Em “Eclipse”, Cléo é uma astrônoma que atravessa um momento delicado. Grávida e emocionalmente abalada, vê sua rotina ser impactada pela chegada inesperada da meia-irmã indígena, Nalu, que revela um segredo perturbador capaz de abalar suas estruturas. Paralelamente, surgem indícios inquietantes envolvendo seu marido, o que a leva a buscar a ajuda da irmã para compreender o que está por trás dessas revelações. Dirigido e protagonizado por Djin Sganzerla, em seu segundo longa-metragem, o filme estreia nos cinemas no dia 7 de maio.
A partir desse encontro, as duas passam a compartilhar uma trajetória marcada por descobertas e tensões, que faz emergir lembranças fragmentadas em Cléo e revela aspectos ocultos de suas histórias. Ao longo dessa convivência, o vínculo entre elas se desenvolve de forma imprevisível, gerando transformações que impactam profundamente ambas.

(Foto: Divulgação/Mostra Internacional de Cinema de São Paulo)
A partir desse ponto, o filme constrói sua narrativa por meio de contrastes como o visível e o oculto, o doméstico e o violento, o humano e o instintivo. A presença de Nalu, como personagem indígena, amplia a dimensão cultural da história e reforça a relação simbólica com a natureza. A fauna assume um papel relevante, especialmente a onça-pintada, que funciona como uma extensão sensorial e emocional da narrativa, conectando as personagens a uma dimensão mais instintiva e ancestral.
Um dos elementos mais marcantes da obra está na forma como escolhe conduzir sua narrativa, priorizando a sugestão em vez da exposição direta. Em momentos de maior tensão, especialmente nos que envolvem violência iminente, o filme evita mostrar o acontecimento em si. Em vez disso, constrói a expectativa por meio de olhares, silêncios e atmosferas carregadas, tornando evidente o que está prestes a acontecer sem recorrer à explicitação, o que intensifica a tensão e o suspense.

(Foto: Divulgação/Mostra Internacional de Cinema de São Paulo)
Esse recurso, conhecido como elipse narrativa, desloca o impacto da ação para a experiência do espectador. Não há ambiguidade sobre o que ocorre, mas sim uma escolha consciente de não transformar a violência em espetáculo. O resultado é uma tensão mais psicológica do que visual, que, em muitos momentos, se torna ainda mais perturbadora.
Outro ponto central da narrativa é a forma como o filme aborda a misoginia. Em vez de tratá-la como algo distante ou excepcional, a obra a insere em contextos cotidianos e reconhecíveis, o que a torna ainda mais inquietante. A violência não aparece apenas em figuras explicitamente ameaçadoras, mas também se manifesta em relações próximas e em dinâmicas aparentemente estáveis, reforçando o caráter estrutural e silencioso desse problema.

Nesse contexto, a relação entre Cléo e Nalu ganha ainda mais força. Vindas de realidades distintas, atravessadas por desigualdade, abandono e diferentes formas de violência, as duas encontram uma na outra não apenas confronto, mas também uma possibilidade de reconstrução. A aproximação entre elas é marcada por tensão, mas também por reconhecimento.
A metáfora do eclipse, que dá nome ao filme, sintetiza essa dinâmica. Assim como no conto compartilhado por Nalu, em que sol e lua são separados e brevemente reunidos, as irmãs parecem existir nesse encontro raro e intenso, um alinhamento temporário que ilumina suas trajetórias, ainda que por um curto período.
Ao evitar respostas fáceis e imagens explícitas, “Eclipse” aposta naquilo que muitas vezes provoca mais desconforto: o que é pressentido, mas não totalmente visto. A escolha por sugerir em vez de mostrar não suaviza a violência; pelo contrário, a torna ainda mais próxima e reconhecível. O filme evidencia uma misoginia que não se apresenta de forma distante ou caricata, mas inserida em relações cotidianas, muitas vezes mascarada por afetos e aparências de normalidade.
A escolha de encerrar o filme ao som de “Dentro de Cada Um”, interpretada por Elza Soares, reforça esse percurso marcado por uma violência velada e abre caminho para o diálogo com uma consciência coletiva. A presença da cantora, marcada por uma trajetória de denúncia e resistência, amplia o sentido da obra e ecoa para além da ficção, deixando no espectador uma inquietação que persiste mesmo após o fim.
Confira o trailer abaixo:
FICHA TÉCNICA:
Título: Eclipse
Direção: Djin Sganzerla
Gênero: Ficção, Suspense
Duração: 109 minutos
Foto de capa: Divulgação/@FilmeEclipse/Facebook
Resenha de Fernanda Lopes, com edição de texto de Cássia Verly
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