Há aproximadamente 30 anos, em 1996, Shakira realizou, no dia 30 de novembro, seu primeiro show no Brasil no Teatro Amazonas, em Manaus. Ao longo desta época, até 1997, a artista colombiana com menos de 20 anos se apresentou quase 40 vezes em capitais e cidades brasileiras e, também, em programas de auditório de Serginho Groisman, Luciano Huck e Faustão. Essa simbiose se manteve mesmo com Shakira se tornando uma artista internacional e hits em inglês nas paradas da Billboard Hot 100. A artista aprendeu português antes do inglês pelo carinho cultivado com a cultura e os ouvintes brasileiros por três décadas.
Agora, aos 49 anos, Shakira se apresenta no maior palco e na maior audiência do mundo na praia de Copacabana, no Rio de Janeiro. Um espetáculo iniciado por Madonna e prosseguido por Lady Gaga, em uma primeira impressão, Shakira seria muito “arroz de festa” e não tem a radidade considerada para uma apresentação deste porte. Antes de Copacabana, a última apresentação de Madonna e Lady Gaga foi ambas há mais de dez anos, enquanto Shakira se apresentou no Brasil em 2024, inclusive com a mesma turnê, “Las Mujeres Ya No Lloran Tour”. Mas toda a história cultivada com nosso país, a cultura nacional, o empenho de aprender nossa língua e ter a memória de suas raízes faz mais sentido que cantoras norte-americanas que se remetem ao Brasil somente pelas cores da camiseta da Seleção de futebol.

Shakira iniciou seu show em Copacabana com um atraso de mais de uma hora: sua apresentação estava prevista para começar às 21:45 e a artista entrou no palco quase às 23:00. Antes disso, houve dois atos de abertura genéricos de house music de Vintage Culture, consagrado DJ brasileiro, e Maz, produtor carioca de música eletrônica. Antes do show da Loba, aconteceu uma pequena apresentação de drones em 3D com um lobo, uma animação dos longos cabelos de Shaki e a frase “Te Amo Brasil”, o suficiente para acordar uma platéia entediada pelo atraso.
Ao entrar no palco, a colombiana começa seu show com a música “La Fuerte”, presente em seu último disco “Las Mujeres Ya No Lloran” de 2024. Os momentos em que Shakira cantou as músicas deste álbum, um de seus trabalhos menos inspirados, foram os pontos musicalmente fracos do evento. Enquanto cantava a balada “Acróstico”, o silêncio nas areias de Copacabana foi no mínimo constrangedor e faltou uma adaptação de uma setlist para uma grande parcela do público que conhecia, especialmente, os grandes sucessos da artista de “Pies Descalzos” (Sony, 1995) à “El Dorado” (Sony, 2017).

Isso mudou com a chegada no repertório de “La Tortura”, parceria com Alejandro Sanz e primeiro reggaetón da artista do álbum “Fijación Oral, Vol. 1” (Sony, 2005). Daí em diante, só tiros certeiros: a sequência “La Tortura”, “Hips Don’t Lie”, “Chantaje” e “Loca” foi uma dose de serotonina latina e sulamericana, com uma mistura de reggaetón, cumbia e merengue. Em certas partes da praia de Copacabana, no espaço do público foi dançar aos ritmos hispânicos. Depois disso, ainda teve o famigerado remix de trap de “Ojos Así”, uma das canções mais ousadas de Shakira que, na original, mistura trance com pop árabe, e clássicos do pop rock de “Pies Descalzos” como “Antologia”, que gerou nostalgia do público que viveu a década de 1990.
Um dos pontos altos do show foi a participação especial dos irmãos Veloso. Caetano apareceu primeiro para cantar com Shakira “O Leãozinho”, mágica canção acústica presente em “Bicho” (Phlips, 1977) e primordial para a colombiana aprender português após sua chegada no Brasil. Este momento deixou a desejar na praia pelo som baixo da voz de Caetano e pela música em si não ser uma das mais empolgantes do repertório de Veloso. Maria Bethânia, a “Abelha Rainha”, se juntou a “La Reina” para cantarem juntas “O Que É, O Que É”, samba do cancioneiro de Gonzaguinha. A participação de Bethânia também apresentou problemas técnicos como as imagens do telão não adaptadas para o formato vertical, mostrando na maior parte da apresentação o vão do espaço entre ambas as cantoras, e falhas na voz da artista brasileira.
Outras artistas brasileiras que cantaram com a Loba foram Anitta, com a parceria “Choka Choka” presente em “Equilibrivm”, seu mais recente álbum, e Ivete Sangalo. A baiana cantou com Shaki “País Tropical” de Jorge Ben Jor em ritmo de axé, que ambas já haviam apresentado juntas no Rock in Rio de 2011. Depois disso, teve mais uma pequena leva de hits como “Objection (Tango)” e “Whenever, Wherever”, ambas presentes no primeiro álbum em inglês da artista, “Laundry Service” (Epic, 2001).

No último ato, Shakira convida Raphael Vicente e o coletivo Dance Maré para dançar “Waka Waka (This Time for Africa)”, canção-tema da Copa do Mundo da FIFA de 2010 na África do Sul. O encore, após uma breve despedida, certamente teve a canção que proclamou a artista como “Loba”, “She Wolf” do álbum homônimo de 2010, e “Shakira: BZRP Music Sessions, Vol. 53” com o trecho “las mujeres ya no lloran” que dá o nome da turnê.
Mesmo com algumas barrigas de problemas técnicos e canções que pouquíssimos fãs de carteirinha conheciam, Shakira entregou uma apresentação honrosa e inesquecível nas areias de Copacabana. Apesar de ter feito um show parecido no Estádio Nilton Santos, no Rio, e no MorumBis, em São Paulo, em 2025, a carga especial de ser o rosto de um show deste porte, combinada a toda sua história com o Brasil, foi legítima e bonita. Shakira se manteve a fiel no relacionamento com nosso país que faz fronteira com a Colômbia e cantou hinos de “Estoy Aquí” à “Girl Like Me” com força ao longo de três décadas.
Foto de capa: Rafael Catarcione/Prefeitura do Rio
Crítica de Vinicius Corrêa, com edição de texto de Ana Carolina Freitas
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