A Intrínseca traz a primeira tradução de Mãe Noite, do autor americano Kurt Vonnegut, para o Brasil em 2026. A obra, publicada pela primeira vez em 1961, apresenta as memórias de Howard Campbell Jr., um americano recrutado como espião durante a Segunda Guerra Mundial que “caiu nas graças” dos comandantes nazistas. O livro desperta reflexões morais sobre a atuação de Campbell na Alemanha Nazista enquanto revisita as memórias do protagonista.
Howard Campbell Jr. é um dramaturgo americano respeitado que se casa com a atriz alemã Helga Noth enquanto atua como espião dos Estados Unidos na Alemanha. Com o tempo, suas obras chamam a atenção do público alemão e ele se torna locutor de rádio.
Narrando tudo de uma prisão em Israel, Howard Campbell Jr. relembra o antigo apartamento em Nova Iorque, onde permaneceu escondido por ser conhecido como criminoso de guerra. A situação muda quando seu endereço é descoberto e publicado em um jornal, atraindo mensagens tanto de admiradores nazistas quanto de judeus que buscavam vingança. Rapidamente, sua mansarda é invadida por simpatizantes que querem ajudá-lo a escapar. Entre eles está Helga Noth, que Howard acreditava ter desaparecido durante a guerra. Diante da ameaça de ser sequestrado e julgado por crimes de guerra, ele aceita fugir dos Estados Unidos com a ajuda do grupo.
Ao longo do livro, fica evidente que os ideais nazistas propagados em suas transmissões foram ouvidos por diversas pessoas ao redor do mundo, transformando Campbell em um ídolo para aqueles que compactuavam com o regime totalitário. O próprio Kurt Vonnegut afirmou que esta foi a única de suas histórias cuja moral ele conseguia definir com clareza. Segundo o autor, a obra parte da ideia de que as pessoas acabam se tornando aquilo que fingem ser, e por isso é preciso cuidado com os papéis que escolhem representar.
No decorrer da história, Kurt Vonnegut mostra que seu personagem em nenhum momento tenta contradizer ou negar seus feitos nazistas quando é parabenizado por aliados do regime. Essa construção faz com que o leitor, em diversos momentos da narrativa, esqueça que Howard Campbell Jr. era, na verdade, um espião americano.
Em um dos momentos que melhor retratam a dualidade do protagonista, Howard Campbell Jr. relembra a última vez em que viu a família de sua esposa. Ao contar ao pai de Helga Noth que havia sido um espião americano, o sogro reage de uma forma que sintetiza o impacto causado pela propaganda nazista disseminada por Howard ao longo dos anos:
“Eu me dei conta de que praticamente todas as opiniões que tenho agora, que me eximem da vergonha de qualquer coisa que eu possa ter sentido ou feito quando nazista, não vieram nem de Hitler, nem de Goebbels, nem de Himmler… mas de você.”
A trama é interessante para todos que apreciam um bom romance de guerra e espionagem. A obra também funciona para leitores dispostos a refletir sobre como a maneira que reagimos aos pequenos detalhes do cotidiano, assim como aquilo que deixamos de dizer ou questionar em conversas corriqueiras, contribui para formar nossa imagem e definir quem somos.
Foto de capa: Divulgação/Intrínseca
Resenha de Natália Zichtl, com edição de texto de Cássia Verly
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