Da sala de aula

Elas resistem: os desafios enfrentados por mulheres fotojornalistas no Brasil

Fotógrafas relatam suas vivências, atravessadas por questões de gênero, no campo do fotojornalismo nacional

por Ana Carolina Abreu Amaral

O samba-enredo “História para ninar gente grande”, de autoria do carnavalesco Leandro Vieira, foi trilha sonora do primeiro lugar da Estação Primeira de Mangueira, no carnaval carioca de 2019. Na primeira estrofe da obra, o autor pede para contar ao Brasil a “História que a história não conta”. Nessa perspectiva, é evidente a existência de outras narrativas socioculturais diferentes da tradicionalmente contada pelos detentores de poder – político, econômico e social. No âmbito da fotografia, existe uma luta constante de mulheres fotojornalistas para ocupar novos espaços e reescrever os discursos visuais consolidados por homens ao longo de décadas.

A desigualdade de gênero no fotojornalismo é latente e impacta a construção histórico-social-cultural das sociedades. Uma pesquisa da Women Photograph (WP), plataforma online que objetiva dar visibilidade a mulheres e jornalistas visuais não binários, comprova que há uma acentuada desigualdade de gênero nas agências de notícias globais, sendo inferior a 10% a representatividade feminina nesses espaços. A WP foi fundada pela fotógrafa Daniella Zalcman e consiste em uma iniciativa sem fins lucrativos.

Nesse espaço virtual, há um banco de dados que reúne os trabalhos de aproximadamente 1.300 fotógrafos documentais independentes ao redor do mundo. O relatório da Women Photograph aponta ainda que no período entre julho e setembro de 2021, alguns dos maiores veículos de comunicação mundiais, como New York Times, Wall Street Journal, Le Monde e The Guardian, tiveram um percentual ínfimo de fotografias produzidas por mulheres, publicadas em suas matérias jornalísticas.

Em consonância com a apuração da WP, um estudo intitulado “The State of News Photography: Lives and Livelihoods of Photojournalists in the Digital Age” (O estado da fotografia jornalística: As vidas e os modos de vida de fotojornalistas na era digital), constatou que apenas 15% dos fotojornalistas em atuação no mundo são mulheres, em contraponto com 85% da presença masculina na área. A pesquisa foi desenvolvida pelas Universidades de Oxford e Stirling, em parceria com a World Press Photo Foundation, e foram utilizados os dados de 1.556 fotojornalistas de mais de cem países. E essa tendência ao protagonismo masculino no campo fotojornalístico é evidente também no Brasil, ainda que não existam pesquisas nacionais direcionadas a esse assunto específico.

Um dos raros materiais encontrados sobre a situação de mulheres fotojornalistas no Brasil é a tese de mestrado da jornalista e fotógrafa, Simone Marinho. Sua dissertação aborda as experiências profissionais de mulheres fotojornalistas como uma questão de gênero. Ao longo da obra, a pesquisadora busca abrir espaços de diálogo sobre as desigualdades sociais, a divisão sexual do trabalho, a cultura jornalística, dentre outros aspectos que moldam o cenário fotojornalístico brasileiro. Simone se dispôs a contar um pouco da sua trajetória de vida pessoal e profissional, revelando motivações, desafios e aprendizados na carreira.

A tese de mestrado de Simone Marinho é sobre a situação das fotojornalistas
(Foto: Acervo pessoal)
 

Simone é carioca, mãe de dois filhos, fotógrafa, jornalista formada pela Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ), pós graduada em Fotografia Documental Como Instrumento de Pesquisa Social, mestre em Comunicação Social pela PUC-RIO e uma das fundadoras do movimento “Fotógrafas Brasileiras”. Apesar do nobre currículo, ela revela que não imaginava ser fotógrafa até ser inspirada por um professor, que mostrou essa possibilidade dentro do jornalismo, curso que escolheu pelo desejo de levar informação, esclarecimento e conhecimento para a sociedade, e pelo interesse de conhecer novas realidades.

Imagem do projeto “Mulheres brasileiras”

Fotos de Simone Marinho

Essa constante busca por conhecimentos, histórias e vivências com pessoas e lugares diversos, indubitavelmente, contribuiu para enriquecer a perspectiva de mundo de Simone, que se manifesta consciente das mazelas sociais do país e do mundo, de seus privilégios e da sua responsabilidade como fotógrafa e jornalista. Assim, Simone busca ocupar seu espaço no contexto fotojornalístico e ressalta a importância da representatividade feminina e de outros grupos socialmente marginalizados, no âmbito da comunicação.

