Sociedade

Daniela Arbex: “Construir a memória coletiva do Brasil é o caminho para a não repetição dos erros”

A jornalista realçou a importância da luta antimanicomial, no Salão Carioca do Livro (LER) na última quinta (12)

Na última quinta-feira (12), o Salão Carioca do Livro (LER) foi palco da mesa “Holocausto não é ficção”, com as convidadas Luize Valente, autora do romance “Sonata em Auschwitz”, e a jornalista Daniela Arbex, com quem a Agência UVA conversou exclusivamente, autora do livro “Holocausto brasileiro – Genocídio: 60 mil mortos no maior hospício do Brasil”. A obra resgata uma das histórias mais tristes do País: o dia a dia do maior manicômio brasileiro, o Hospital Colônia de Barbacena (MG), fechado no fim dos anos 80.

Após fazer uma série de reportagens sobre o Colônia para um jornal impresso em Minas Gerais, a jornalista conta ter notado a importância do tema e decidiu produzir um livro-reportagem. Com apuração minuciosa, Daniela juntou relatos de pessoas que estavam presentes no hospital em seus anos de funcionamento, além de documentos e provas a fim de expor os maus tratos e fazer uma denúncia.

“Eu tento fazer com que o leitor se coloque no lugar do outro”, justifica, ao comentar que sempre buscou denunciar violações de direitos.

Seu livro “Holocausto brasileiro – Genocídio: 60 mil mortos no maior hospício do Brasil”, ganha esse nome porque, em suas pesquisas, ela reparou que o modus operandi dos funcionários do lugar era muito similar ao dos nazistas nos campos de concentração, durante a Segunda Guerra Mundial. As vítimas chegavam ao hospital de trem, tinham suas cabeças raspadas, perdiam seus nomes e viviam em condições sub-humanas. Entre os anos de 1930 e 1980, foram contabilizadas 60 mil mortes no hospício.

“As pessoas me falam muito ‘mas Daniela, você só fala de tragédia’, eu respondo ‘não, eu falo da história do Brasil” afirma ela, que além do livro sobre o hospital Colônia, escreveu sobre o incêndio da Boate Kiss, o desastre de Brumadinho e relatos de tortura durante a ditadura civil-militar.

“Holocausto Brasileiro” virou referência para a história da saúde mental brasileira, e a autora destaca que a função de trabalhos como esse é a preservação da história do País. “Se a gente esquece, a gente repete”, comenta Daniela.

“Não podemos continuar fingindo que não vemos. Nós precisamos enxergar para mudar a realidade, e a gente só muda a realidade com conhecimento. Meus livros trazem isso” pondera a autora.

História da Luta Antimanicomial
A luta teve início após o psiquiatra italiano Franco Basaglia analisar o modo como os hospitais psiquiátricos tratavam seus pacientes e concluir que o método não era eficaz — na verdade, em muitos casos piorava a condição mental dos internados. Ele, então, decidiu reformular o método de trabalho das instituições. Franco obteve tamanho sucesso que se tornou referência em todo o mundo.

Movimentos relacionados aos cuidados com a saúde fizeram denúncias das irregularidades e abusos cometidos nos manicômios. Em 18 de Maio em 1987, grupos que apoiavam esses movimentos e adeptos do fim das internações em hospitais psiquiátricos organizaram uma reunião. Nesse encontro, surgiu a proposta de reformar o sistema psiquiátrico brasileiro. Pela sua relevância, a data tornou-se o Dia da Luta Antimanicomial.

Foto de capa: Luiz Alfredo Ferreira/O Cruzeiro

Malu Danezi (3ª período), com revisão de Leonardo Minardi (7º período)

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