Uma das grandes sensações da Copa do Mundo Fifa de 2026 foi a seleção de Cabo Verde. Estreante no torneio, o pequeno arquipélago africano conquistou torcedores ao redor do mundo ao fazer uma campanha memorável e encerrar sua participação sem derrotas no tempo regulamentar. Ao longo do Mundial, os Tubarões Azuis desafiaram campeãs mundiais, mostraram um futebol competitivo e transformaram um país pouco conhecido em uma das grandes histórias da competição.
A identificação foi tanta que milhares de brasileiros passaram a torcer pela seleção cabo-verdiana. Um dos símbolos desse carinho foi o goleiro Vozinha, que viralizou nas redes sociais e conquistou milhares de novos seguidores durante a Copa. Mas quem é esse pequeno país que conquistou tantos brasileiros? Formado por dez ilhas na costa oeste da África, Cabo Verde reúne uma rica história, tradições culturais e conexões com o Brasil.

O antropólogo cabo-verdiano Alcides Lopes, que vive no Brasil há 13 anos, afirma que essa conexão entre os países vai muito além da língua portuguesa. Para ele, a maior identificação entre brasileiros e cabo-verdianos está na maneira de enxergar a vida, nas relações cotidianas e nas heranças culturais compartilhadas pelos dois povos.
“Existem outras dimensões da nossa maneira de nos comunicar com os brasileiros que não estão necessariamente ligadas à língua portuguesa, mas principalmente às ordens não discursivas: nas corporeidades, nos temperos, no tato, na percepção da vida e na maneira como lidamos com o dia a dia. Isso nos aproxima muito mais até do que a própria língua”, afirma o antropólogo.
Embora tenha pouco mais de meio milhão de habitantes, o país africano tem uma das maiores diásporas do continente. Estima-se que existam mais cabo-verdianos vivendo fora do arquipélago do que dentro dele. Essa comunidade espalhada pelo mundo é tão presente na identidade nacional que muitos a chamam de “11ª ilha”, responsável por manter vivas a cultura, a língua e as tradições mesmo longe do país.
Muito antes de chamar a atenção pelo futebol, Cabo Verde já ocupava um lugar importante na história mundial. Colonizado por Portugal no século XV, o arquipélago tornou-se um dos principais entrepostos marítimos das grandes navegações portuguesas e serviu como referência geográfica para o Tratado de Tordesilhas, acordo firmado entre Portugal e Espanha. A linha imaginária traçada a 370 léguas a oeste das ilhas dividiu as áreas de exploração das duas coroas e influenciou diretamente a configuração do mapa político das Américas.

O país africano integrou as rotas percorridas pelos portugueses até a chegada ao Brasil, o que ajuda a explicar a proximidade histórica entre os dois países. As ilhas tiveram papel importante na expansão da cultura da cana-de-açúcar no Atlântico. Foi de lá que partiram as primeiras mudas levadas ao solo brasileiro, dando origem a uma cultura que, favorecida pelas condições climáticas e pela extensão territorial da colônia, se tornaria uma das principais bases da economia colonial. Além da cana-de-açúcar, bovinos, caprinos e o inhame também chegaram ao território brasileiro a partir das ilhas cabo-verdianas.
Essa herança da colonização portuguesa ainda aproxima Brasil e Cabo Verde. Além da língua, a presença lusitana influenciou a religiosidade, a agricultura e a cultura dos dois países. Em ambos os territórios, costumes portugueses se misturaram às tradições africanas, dando origem a manifestações culturais próprias que preservam semelhanças na música, na dança, na culinária e no modo de viver. Embora o português seja a língua oficial, é o crioulo cabo-verdiano que predomina no cotidiano da população e reforça a identidade cultural do arquipélago.

Essa identificação também aparece em uma das principais manifestações culturais dos dois países: o carnaval. Cabo Verde mantém uma forte tradição carnavalesca, e sua principal festa acontece em Mindelo, na ilha de São Vicente. O evento já chegou a ser comparado ao carnaval brasileiro e reúne alegorias, carros alegóricos, chamados de “andores” pelos cabo-verdianos, rainhas de bateria e enredos. Hoje, a celebração também mantém uma relação próxima com o Brasil. Segundo Lopes, artistas como Dudu Nobre e outros profissionais do carnaval brasileiro já participaram de workshops e intercâmbios culturais no arquipélago.
“Há realmente uma ressignificação do carnaval, mas isso já vem de algum tempo. Sempre foi um carnaval muito elegante, muito bonito. Eu chamo a atenção para essa dimensão do carnaval de rua, de um carnaval criativo, que explora, de forma irônica, temas políticos”, afirma Lopes.



A festa de rua também está presente em outras ilhas do arquipélago e guarda diversas semelhanças com celebrações populares brasileiras, especialmente as do interior do Nordeste. A ocupação das ruas, a música, a dança e o protagonismo da percussão aproximam essas tradições. Para o antropólogo, é nessa combinação que se percebe uma das maiores conexões entre cabo-verdianos e brasileiros.
É dessa tradição que surgem alguns dos ritmos mais representativos de Cabo Verde. O batuque, considerado uma das manifestações culturais mais antigas do arquipélago, é marcado pelos tambores, pelas palmas e pela dança em roda. Ao lado do funaná e da morna, levada ao mundo por Cesária Évora e transformada em um dos maiores símbolos da música cabo-verdiana, esses ritmos preservam as raízes africanas e seguem vivos na identidade cultural do país.

Boa parte dessa efervescência cultural pode ser vista em Mindelo. Impulsionada pelo famoso Carnaval e pela noite vibrante, a cidade se tornou um dos principais cartões-postais de Cabo Verde e representa um dos destinos mais visitados do arquipélago. O turismo, aliás, é a principal atividade econômica do país e atrai visitantes interessados tanto nas manifestações culturais quanto nas paisagens naturais.
Entre elas está a Ilha do Fogo, onde está localizado o único vulcão ativo do país. A região, que registra erupções de tempos em tempos, desperta a curiosidade de turistas e guarda um segredo gastronômico: é no solo vulcânico que nascem as uvas utilizadas na produção do vinho Chã, conhecido popularmente como Vinho do Fogo e apreciado internacionalmente. A ilha ainda é famosa pelos queijos de leite de cabra, enquanto a cachupa, preparada à base de milho e feijão, segue como o prato mais tradicional do país.






Depois da campanha histórica na Copa do Mundo, a expectativa é que o arquipélago desperte ainda mais o interesse de turistas. O sucesso dentro de campo fez o mundo voltar os olhos para um país que, até então, era pouco conhecido por grande parte do público internacional.
“A nossa expectativa é que as pessoas que conheceram Cabo Verde por causa da Copa sintam vontade de conhecer o país de verdade. Temos muito mais para mostrar do que o futebol. Temos uma história, uma cultura muito rica e um povo extremamente acolhedor”, afirma.
A campanha dos Tubarões Azuis, porém, não deve ser encarada como um milagre, mas como resultado de um trabalho construído ao longo dos anos. Apaixonado por futebol, o povo cabo-verdiano acompanha de perto as principais ligas europeias, reflexo dos laços históricos com Portugal e da forte diáspora espalhada por diversos países. O desempenho da seleção também representa uma oportunidade de fortalecer a identidade nacional e valorizar os talentos do próprio país. Mais do que uma surpresa esportiva, a Copa colocou Cabo Verde em evidência, despertou o orgulho de seu povo e fez o mundo voltar os olhos para um país que sempre teve muito a oferecer.
Foto de capa: Reprodução/FIFA
Reportagem de Nathalia Bittencourt, com edição de texto de Gustavo Pinheiro
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