“A diversidade de olhares no jornalismo é fundamental nas perspectivas de classe, raça, gênero e sexualidade. Por que do contrário, fica como? Um jornalismo branco, heterossexual, burguês! Não que isso seja algo ruim, mas existem outras realidades, existem outras pessoas nesse mundo que é tão diverso. Acho que olhar para a representatividade é importante”, reflete a pesquisadora Simone Marinho.

Diante dessa assimetria no campo fotográfico e jornalístico, constata-se a iminente necessidade de os veículos de notícias abrirem espaço para novas vozes e narrativas socioculturais e visuais. A falta de representatividade da pluralidade prejudica o contexto comunicacional, uma vez que as notícias são escritas e narradas por indivíduos que carregam no discurso suas subjetividades e vivências pessoais. Assim, o mito da imparcialidade no jornalismo é derrubado, pois a bagagem pessoal interfere, direta e indiretamente, na construção dos discursos repassados ao público que contribuem ativamente na formação de opinião de milhares de pessoas.

É evidente, portanto, a importância e o papel social do fotojornalismo para a coletividade. Nesse contexto, Wania Corredo – carioca, mãe, fotojornalista, documentarista, curadora e colecionadora de diversos prêmios e menções honrosas – marca a história do fotojornalismo brasileiro. O Prêmio Internacional Rey de España e os principais nacionais – Prêmio Esso de Jornalismo, Prêmio Embratel de Imprensa, Prêmio Líbero Badaró de Jornalismo, Prêmio Caixa Econômica de Jornalismo Social, Prêmio Senai de Jornalismo – singularizam a trajetória da fotógrafa. Além de menções honrosas como a do Prêmio Wladimir Herzog de Direitos Humanos e do Rio Grande do Sul de Direitos Humanos.

Wania Corredo ao lado de um blindado da polícia durante uma cobertura fotográfica
(Foto: Acervo Pessoal)
Com a fotografia “Os invasores”, Wania Corredo recebe o Prêmio Internacional Rey de España
(Foto: Acervo pessoal)

Fotos de Wania Corredo

Apesar de tantas honrarias, Wania relata que luta constantemente pela equidade salarial e de oportunidades entre homens e mulheres no meio fotojornalístico. Para a ativista cultural da fotografia, a questão de gênero não pode ser um fator determinante e impeditivo de atuação no fotojornalismo e em qualquer outra área. Ela afirma que as mulheres são tão capazes quanto os homens de exercerem o fotojornalismo, de carregarem os equipamentos fotográficos, de lidarem com os desafios da profissão e de entregarem excelentes trabalhos para as empresas de comunicação e para o público.

A documentarista, ao contar a sua história de vida, descreve-se como uma pessoa inquieta, questionadora, um verdadeiro “furacão”. Wania transitou pelas artes visuais, pela publicidade e pelo jornalismo, antes de se encontrar na fotografia, campo em que construiu um legado para as futuras gerações, principalmente com o Movimento Fotógrafas Brasileiras – uma iniciativa que reúne mulheres profissionais da imagem, com objetivo de trocar conhecimentos e dialogar sobre visibilidade e reconhecimento de seus espaços.

Encontro de 138 mulheres da imagem, no centro do Rio de Janeiro, em 06 de novembro de 2016
(Foto: Julio Cesar Guimarães)

Em sua biografia online, Wania conta sobre a origem do Movimento Fotógrafas Brasileiras: “Quando estava procurando uma foto com as minhas amigas fotógrafas, descobri que não tinha. Isso, em primeiro momento, me impulsionou a entrar em uma rede social e postar essa vontade. Abraçaram essa ideia também Paula Johas, Marcia Folleto, Bruna Prado, Ana Branco, Isabel Góes, Simone Marinho, Andréa Farias, Ana Claudia Fernandes e Marizilda Cruppe, profissionais talentosas e amigas, que se aproximaram para dar apoio nos bastidores e suporte suficiente para acontecer o momento histórico”.

