstram a mesma empolgação. Para a brasileira Gabriela Conceição, que atualmente mora em Nova York, a experiência de viver uma Copa do Mundo em um país que não se empolga tanto com a competição é diferente.
“O meu marido é americano. Ele e os amigos dele não entendem nada de futebol. Sabem que a Copa vai começar por aqui, mas não estão animados. Não é aquela coisa de torcer pelos Estados Unidos. O futebol não faz parte da cultura deles tanto quanto faz para a brasileira”, comenta.
Ela ainda diz que sente falta do clima da Copa no Brasil, mas que está adorando sentir a energia que os brasileiros levam para os bares e restaurantes da cidade.
“É muito legal ver que o brasileiro traz essa energia em qualquer parte do mundo, e aqui principalmente. Os imigrantes brasileiros estão representando”, diz Gabriela.
Além dos diversos problemas implementados pelo país, como dificuldades com a documentação e interrogatórios com pessoas de nacionalidades específicas, que acabam desanimando a população, o futebol ainda não ocupa um espaço de destaque na cultura esportiva do país. Os americanos não estão tão familiarizados com a modalidade e a Copa do Mundo começou durante o período das finais da liga de basquete americana, esporte com o qual eles têm muito mais afinidade do que com o futebol.
Dessa forma, mesmo com questões políticas se sobressaindo nos Estados Unidos, a Copa do Mundo tem despertado, gradualmente, a curiosidade de parte da população, principalmente daqueles que moram nas cidades onde estão acontecendo as partidas. Aos poucos, moradores e turistas se unem à atmosfera do torneio e mostram que a energia da competição consegue envolver quem a acompanha, mesmo onde o futebol não é o protagonista.
Assim, o Canadá acaba sendo o meio-termo entre os outros dois países. Assim como nos Estados Unidos, o futebol não é o esporte mais popular por lá, mas, por ser uma das sedes do torneio, o interesse do público pela modalidade aumentou. Embora o hóquei continue sendo o esporte favorito dos canadenses, a Copa do Mundo tem aproximado cada vez mais eles do futebol, seja pela curiosidade despertada ou até pela presença de torcedores de diferentes nacionalidades, que também contribuem para criar uma atmosfera mais próxima da que normalmente se vê em países com tradição no esporte.
Juliana Bortolli é farmacêutica e influenciadora brasileira que mora no Canadá e mostra um pouco da sua vida no país. Para ela, mesmo com o hóquei sendo o esporte mais popular, o futebol vem conquistando seu espaço depois que a temporada da liga chegou ao fim.
“A Copa do Mundo está gerando interesse, mas acredito que o engajamento está crescendo conforme a competição avança e os jogos acontecem em solo canadense”, reflete Bortolli.
A influenciadora também afirma que, para os imigrantes brasileiros, o mais importante é se reunir usando verde e amarelo para assistir aos jogos, independentemente do local.
“O local não tem a menor importância. O importante mesmo é se reunir, além de usar camisas da seleção e decorar os ambientes com bandeiras e cores do Brasil. Mesmo longe de casa, a comunidade brasileira torce junto e transforma os jogos em eventos sociais repletos de energia”, conta a influenciadora.
Se nos Estados Unidos o futebol ainda busca conquistar espaço e no Canadá o interesse cresce aos poucos, no México o cenário é completamente diferente. O país talvez seja o mais parecido com o Brasil quando o assunto é futebol. A latinidade, tão familiar para nós brasileiros, fica à mostra quando vemos a receptividade mexicana com os adversários, a festa ao comemorar uma vitória e os estádios lotados, mesmo quando não é o México quem joga.
Com o futebol fazendo parte dessa cultura, é muito fácil enxergar o que, principalmente brasileiros, pensam quando imaginam uma Copa do Mundo. Muito além do esporte, o povo mexicano celebra algo tão geracional e traz consigo a alma do que verdadeiramente é a Copa do Mundo: respeito, alegria e muita festa, do jeito único que a América Latina faz de melhor.
Com a consistente e até surpreendente participação da seleção durante a competição, os torcedores mexicanos mostrara, que a paixão pelo futebol vai muito além dos resultados. A campanha apenas fortaleceu um ambiente que já era marcado pela festa, pela receptividade e pelo orgulho de receber uma Copa do Mundo em casa.
Ao longo de quase um mês de competição, ficou claro que sediar uma Copa do Mundo vai muito além da organização dos jogos. Estados Unidos, Canadá e México mostram que o torneio também é uma expressão cultural, capaz de revelar diferentes formas de torcer, celebrar e se conectar com o futebol. Das ruas enfeitadas aos estádios lotados e da curiosidade de quem está descobrindo o esporte à paixão de quem o vive há gerações, cada país deposita um pouco da sua própria identidade na competição e reforça que a Copa do Mundo é, acima de tudo, um encontro entre diferentes culturas unidas pelo futebol.
Foto de capa: Reprodução / Instagram / @miseleccionmx_en
Reportagem de Carolina Bento, com edição de texto de Gustavo Pinheiro
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