A fotografia acima foi conceituada por Simone Marinho, em sua dissertação de mestrado, como uma metáfora visual contemporânea. Isso porque trata-se de um documento histórico de um coletivo de mulheres fotógrafas, que foi registrado por um homem, em um lugar historicamente importante: a escadaria do Theatro Municipal do Rio de Janeiro. Na imagem, cada mulher presente carrega consigo suas histórias e subjetividades, seus estilos artísticos e fotográficos, suas lutas pessoais e coletivas. Dessa forma, Wania Corredo por meio do fotojornalismo Hard News e do documentarismo, retrata diferentes realidades e denuncia mazelas sociais e humanitárias.

Além de Simone Marinho e Wania Corredo, existem outras mulheres que buscam ocupar espaços e dar visibilidade para questões sociais por meio da fotografia. Uma delas é a Maria Eduarda Dusi, mãe solo, jornalista formada pela Facha, fotógrafa documental, fotojornalista independente e da ONG Favela Radical. Duda Dusi, como é conhecida, conquistou notoriedade em maio de 2021 após sua icônica fotografia, intitulada “As cores da luta”, viralizar nas redes sociais. Esse registro é de uma mulher transexual, vestida com farda militar e com uma bandeira LGBTQIA+, em um protesto contra o atual governo.

Maria Eduarda Dusi busca dar visibilidade a questões sociais com suas fotos
(Foto: Acervo pessoal)
Fotografia “As cores da luta”
(Foto: Maria Eduarda Dusi)

Fotos de Maria Eduarda Dusi

“O meu lado ideológico me levou para a rua naquele dia, e fiz aquela foto. Naquele momento, consegui ter um olhar crítico e fazer uma fotografia com a participação, obviamente, da Alixia Liannessy, uma mulher transsexual que foi a personagem fotografada, e ali havia uma performance intencional, de resistência, uma manifestação popular. Simbólico, não é?”, diz Duda Dusi.

Atualmente, a obra “As cores da luta” está exposta no Instituto Municipal Nise da Silveira, na ocupação artística intitulada “Brasil Delivery”. No entanto, a fotojornalista ressalta que, por falta de incentivo financeiro, essa não é sua fonte de renda principal. Duda também trabalha como fotógrafa freelancer em outros nichos para obter renda e contribuir com o sustento de sua família, composta por ela, sua mãe, filha e avó, que é acometida por Alzheimer em estado avançado.

Na perspectiva de Maria Eduarda, o fotojornalismo ainda é dominado por homens e há uma grande diferença de tratamento entre gêneros nessa profissão. Segundo a fotógrafa, a falta de reconhecimento do trabalho feminino, a insegurança na rotina da profissão, principalmente na cobertura fotográfica de protestos nas ruas, e o descaso de alguns colegas de trabalho homens no ofício, afastam mulheres do fotojornalismo. Esse é um ponto de intersecção de opiniões de Simone e Duda, que enxergam os mesmos problemas.

Além disso, outro fator importantíssimo que influencia a escassez de mulheres na área é a maternidade. Por tratar-se de uma profissão sem rotina e horários fixos, com muitos plantões e com demandas como viagens, a decisão de exercer o fotojornalismo, constantemente, conflita com as demandas da maternidade. E diferentemente das mulheres, os homens que optam pela carreira como fotojornalista geralmente têm mais liberdade para trabalhar, pois o filho estará sob os cuidados da parceira. Para Simone Marinho, o ideal seria que homens e mulheres que desejam se tornar pais e mães pudessem ter as mesmas oportunidades, tanto no campo pessoal como no profissional, de forma equânime sem sobrecargas, privilégios e desigualdades.

No caso de Maria Eduarda, a maternidade solo dificulta ainda mais o exercício da profissão, pois sua filha demanda muito tempo e energia, o que, às vezes, dificulta o foco no trabalho. Para ela, sua mãe é uma figura importantíssima em sua vida, pois é sua rede de apoio e cuida da pequena Rita, para que Duda possa trabalhar. “No modelo social em que a gente vive, em que o filho é responsabilidade apenas da mãe, é humanamente impossível dar conta de cumprir todos esses papéis sociais bem. Eu amo ser mãe, amo muito a minha filha, mas tem dias em que preciso me dedicar mais ao trabalho e não consigo, porque ela requer uma atenção em tempo integral”. Maria Eduarda destaca a sorte de ter sua mãe ao seu lado, pois ela é sua rede de apoio.

“Eu fui para Brasília, fiquei uma semana fotografando a Marcha das Mulheres Indígenas, e só pude fazer isso graças a minha mãe, que cuidou da Rita, minha filha. A gente consegue cuidar plenamente da nossa carreira antes de ser mãe, mas se formos mães, precisamos de uma rede de apoio muito forte para conseguir se doar mais ao trabalho. Esse é o grande desafio”, relata Maria Eduarda.

Outra mulher fotojornalista que atua no Brasil é a italiana Francesca Gennari. A natural de Parma, Itália, tem 33 anos e é fotojornalista independente. A fotógrafa atualmente vive na cidade do Rio de Janeiro e registra a realidade de favelas cariocas, em especial do Complexo de favelas do Pavão-Pavãozinho-Cantagalo, em Copacabana, conhecido pelos moradores como Complexo do PPG. Francesca diz se sentir acolhida no país e revela que enxerga as periferias, diferentemente da maioria da população, de maneira positiva.

Francesca Gennari registra a realidade das favelas cariocas
(Foto: Acervo pessoal)

Fotos de Francesca Gennari 

“A favela fala muito do país, da cidade do Rio de Janeiro e do povo brasileiro. É muito interessante, muito diferente daquilo que estou acostumada. Eu amo aqui, parece que estou na Itália. Se eu pudesse trazer minha família, eu nunca voltaria para lá. Aqui eu gosto muito, a cultura é bem diferente comparando com a América [do Norte] e com Londres.”, afirma Francesca.

Francesca faz uma comparação com Londres pois viveu três anos em território inglês, assim como morou por cinco anos em Nova York e, até o momento, dois anos no Brasil. A fotojornalista italiana conta que veio para o país a trabalho, com o objetivo de fotografar a falta de carnaval na pandemia, como freelancer para a BBC, agência de notícias britânica.

A respeito do cenário fotojornalístico brasileiro e internacional para mulheres, com base em sua vivência, Francesca afirma que a situação é a mesma: a disparidade de gênero entre homens e mulheres segue um padrão global, como mostram as pesquisas apresentadas no início da reportagem da WP e das universidades de Oxford e Stirling. Ela compartilha da mesma opinião que Simone e Maria Eduarda, sobre a falta de credibilidade das mulheres no campo do fotojornalismo.

Diante do exposto, é notória a desigualdade de gênero no fotojornalismo. Mulheres que atuam na área enfrentam desafios diários para conquistarem oportunidades, reconhecimento e respeito. Visto que, no modelo sociopolítico vigente, alguns grupos sociais – mulheres, negros, pobres e homossexuais – são constantemente invisibilizados, estigmatizados e violentados. Por conseguinte, essas minorias não conseguem alcançar os espaços de poder para defenderem seus interesses e direitos básicos, assim perpetua-se um ciclo sem fim de falta de representatividade.

No âmbito do fotojornalismo, o lugar de fala é primordial. A realidade precisa ser vista e registrada por outras perspectivas, por novas lentes. Do contrário, a sociedade continuará reproduzindo as mesmas narrativas contadas, de forma arbitrária, pelos indivíduos que são tratados como referência de universalidade: homens, brancos, heterossexuais e privilegiados.

É inegável a necessidade de uma profunda mudança nas estruturas do corpo social, viabilizando o acesso de indivíduos plurais em espaços e cargos representativos. As mulheres fotojornalistas buscam seu protagonismo para refutar as narrativas históricas visuais arcaicas e reescrever a história, intencionando a construção de um futuro equânime a todos. Elas existem e resistem, contando as histórias que a história não conta.

Reportagem realizada por Ana Carolina Abreu Amaral para a disciplina Apuração, Pesquisa e Checagem, ministrada pela professora Maristela Fittipaldi.

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Agência UVA é a agência experimental integrada de notícias do Curso de Jornalismo da Universidade Veiga de Almeida. Sua redação funciona na Rua Ibituruna 108, bloco B, sala 401, no campus Tijuca da UVA. Sua missão é contribuir para a formação de jornalistas com postura crítica, senso ético e consciente de sua responsabilidade social na defesa da liberdade de expressão.

1 comentário em “Elas resistem: os desafios enfrentados por mulheres fotojornalistas no Brasil

  1. Andre Azevedo

    Trabalho excelente! De altíssimo nível!!!

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